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Contemporânea

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    CEENTAA 
    Comunidade, Ética, Estética, Natureza:
    Transformação Agrária e Artística

    O CEENTAA é um contributo para se sair do paradigma actual, já em colapso, e inventar novas formas de vida que brotam de encararmos a Natureza, não como mero conceito, mas como nascimento do qual fazemos parte. Essa transição implica transformar os modelos de produção da comida, mas também da arte, propondo assim o entrosamento de práticas agrícolas com práticas artísticas. Na Contemporânea partilha-se o conhecimento adquirido com o projecto e reúnem-se ensaios autorais e artísticos dos seus participantes, que abrem linhas de leitura sobre o projeto e expandem os temas que lhe servem de base de reflexão e que, de seguida, se desenvolvem.

    O CEENTAA é um projecto cultural e artístico concebido por Miguel Mesquita, Jérémy Pajeanc e Graça Passos que se assume como uma proto-instituição crítica: um dispositivo em formação que questiona e reconfigura os modos institucionais — sociais, políticos e artísticos — a partir de uma prática aberta, situada e em permanente transformação. Inspira-se em Foucault, no olhar crítico sobre as instituições enquanto dispositivos de poder e de saber; em Rancière, na convicção de que política e estética partilham a capacidade de redistribuir o sensível, desfazendo as divisões entre criador e espectador, entre especialistas e não especialistas; e em Raunig, na ideia de prática instituinte — não a fundação de uma instituição estável, mas um processo aberto, coletivo e em permanente transformação. Desenvolve-se, assim, como uma prática instituinte que atravessa criação, programação e recepção, assente na cooperação, no cuidado do comum e na experimentação coletiva.

    Parte de um diagnóstico sobre o empobrecimento das relações contemporâneas, marcadas pela individualização e pela lógica de consumo, procurando reinstaurar condições de vínculo, implicação e pertença. Fá-lo articulando a produção de alimento e a prática artística como dimensões complementares: uma ligada à sustentação do corpo, outra à ativação do sensível, ambas fundamentais à vida em comum.

    O seu principal mecanismo de ação é a criação de uma agrofloresta, onde práticas agrícolas e artísticas se entrelaçam num sincronismo com os ritmos naturais que implica atenção, duração e abertura à imprevisibilidade. Este alinhamento não é apenas operativo, mas também estético e político: propõe uma desaceleração dos processos e uma reaproximação ao real, contrariando formas de artificialização e distanciamento.

    O CEENTAA organiza-se a partir de uma lógica de cooperação e interdependência. A sua estrutura é horizontal, assente na participação voluntária e na responsabilidade partilhada, onde cada um contribui na medida da sua vontade e possibilidade. A comunidade que aqui se constitui entende-se como aberta e em expansão – infinita e, por isso, mais-que-humana – integrando as múltiplas entidades que compõem o seu contexto.

    Enquanto prática, o projeto privilegia o processo sobre o resultado, valorizando o que emerge da experiência e da relação. As residências artísticas que acolhe funcionam como dispositivos de deslocação e reconfiguração, criando condições para um reposicionamento do humano enquanto parte integrante da natureza. Não operam apenas como espaços de trabalho individual, mas como dispositivos de constituição de comunidade. Ao promover a permanência, a convivência e a implicação continuada, criam condições para o surgimento de um corpo coletivo que partilha práticas, pensamento e responsabilidade. Essa comunidade não é um dado prévio, mas uma realidade em construção, que simultaneamente sustenta e redefine o próprio projeto. É nesse movimento recíproco que o CEENTAA se transforma: à medida que acolhe, é também reconfigurado por aqueles que nele participam. Integram este campo relacional – em diferentes momentos e níveis de implicação – André Barata, Ana Rita Teodoro, João dos Santos Martins, Maja Escher, Miguel Pereira, Pedro Barateiro e Salomé Lamas; bem como, no âmbito da agrofloresta, Luís Coutinho, Cláudio Esberard, João Paulo Carvalho, Tiago Fagulha e Fábio Nunes.

    O CEENTAA afirma-se, assim, como um espaço de reflexão, experimentação e ação situada, onde se ensaiam, em comum, outras formas de habitar o mundo.

    Landra e Maja Escher

    Ana Rita Teodoro e Pedro Barateiro

    João dos Santos Martins e Miguel Pereira

    Miguel Mesquita