No dia 21 de Novembro de 2025, eu, Ana Rita Teodoro, e eu, Pedro Barateiro, marcámos encontro na Estação Fluvial do Cais do Sodré para fazermos a travessia do rio Tejo juntos. A acção, foi uma “performance” apenas para nós, no sentido em que, quando estamos com outra pessoa, num encontro de 1 para 1, estamos a actuar apenas para uma pessoa. Será que somos mais verdadeiros quando estamos a fazer algo apenas para uma pessoa?
Até à poucos meses, eu, Ana Rita Teodoro, e eu, Pedro Barateiro, não nos conhecíamos. Marcar um encontro com alguém que não conhecemos bem, mas com quem vamos trabalhar, mostrou-se algo desafiante. Depois da travessia do rio, decidimos caminhar até à Casa da Cerca, onde bebemos chá e conversámos. Partilhámos tempo e espaço. Percebemos que ambos atravessámos este rio várias vezes. Percebemos que o rio Tejo está presente na vida das nossas famílias desde a Beira até Lisboa, e à Margem Sul do Tejo. Ambos crescemos a atravessar este rio. Falámos de várias coisas, e o nosso fluxo de consciência foi de Édouard Glissant, que eu Pedro, estava a ler, e passou para a Ursula K. Le Guin, que eu, Ana Rita, estava a ler. Falámos da lama, da pedra sem água, da sedimentação. Falámos da história marítima que liga o nosso país aos continentes colonizados, falámos da fuga à pobreza e do estuário do Tejo como uma boca.
Comecei a saber quem eu era quando comecei a atravessar o Tejo sozinha – quer dizer sozinha não, com centenas de desconhecidos. A sensação é que estava a fazer algo por mim e, eu ia estudar numa escola de artes “à séria”, António Arroio.
Apesar de não saber isso antes de nos conhecermos, eu também fazia essa travessia, também para ir para a António Arroio.
Importas-te que entre pelo texto? Não quero interromper o teu fluxo. Vou escrever noutra cor para sabermos quem fala. Mas vou mergulhar devagar.
Não interessa muito reproduzir a nossa travessia, ou a nossa conversa. Isso foi entre nós.
Dia a dia, o rio mostrou-me diferentes formas
plano, frisado, ondulado, baralhado, brilhante, opaco, raramente transparente,
talvez translúcido?
Nas suas beiras sempre lixo, beatas ou ratazanas a flutuar de papo para o ar,
Palhas e palhinhas.
É também pelas beiras do Tejo, que passa o comboio que une Lisboa a Vila Velha de Ródão. Na viagem o comboio atravessa duas vezes o rio, em Abrantes e Entroncamento e eu, durante anos atravessei duas vezes por dia, ida e volta Lisboa - margem sul.
Que seguro é poder ir e voltar quantas vezes quiseres.
Eu acho que te disse que ia desenhar para o Cais do Ginjal. Havia um pontão, de onde saía uma estrutura de ferro, que ia dar a um pedaço de cimento no rio, para os barcos ancorarem. O espaço era mínimo, apenas 2 metros por 2, mas eu sentia-me em casa. Um rochedo de cimento armado, que lembra a fragilidade de todos os objectos, e o que os une.
Unia em pontos distantes formando uma linha hidráulica, que coincide em duas infâncias na margem sul e duas infâncias na Serra da Gardunha e na Serra das Talhadas, por CEENTA - Água - Ana Rita Teodoro + Pedro Barateiro sua vez unidas pelo Rio Ocreza, que se junta ao Tejo – ali mais ou menos em Vila Velha de Ródão. Ambos ao convívio da água das mesmas serras, que durante muito tempo organizou e suportou os nossos percursos individuais.
“O sedimento é pois, antes de mais, o país onde se ancora o teu drama…. A paisagem da tua palavra é a paisagem do mundo. Mas a fronteira está aberta.”
“Esta região foi sempre um lugar de encontro, de conivência, e ao mesmo tempo, de passagem para o continente americano. Defini-la-ia, em comparação com o Mediterrâneo, como, pelo contrário, um mar que faz explodir as terras em arco. Um mar que difrata.”
—Édouard Glissant “Poética da Relação”, pág. 40. (Sextante Editora, Porto Editora, 2011, tradução Manuela Mendonça)
Do mar que separa, que empurra “tu para lá” e “eu para cá” ao mar que difracta “daqui para ali e dali para aqui” em múltiplas direcções. Édouard Glissant, nascido e crescido na Martinica, fala a partir da sua experiência crioula, uma experiência atlântica de contacto entre povos que cria sempre outras identidades.
Há uns anos escrevi um poema, mas na altura não sabia que era sobre o rio. Escrevi originalmente em Inglês. Traduzi para português a seguir:
I was born in the margins of a river
a mouth open to the sea.
Learned to draw to escape the narrative
that was written for me.
Nasci nas margens de um rio
uma boca aberta para o mar.
Aprendi a desenhar para escapar à narrativa
que para mim estava escrita.
Ao Tejo várias ribeiras e ribeirinhas se juntam vindas daqui e dali. E, eu não sei se as pessoas se empurram ou se acolhem, ou se, simplesmente se escoam da terra por falta de chuva em tempos secos, ou por falta de uma boa conversa. Uma conversa à procura de um percurso de água ou à beira de um curso de água encontrado. Uma boa conversa ocorre quando algo escorre, está a escorrer, nem em demasia nem em poucochinho… Será um bom nome para um filósofo “Glissant” – “que escorrega”. Convido-te a ouvi-lo conversar.
E se não tivéssemos atravessado o rio juntos? Eu tinha ficado numa das margens, tu na outra. Íamos falando cada vez mais alto. Até deixarmos de nos entender. As pessoas iam começar a reparar que estávamos a falar sozinhos, cada vez mais alto. De repente ia parecer que éramos loucos. Tu a falares de um lado do rio, eu do outro.
Sinto-me muitas vezes na beira... Quando estou à beira de cair, já caí, mas sem cair. É como se fosse possível na “beira” estar em dois lugares ao mesmo tempo, na terra e no rio, só que não.
Só que sim, sou a ratazana de papo para o ar afogada, sou a palhinha que flutua, sou um qualquer corpo de peixe morto, sou lixo sólido. Sou uma qualquer (des)necessidade que me fez estar ali a boiar na beira do Tejo. Esse Tejo que parece com esperteza empurrar o lixo para as suas beiras, embora necessário por vezes, não serve de grande defesa empurrar quando se é assim acolhente – pode ser bom mas pode ser mau.
Ter crescido à beira do rio, permitiu-me não ter de me definir. A massa de água que circula, essencial a toda a vida, mas que desrespeitamos e abusamos de forma constante.
Um gesto para água:
Faz-se com os dedos das mãos juntos, fazendo uma concha mais ou menos acentuada com a palma da mão. Essas conchas vão para cima da cabeça, com uma concha voltada para cima e a outra voltada para baixo (uma voltada para a cabeça e outra voltada para o tecto/céu) e o movimento é, voltar à vez a concha que está para cima para baixo e vice-versa. Os braços estão ao lado da cabeça e podem dobrar ou esticar conforme se quiser, afastando ou aproximando assim as conchas do cimo da cabeça. Pensa em luz e sombra, em deixar cair ou suster, pensa em água, chuva, vapor, nuvem… e em ti, na beira de um rio.
Ana Rita Teodoro é uma artista interdisciplinar cujo trabalho se centra na dança e na criação coreográfica. A sua prática desenvolve-se a partir da ideia de “anatomia delirante”, um conceito que propõe expandir e reinventar as funções do corpo convencionado. Paralelamente, investiga e recolhe canções tradicionais portuguesas cantadas no feminino que integra no seu trabalho . Estudou dança butô, uma influência determinante no seu percurso artístico. É mestre em “Dança, Criação e Performance” pelo CNDC de Angers e pela Universidade Paris 8 (2011–2013), onde iniciou a investigação que deu origem à Coleção Delirar a Anatomia, composta por peças como Orifice Paradis (2012), Sonho d’Intestino (2013) e Palco e Pavilhão (2017), posteriormente publicada em livro (2022). Desde 2007, tem aprofundado a prática do butô através de workshops com artistas e investigadores de referência internacional. Em 2015, foi bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian para estudar no Japão com Yoshito Ohno, e em 2016 desenvolveu uma investigação apoiada pelo Centre National de la Danse, culminando na performance-conferência Your Teacher, please (2018).
Pedro Barateiro trabalha numa variedade de suportes, incluindo escultura, cinema, performance, escrita e desenho. O seu trabalho tem-se centrado na desconstrução de narrativas binárias ocidentais. Realizou exposições individuais no CRAC Alsace (2022), Kohta (2022), Rialto6 (2021), P/////AKT (2020), Netwerk Aalst (2017), Basement Roma (2017), REDCAT (2016), Museu Coleção Berardo (2015), Kunsthalle Basel (2010), Kunsthalle Lissabon (2010), Lumiar Cité (2010), Museu de Serralves (2009), entre muitos outros. Participou em exposições coletivas como a 13ª Bienal de Sharjah (2017), 20ª SESC - Videobrasil (2017), 29ª Bienal de São Paulo (2010), 16ª Bienal de Sydney (2008) e 5ª Bienal de Berlim (2008), e em museus e centros de arte como MHKA, Kunsthalle Munster, Palais de Tokyo, Fundação Gulbenkian, MAAT, Fondazione Giuliani, Le Plateau – Frac Île-de-France. As suas performances têm sido apresentadas em várias instituições como Centre Pompidou, L' École Nationale Supérieure des Beaux-Arts – ENSBA, Théâtre de la Ville e Fondation Ricard em Paris, Teatro Rivoli no Porto, TDMII e Teatro São Luiz em Lisboa, entre outras. Editou vários livros, incluindo a monografia How to Make a Mask, (Kunsthalle Lissabon/ Sternberg Press), The Artist as Spectator e É só uma ferida (Documenta/ Mousse Publishing). Barateiro organiza eventos e exposições na Spirit Shop. Em 2020, juntamente com um grupo de artistas, iniciou a primeira associação de artistas visuais em Portugal (AAVP).