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Contemporânea

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    A errância como ferramenta

    Um texto a partir de notas e reflexões de dois anos de CEENTAA

    Ainda não sabíamos que iríamos criar o CEENTAA, reactivando uma memória de 20 anos de presença das artes naquele lugar, e já um texto ocupava grande parte das conversas entre mim, a Graça e o Jérémy. É dificil que, numa conversa com a Graça, o conteúdo não mereça reflexão. Falar de banalidades, no sentido de falar só por falar, não lhe assiste. Não quer isso dizer que as conversas não possam ser sobre coisas simples, mas devem almejar a um autoconhecimento e permitir uma evolução pessoal. Nem sempre isto é fácil. Estamos demasiado habituados à conversa de chácha; ao reclamar, ao cuscar. Quantas vezes os jantares são capturados por conversas que não interessam a ninguém, mas em que todos participamos, numa espécie de desabafo. Na verdade retiramos muito pouco desses momentos. Na cara da Graça, o desinteresse; acima de tudo uma inquiteação, de perceber o potencial perdido destes momentos.
    “O Elogio da Errância” escrito pelo filósofo André Barata, que viria a integrar o projecto, era motivo de muitas conversas, muitas leituras e releituras. Continuou a sê-lo durante o projecto e, talvez só agora, compreendamos completamente o seu alcance, sem ainda assim, entender completamente o significado do texto. Quando a ideia do CEENTAA surgiu o texto tornou-se um mapa.

    NAC – Núcleo de Arte Contemporânea  > > Fará sentido? Colocar obras pelo terreno? Faz-me lembrar tantos parques de arte pública… Também não vejo de que forma as pessoas daqui se poderão relacionar com estes objectos nesse contexto. Mais um pseudo-museu?
    Museu
    Graça (não me parece nada compatível com o que ela pensa e quer)

    Se é para haver relação com a arte aqui, o que faz sentido é recuperar esse histórico/memória colectiva (tanto local como do sistema artístico nacional) – CENTA - convém manter a fonia mas a grafia tem que evidenciar que há algo de novo           outros objectivos

    A haver um projecto aqui, e tendo em conta tudo o que temos vindo a falar – transformação pelo exemplo – tem que se ligar fisicamente ao lugar. 

    ARTE+AGROFLORESTA
    ARTGOFLORESTA – AGROFLORARTE
    (Piroseira AHAHAHA)

    O projecto propunha experimentar modos de estar e de fazer tão contrários aos modelos instituídos para projectos culturais e disseminados pelo meio artístico, que tinha imenso por onde correr mal. A errância apresentou-se, assim, como ferramenta operativa a sustentar o CEENTAA.

    Este texto será, também ele, formado a partir de um processo de errância, tão intrínseco à escrita. Durante os próximos meses será actualizado, deixando-se registada as marcas dessa mutação, à medida que vou rebuscando notas pessoais e recordações que me permitam ilustrar este modo operativo ao descrever o processo em curso. Ao ler-se o final ler-se-ão todos os caminhos por onde ele andou; onde divagou, se focou, se renegou, se redimiu. Para no final, poder ser um princípio.

    Legenda
    Itálicos: notas feitas pelo autor em várias fases do projecto. Não apresentadas por ordem cronológica.

    Miguel Mesquita. Licenciado e Mestre em Arquitetura e Mestre em Estudos Curatoriais pela Universidade de Coimbra. Em 2013 integrou o Centro de Estudos Sociais como Jovem Investigador em projetos interdisciplinares com foco nas áreas de arquitetura, sociologia e arte. Iniciou o seu percurso curatorial no Museu de Serralves com o curador João Ribas, tendo colaborado em diversas exposições, entre as quais “Pode o museu ser um jardim?” (2015), “Sob as nuvens: da Paranóia ao Sublime Digital” (2015), “Salomé Lamas: Paraficção”(2015) e “Helena Almeida: O meu trabalho é o meu corpo, o meu corpo é o meu trabalho” (2015 - 2017). Foi Diretor Artístico da galeria BAGINSKI entre 2015 e 2018. Entre outras, foi curador das exposições “Contenção, Dispersão” (2016), a última exposição individual em vida de Arthur Luiz Piza, “Água, Vinho, Coroas de Flores” (2019), de António Neves Nobre e Igor Jesus e “So Many Names”, de Luísa Jacinto (2025-2026); das colectivas “Through Windows" (2020) e “Leap of faith” (2020) e co-curador da exposição “Shiu! O diálogo do Silêncio” (2019) e do circuito de Arte Pública da 7a edição do Walk&Talk (2017). Foi consultor cultural da ARCOlisboa entre 2018 e 2024. É membro fundador do CEENTAA e, desde 2025, Responsável pelo Desenvolvimento e Estratégia Cultural do Quetzal Art Center. Tem participado como orador e moderador em conferências sobre arte e arquitetura. Escreve regularmente para a revista Contemporânea, catálogos e outras publicações de Arte. Editou e concebeu “O que não sabes merece ser descoberto” o catálogo raisonné do festival Walk&Talk. Em 2021-2022 organizou o programa de investigação curatorial PARTE - Portugal Art Encounters, criado no âmbito da promoção da RPAC (Rede Portuguesa da Arte Contemporânea). Tem uma formação em “Agrofloresta e Agricultura Regenerativa”.