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    Entrevista a Noor Abed e Haig Aivazian

    Marta Espiridião

    por Marta Espiridião
    Nothing Will Remain Other Than the Thorn Lodged in the Throat of This World 
    [Nada sobrará para além do espinho alojado na garganta deste mundo]

    é o título da performance de Noor Abed e Haig Aivazian, a ser apresentada no dia 3 de outubro de 2026 no Porto, e incluída no Programa de Performances da Contemporânea. Por ocasião da sua primeira apresentação em Portugal, Marta Espiridião falou com os artistas-performers, não apenas sobre a performance, mas também sobre o seu trabalho conjunto, as ideias que exploram e as suas perspetivas sobre as crises de violência a que os seus países têm há anos sido, e ainda são, sujeitos. Vindos da Palestina e do Líbano, respetivamente, Noor e Haig têm explorado temas de luz e escuridão, morte e vida, corpo e território, sociabilidade e comunalidade, todos profundamente enredados na constante violência genocida e colonizadora, sem fim à vista, que tem arrasado os seus países.

    Marta Espiridião (ME): Como ainda não vi “Nothing Will Remain Other Than the Thorn Lodged in the Throat of This World”, que acontecerá no Porto já depois da publicação desta entrevista, poderiam começar por elaborar sobre a performance? Podem falar-me um pouco sobre as ações, o simbolismo, os sons e as histórias?

    Noor Abed e Haig Aivazian (NA+HA): Descrevendo o enquadramento de forma simples, a peça é uma performance de uma hora numa sala escurecida, ancorada por uma formação luminosa em T no chão. Cada lado da cruz do T tem uma base de microfone, e o fundo do T tem duas bases lado a lado. A audiência senta-se à volta da forma em T, em proximidade. Movemo-nos entre eles, para a frente e para trás entre os três microfones, falando um com o outro enquanto lemos um guião e emitimos vários sons guturais e nasalados.

    A performance está estruturada à volta de cinco destes sons, cada um introduzindo e esculpindo uma série de espaços políticos e afetivos. Esses espaços são compostos por vários registos, de anedotas pessoais a referências literárias e audiovisuais, alusões à cultura pop, memes e músicas. Os cinco sons são, antes de tudo, uma meditação sobre as qualidades do som, a sua transitoriedade inerente e a sua natureza incontrolável, focando-se nas inter-relações complexas entre corpos coletivos e indivíduos. O texto da performance explora esta complexidade enquanto forma de refletir e corporizar a distância que as reverberações do castigo coletivo viajam, para lá da cena imediata do crime, tal como a amplitude que a aliança para combater o genocídio terá necessariamente que ter.

    O título deriva das palavras de Wadih Sanbar ao seu filho, o diplomata, historiador e poeta palestiniano Elias Sanbar: “Ninguém conseguirá livrar-se de nós. A Palestina é uma espinha alojada na garganta do mundo. Ninguém a conseguirá engolir”.

    De certa forma, levámos esta metáfora muito literalmente ao trabalharmos a partir da garganta, começando com palavras, exaurindo-as e deslocando-nos para lá da linguagem, pondo-a a descoberto, provocando os seus limites em algumas partes e ficando dentro deles em outras, intensificando a sua materialização e os seus usos no presente genocida que vivemos. As nossas gargantas, narizes, bocas, laringes, traqueias e pulmões são instrumentos para desconstruir palavras e vocalizações na sua crua mecânica física, para manifestar como uma vida com algo preso na garganta poderá soar, para expressar como será viver em asfixia. Cada um dos nossos instrumentos introduz uma camada diferente do que é viver num momento de intensificação do genocídio, e é uma chamada aos diferentes tipos de práticas e culturas que temos de construir para sermos capazes de sobreviver e lutar contra o apagamento.

    ME: Como e quando se iniciou a vossa colaboração? Como é que sentem que está imbricada na, e pode divergir da, vossa prática individual?

    NA+HA: A Mophradat juntou-nos em 2024 para uma nova peça comissionada para Read the Room, o festival bianual que organiza com, e no, Teatro Kaai em Bruxelas. Um tipo de encontro às cegas que ambos aceitámos, sem saber ou pedir grande clarificação. Rapidamente reconhecemos os nossos interesses comuns e as sobreposições artísticas, e ficámos entusiasmados e, de alguma forma, prontos a experimentar com coisas que não tinham sido exploradas em profundidade nas nossas práticas individuais. Os principais pontos de convergência, evidentes desde o início das nossas conversas e correspondências, foram a nossa relação com o som nos nossos trabalhos individuais, e a necessidade de criar uma imaginação política coletiva através do que fazemos, da sua realização e partilha, e de uma forma que se mova para lá de uma lógica representacional.

    Também reconhecemos as semelhanças nas nossas posições face à vivência da catástrofe e, com o tempo, tornou-se claro que partilhávamos pensamentos semelhantes sobre o papel que a cultura deve ter neste momento: que necessitamos de pensar e colocar em prática uma cultura que nos permita estar juntos, estar presentes no momento e processar… Mas não para nos distrairmos da impossibilidade das nossas realidades. Mantém-se a ambição de que esta peça ofereça uma tese para a cultura e simultaneamente a ponha em prática.

    Num tempo em que assistimos a uma escala existencial de rasuramento sistémico dos nossos países, das nossas culturas e das nossas sociedades, trabalhar juntos e criar em colaboração é muito importante. Sermos companheiros, encontrarmos formas de partilhar, encontrarmos a energia para nos mantermos juntos, para sobrevivermos e procurarmos sentido no quotidiano. As nossas correspondências ao longo do processo incluíam anedotas diárias, leituras, poemas, gravações de canções e recitações. Não sabíamos verdadeiramente a forma que o trabalho viria eventualmente a tomar até às últimas semanas antes da estreia. Era mais importante viver o processo na sua totalidade, mantermo-nos próximos do chão e da realidade… Mesmo que isso significasse atrasos, distrações, incapacidade para trabalhar, etc. O ato de continuamente escrever, ouvir, partilhar e responder um ao outro, no coração da catástrofe, moldou o guião e a forma finais. Quando nos conseguíamos encontrar, olhávamos para trás e mergulhávamos nesse material para tentar dar-lhe algum tipo de forma, algum tipo de arco. Era um processo que nos era familiar, que não entendíamos necessariamente, e que ainda hoje não sabemos se entendemos.

    ME: Penso que há uma relação interessante e profunda com a escuridão e a morte nos vossos trabalhos — uma que não cai em desespero ou tropos nihilistas, mas que nos permite vê-la como parte da vida em si, e especialmente como uma parte fulcral da espiritualidade e das formas imateriais como nos relacionamos com o mundo. Diriam que esta performance também toca nesses temas, mesmo que o que presenciamos sejam corpos vivos e respirantes?

    NA+HA: Sim, e talvez sugira ainda uma outra relação com o subterrâneo, tanto metafórica como literalmente: com a escuridão e os mortos, e, de alguma forma, com a arquitetura da resistência — gesticulando na direção do que não é visto ou facilmente capturado, do que é intraduzível num outro sentido, do lugar onde a escuridão se torna um campo de relações ocultas, uma condição política da identidade e anonimidade coletiva. Há momentos na performance em que caminhar fora da linguagem significa, para nós, algo próximo de caminhar no subterrâneo ou pela escuridão adentro. É uma forma de agência que cultiva formas de opacidade — sons, palavras e relações que se mantêm parcialmente inacessíveis ao poder e invisíveis à luz do dia.

    A performance é uma homenagem aos mortos, à resistência, às amizades. Feita com eles e continuamente reperformada, reeditada, reassemblada enquanto abraçamos os nossos mortos, os escutamos, os carregamos. É um conhecimento muito particular — que vem do chão, que excede a linguagem —, este de nos mantermos com o que é quase inaudível, com o invisível… Sem sucumbir a antigas farsas liberais sobre “fazer ouvir as nossas vozes” ou “emprestar visibilidade” como valores absolutamente positivos. Para nós, a questão é se somos capazes de ouvir as lições dos nossos mortos. Se estamos suficientemente atentos para os ouvir. E como nos mantermos atentos e continuarmos as tarefas que nos foram confiadas, levando-as em frente.

    Para nós, culturalmente, a escuridão e a morte sempre estiveram muito presentes nos lugares de encontro, passagem e transformação. O que nos vem à mente aqui é a forma como, na Palestina e no Líbano, a raiz da morte injusta e do martírio não é entendida como uma ausência de, ou da, vida, mas uma presença eterna. Não é uma queda, mas uma ascensão, uma transformação, um renascimento. Nas procissões dos mártires, por exemplo, a comunidade junta-se e celebra o mártir com um orgulho imenso, acreditando que o sacrifício é um renascimento e uma união espiritual com a própria terra, consagrada com sangue. É uma forma de confirmação de que o mártir ainda vive noutra dimensão, algures para além da nossa vista imediata, pedindo-nos diretamente para continuarmos o seu caminho de resistência. É nesse momento, em que a voz de todos se torna a voz do mártir, que reside a respiração.

    ME: O que esperam trazer à audiência com cada iteração da performance? Como têm visto outros corpos reagirem a ela e à sua intensidade física? Acham possível, neste caso, traçar uma relação de empatia entre corpos respirantes?

    NA+HA: Não queremos ser cínicos e definir uma noção redutora de empatia, nem queremos ser ingénuos e acreditar que fazer as pessoas sentirem algo no contexto de uma performance pode ser representativo da complexidade da prática da empatia. Há também a questão mais abrangente do que a empatia, existindo, poderá gerar. 

    A reação mais palpável e verificável que observámos na audiência é de tensão e atenção. Também sabemos que diferentes corpos, carregando diferentes experiências, reagem aos sons de diferentes formas. Portanto, tentamos abrir um espaço sem assumir que todas as pessoas presentes são aliadas, mas com a esperança de que nem todas as pessoas presentes sejam inimigas, tentando entender que abordagens conseguem suportar estas divisões. O que podemos fazer, o que podemos partilhar, sem nos deixarmos cair em suposições sobre o público?

    É por isto que passamos a maior parte do tempo a dirigir-nos um ao outro. Preocupamo-nos um com o outro e com aqueles que convocamos e conjuramos. Sabemos que quem sabe juntar-se ao grupo o faz sem precisar de convite, e esperamos que o grupo seja forte o suficiente para manter uma posição defensiva contra quem não deseje juntar-se-lhe ou o procure desfazer. 

    ME: Como relacionam este trabalho com o contínuo genocídio nas vossas pátrias, ambas permanentemente sujeitas à violência e à rasura colonialista indiscriminada? E como é que as vossas práticas se transformaram depois, e durante, o recente agravamento destes crimes horrendos?

    NA+HA: A transformação é demasiado complexa para aprofundar aqui, e não é necessariamente linear, quantificável ou qualificável… Mas é muito real para cada um de nós, à nossa maneira. Uma das coisas de que falamos muito é como não nos deixarmos consumir pela violência colonial. Não no sentido individual da autopreservação, mas no sentido coletivo de preservarmos a nossa cultura. E preservação aqui não é num sentido histórico, de restabelecer o que foi… O que é uma cultura, em continuidade com as nossas culturas, mas que as pode levar mais além e sem estar sempre a contabilizar o colonizador? O que fazemos quando estamos entre os nossos, nas nossas terras, com os nossos mortos? Quanto espaço podemos criar, quanta linguagem podemos partilhar sem proferir o nome do inimigo?

    ME: Regressando à ideia de respirar e vocalizar em conjunto — da respiração enquanto testemunho da vida, da presença, da memória —, acredito verdadeiramente que respirar em comunhão é um ato consciente de devir-em-sincronicidade, de sintonizar com um ritmo partilhado que tanto tem de ser encontrado como negociado. Como é que cada um de vocês sente isto? O que é que este ato de vocalizar, de alguma forma refletir e difratar um ao outro tece entre vocês? O que conjura?

    NA+HA: Entre nós, falamos sempre de como esta performance não é fácil, tanto física como psicologicamente. Deixa-nos sem fôlego no final e, até hoje, ficamos emudecidos durante algum tempo após o fim. De forma muito literal, terminamos a performance quando já não conseguimos respirar. A última parte entra numa respiração rítmica pesada — cada um de nós fá-la num andamento diferente, mas sincronizamos nos intervalos. As luzes apagam-se após a nossa última respiração, e uma canção toca no escuro.

    É verdadeiramente incrível o quanto um ritmo é negociado até se firmar e traçar um caminho. E para nós, a performance e as suas respirações são um ato contínuo de afinação, de reassemblagem, de tentar fazer diferente, de arriscar. O tempo tem um papel aqui, claro: com o tempo, a nossa amizade tornou-se naturalmente mais próxima e, portanto, afeta o ritmo em que performamos no palco — é-nos mais natural, vamos improvisando com confiança, sentindo-nos mutuamente e tomando conta se o outro estiver cansado.

    Para cada um de nós, esta peça toca numa estrutura emocional, em camadas de emoções e pensamentos que de outra forma talvez não pudessem ser acedidos. Há algo nos atos repetitivos da escuta, do ensaio e da performance física que traz tudo o que foi partilhado e escrito para uma outra dimensão, e logo para outra emoção. Mas às vezes também parece que estamos a estudar juntos, ou a pensar a partir de um curto vídeo das pessoas em Gaza a partilharem a sua comida com gatos, ou a enviar áudios com som de sirenes na Palestina e vídeos de panfletos atirados sobre Beirut um ao outro, ou… ou… Esta acumulação de detalhes quotidianos das nossas aldeias, amigos e família, em paralelo ao material, histórico e não só, reunido durante um período de tempo, coloca-nos na presença de um longo fôlego de luta contra o colonialismo e os seus males, e na saudosa presença de todas as pessoas preciosas e queridas que nos deixaram.

    A performance nunca nos dá, enquanto performers, o mesmo sentimento. Entra nos nossos corpos físicos, e no espaço entre nós, sempre de maneira diferente. Praticar — vozes e respiração estruturada — é como uma bofetada, por vezes inesperada, na cara. Como tocar uma ferida aberta que ao mesmo tempo cuidamos. Ficamos sempre surpreendidos pelas formas como a voz e o ritmo nos possuem. Por exemplo, um dos sons em que nos focamos é o arquejo — uma inspiração súbita e involuntária localizada no espaço peculiar entre a voz, a respiração e o afeto. Um som que pode sumarizar, em larga escala, uma reação intuitiva partilhada quando vemos, ouvimos ou experienciamos algo que nos choca e dá medo. Para nós, é o som diário que temos ouvido intensamente nos últimos três anos.

    O arquejo acontece antes da linguagem, e é difícil, quiçá impossível, comunicá-lo por escrito. É como um pequeno intervalo em que seguramos algo firmemente. É também relacional: é despoletado por algo — ouvido, visto, relembrado, etc. — e incita-nos naturalmente à ação, pois quando outra pessoa ouve um arquejo, o seu corpo regista-o e pede uma reação. Entre nós dois, quando trabalhamos os arquejos — que são quase opostos à sincronização, estando mais próximos de uma arritmia — estamos basicamente a organizar a disrupção da respiração normal de forma meio inconsciente. Gostemos ou não, cada vez que os praticamos, carregam consigo camadas de eventos, memórias, morte e raiva: a intenção não é mantermo-nos nesse lugar, mas invocar tudo o que o transforma numa força maior, numa inspiração mais longa, um ritmo de rupturas e disrupturas organizadas cuja oscilação quer incluir tantos de nós quanto possível.

    Por vezes gostamos de pensar a performance como um ensaio, para testar a simples questão do que pode acontecer quando os corpos se coordenam no tempo. Se pensarmos no fenómeno da sincronização de movimentos individuais com os movimentos de outros — e pensemos aqui na respiração—, então o que precisamente transforma um grupo em algo mais do que um conjunto de indivíduos? Não procuramos necessariamente exercitar isso com todos os públicos, mas por vezes isso acontece naturalmente, quando a audiência começa a trautear ou a cantar connosco. Há um sentimento de pertença ali, que cria um outro ritmo para lá de nós dois.

    ME: Algo que disseram ressoou profundamente: a ideia de que a morte reforça a união com a terra, por ser, no fim de contas, um regresso a ela. Acredito que, enquanto sociedade e projeto conceptual, o Ocidente não lida bem com a morte, e penso que isso se deverá a muitas razões, a maioria das quais está relacionada com a ausência total de uma espiritualidade mais enraizada, e com uma desidentificação brutal com a ideia de pertencer à terra, do corpo enquanto continuação da Terra. Como ambos vivem e performam na Europa, como navegam esta oposição, este embate de cosmovisões, e as formas como pode afetar a compreensão dos vossos trabalhos? Acham que há uma necessidade de “tradução”, até certo ponto, ou pensam que o território da antítese pode ser mais construtivo?

    NA+HA: Há uma razão para “Israel” ser tão obcecada com destruir os nossos cemitérios. Fizeram-no historicamente em Jerusalém, fazem-no em Gaza durante o genocídio e têm-no feito no sul do Líbano. “Israel” tenta destruir e desnaturalizar todos os nossos laços com a terra. Destroem as nossas oliveiras milenares, os tanques de recolha de água da chuva em Golan, impedem a construção de painéis solares… Tudo o que fazem na região visa desmantelar a nossa biosfera para, em seu lugar, erguerem a sua tecnosfera, através da qual nos podem monitorizar, vigiar, controlar e matar. Para “Israel” existir, o seu projeto necessita de cometer genocídio e limpeza étnica. Para os judeus europeus se naturalizarem na Palestina, precisam de nos desnaturalizar a nós. As sepulturas são um lugar dessa desnaturalização, que, para além de muitas outras razões, implica a criação de um sentimento de inescapabilidade do seu controlo, mesmo após a morte, ou de que não há descanso em paz para quem luta contra a colonização.

    Ficamos reticentes em entrar numa antropologia comparativa no que toca aos rituais em redor da morte. Talvez uma parte se deva a noções de espiritualidade, mas também poderá possivelmente dever-se a noções de propriedade e posse de terra, que na Palestina se traduzem num conjunto de políticas totalmente diferente do discurso de esquerda mais lato.

    Performamos a peça em inglês — devido às condições da comissão inicial, e porque sentimos que fazê-lo em árabe carregava um tipo de performatividade que não lhe queremos imprimir — mas há nela pouca ou nenhuma tradução. Não queremos traduzir, não queremos explicar, não queremos convencer… Parcialmente porque já temos pouca energia, e falar com quem já sabe é um melhor dispêndio dessa pouca energia que nos resta, mas também por uma razão política mais profunda: se não o sabíamos antes, Gaza tornou claro como água que assistir, testemunhar, denunciar, acusar, e outras noções baseadas em ideais de justiça não constituem uma chamada à ação. Décadas de práticas que, na sua essência, estavam predicadas em convencer o Ocidente de que somos humanos evaporaram-se num instante. Portanto, não, não procuramos traduzir, procuramos a invisibilidade, a opacidade, a escuridão. Aqueles de nós que vivem na escuridão conseguem encontrar-se uns aos outros de olhos fechados, e aqueles que precisam de tradução não estão prontos para estar em comunhão connosco.

    Imagem de Capa
    Noor Abed e Haig Aivazian. Performance em If I Can’t Dance, Sonic Acts Biennial, Amesterdão, Fevereiro 2026. Fotografia de Angelina Nikolayeva.

    Proofreading
    Diogo Montenegro

    Marta Espiridião é curadora, crítica, tradutora, e doutoranda em estudos artísticos com um projecto sobre vídeo, movimentos feministas e identidades queer.  Aliando a curadoria tanto à investigação como à programação, tenta trazer para os espaços artísticos outras formas de criação e conhecimento. Além destes temas, interessa-se profundamente por coisas como bruxaria, literatura, arquitectura e espaço público, condições sociais contemporâneas, ficção científica e jardinagem.