Às Portas de Ródão caminhamos sobre o antigo mar. Sobre a terra emergem os godos, e mais a fundo a argila, numa conjunção singular que parece composta. O quartzo — nas suas mais ou menos puras danças oxidantes da sílica — tem também o seu lugar em velhos mantos de minerais ferrosos; xistos acinzentados, rasgando abruptamente a delicada pontuação. Largas manchas e algumas misturas incertas.
A Maja já conhecia o lugar e abriu-o aos Landra. O ver à medida da mão, à escala da paisagem que se caminha, e que se vai tocando. A recolha da matéria; peneirada, decantada, molhada, moldada, e ampliada ao tamanho do invisível a olho nu. Centrifugada, para ver o que depressa se precipita.
Os falsos barros — granulados, pouco plásticos, ainda que viçosos, chamativos — cobrem de fogo a eira rubra, que recebeu os pontos brancos, leitosos. Noutra escala, os micro-calhaus de quartzo são areias, e as hematites argilas. Uma apaziguante, ou desconfortável, fractalidade. Outra incontestável e tão marcante relação de tamanhos, de formas e de materiais, que novamente parece composta.
Camadas, camadas, camadas. Umas sobre as outras. Umas atravessando as outras, escapando ocasionalmente o incontornável afundamento dos corpos mais densos. Misturando-se, decompondo-se e, ainda assim, em camadas tudo ficando (mexendo, só que devagarinho).
Os Landra são uma dupla artística formada por Sara e Rodrigo, que colaboram desde 2015, quando iniciaram o seu percurso conjunto na Goldsmiths, Universidade de Londres. A sua prática cruza vídeo, composição audiovisual, performance, instalação e intervenção no espaço público, articulando arte, ciência e educação. Paralelamente à formação artística, especializaram-se em permacultura e microbiologia do solo, áreas que integram nos seus projetos, com foco na regeneração de solos e restauro de ecossistemas. Enquanto dupla, constituída formalmente em 2020, têm desenvolvido um percurso consistente a nível nacional e internacional. Em 2025, integram a Orquestra Portuguesa do Solo, da Fundação de Serralves, no âmbito da qual o projeto A Grande Sucessão foi selecionado pelo programa europeu Soilscape, com apresentação prevista para 2027. Desenvolveram performances, projetos participativos e ações pedagógicas, incluindo colaborações com a Fundação Calouste Gulbenkian e o espaço Parasita, em Lisboa. Contribuíram ainda para publicações internacionais, como Permacultures of Care (Routledge), e para projetos curatoriais focados em práticas regenerativas. Desde 2024, desenvolvem Saber a Terra, em Cabeceiras de Basto, dedicado à partilha de saberes ecológicos e ofícios tradicionais, que deu origem a várias publicações.
Maja Escher vive e trabalha entre Lisboa e o Monte Novo da Horta dos Colmeeiros. Concluiu a licenciatura e Mestrado em Arte Multimédia na Faculdade Belas Artes de Lisboa. Bolsa Erasmus em Londres para a Architecture and Visual Arts School. Curso de pedagogia Waldorf em Witten_Annen na Alemanha; Curso de Cerâmica e bolseira em Projecto Individual – no Ar.Co. Participa regularmente em programas de residências artísticas, nomeadamente nas Oficinas do Convento em Montemor-o-Novo com Qual é a coisa qual é ela? que quá é sá é? (2018), no Projecto Participativo Mastro dos Vizinhos na Casa da Cerca – Centro de Arte Contemporânea e How to make it rain (in 5 steps) na Worlding em Londres com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian. Entre as exposições recentes destacam-se: CATHARSIS, Bienal Design do Porto, 2023; MATER, com Virgínia Fróis e Marta Castelo, Pavilhão Branco, Galerias Municipais Lisboa, 2023; SÓ PEDIMOS QUE NOS SEMEIEM NA TERRA, com Sérgio Carronha, Monitor Gallery Lisboa, 2022; e UM DIA CHOVEU TERRA na Galeria Municipal Almada.