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    Entrevista a Ali Cherri

    M Vulfson

    por M Vulfson
    “Talvez seja o que nos resta hoje: apesar de tudo, trazer formas de gentileza num mundo cada vez mais cruel.”
    — Ali Cherri1
     “Se a lama tivesse a sua própria memória, o que seria digno de recordar?”
    — Ali Cherri, The Book of Mud


    Premiado na Bienal de Veneza (2022) e destacado na Semana da Crítica de Cannes (2026), Ali Cherri, artista libanês sediado em Paris, tem recebido aclamação internacional pelas suas explorações sensíveis e inflexíveis sobre as reverberações das violações de poder nos corpos, memórias e narrativas históricas. No dia 3 de outubro de 2026, apresentará The Book of Mud [O Livro da Lama] (2025) no Mosteiro de São Bento da Vitória, no Porto, como parte de “My Center Is not in the Solar System,” programa de performance da Contemporânea. Contando a história da memória da lama, esse material de criação entre a terra e a água, a performance musical com recital é uma continuação do projeto homónimo que o artista desenvolveu entre 2018 e 2020, e que consistia na edição limitada de um livro de artista e em artefactos encerrados em tijolos de adobe.

    Considerando o impacto material e imaterial da violência política, as obras de Cherri contam histórias do que é muitas vezes menosprezado: corpos que não conseguem escapar dos seus papéis de soldados ou patrulhas de fronteira; pedreiros a trabalhar sem fim à vista ao som da revolução que sai dos seus rádios; fragmentos de peças arqueológicas pilhadas que o artista reintroduz gentilmente no museu; e a materialidade da lama simultaneamente como os mitos da criação, qualidade quotidiana e lugar de trabalho humano e ação mais-que-humana. Embora o seu trabalho não tema a representação da violência dos conflitos, o seu maior foco está nos vestígios subtis, frequentemente esquecidos, que a violência imprime nos objetos e na psique humana. Sensíveis, silenciosas e atmosféricas, as suas obras de vídeo, filme e instalação escultórica expandem a nossa compreensão das marcas permanentes da violação e, com isso, abrem espaço para que possamos imaginar outras formas de ser e relacionar.

    Ouvi falar do trabalho de Cherri pela primeira vez num contexto muito particular: um debate sobre expressões artísticas de desmonumentalização e remonumentalização, relacionado com a destruição de memoriais racistas nos protestos que se seguiram ao assassínio de George Floyd, quando os manifestantes[4]  derrubaram estátuas de antigos donos de escravos. Cherri foi referido como exemplo de um artista cujo trabalho interroga as formas como os monumentos refletem a narrativa histórica dominante e o potencial de reimaginação histórica patente no enquadramento da sua ausência e na sua remoção ativa. Ao falar com o artista antes da sua iminente performance no Porto, descobri que ele tem vindo a refletir sobre a função dos memoriais desde a Primavera Árabe, quando as estátuas associadas aos regimes autoritários foram derrubadas. “Estava interessado no que o regime de Assad fez no final da insurreição síria”, explicou-me Cherri. “Removeram as estátuas de Assad para que os manifestantes não as destruíssem, preferindo retirá-las eles mesmos, eliminando a possibilidade da circulação de imagens da destruição destes símbolos de poder.”2 As suas explorações culminaram na instalação Toppled Monuments 1-6 (Kharkiv, Aleppo, Baghdad, Richmond VA, Vienna, Bristol (2024), onde apresentava seis plintos de madeira reduzidos e vazios, representando o espaço vazio onde os líderes depostos outrora figuraram. A obra destaca a reclamação de narrativas históricas criadas pelos movimentos sociais da Primavera Árabe, do Black Lives Matter e dos países pós-soviéticos, onde monumentos foram derrubados para abrir espaço à imaginação de um futuro melhor.

    Cherri refere recorrentemente que ter-se tornado artista após a Guerra Civil da década de 1990 em Beirute significava preocupar-se com as formas como o momento presente é relembrado no futuro, e como gostaríamos de imaginar esse futuro. Assim, há no seu trabalho uma linha contínua de examinação da produção e da lembrança histórica, visível na sua exposição individual How I Am Monument [Como sou monumento] na Secession de Viena (2024-2025) e na série Grafting [Enxertia] (2018-presente), onde figuram artefactos arqueológicos danificados ou partidos, outrora pilhados, posteriormente comprados pelo artista em leilões e reenquadrados em novas esculturas de barro e madeira. Ao reintroduzir estas esculturas híbridas encontradas-e-feitas no espaço do museu, do qual a sua história tinha sido excluída, Cherri questiona como, por quem e de quais objetos a história é imaginada e relembrada, sugerindo uma solidariedade material com outros corpos, não-humanos, danificados.3

    Pensando na monumentalização a partir da materialidade, Cherri começou a investigar dois materiais opostos: bronze e lama. “Para mim, é um encontro entre dois modos de produzir história: bronze, muito durável e representativo de uma história do topo para a base; e lama, que funciona da base para o topo. Mesmo que instável e porosa, a lama pode corroer o bronze, enfraquecendo-o e fazendo-o cair com o tempo”, explica o artista. Sendo as estátuas de bronze uma prerrogativa da cultura dominante, as qualidades destes materiais implicam que a lama, enquanto material, “pode tratar de reverter este processo [de produção de história].”4 É também importante a materialidade da lama enquanto algo com que a humanidade tem imaginado outros mundos, o início de todos os mitos de criação — um tema que veio a formar a base de The Book of Mud (Dangola Limited Editions, Beirut, 2018-2020).

    Cherri tem vindo a explorar momentos fundamentais da imaginação social também a partir da materialidade, onde a lama se demonstrou um material particularmente potente para a exploração. “Fiquei interessado na lama durante um período de residência no Norte do Sudão, perto da barragem de Merowe [na quarta catarata do Nilo], ao ver os produtores de tijolos a trabalhar”, disse-me quando o questionei sobre o início destes tantos anos a trabalhar com o material. “Extraem a terra das margens do rio, misturam-na com água e transformam-na em tijolos através de um trabalho repetitivo e exaustivo. Logo, para mim, a lama não está só ligada aos mitos da criação. É também um material quotidiano ligado aos corpos, ao trabalho, ao rio e a uma economia em particular.”5 A investigação perto da barragem de Merowe levou o artista a criar a longa-metragem The Dam [A Barragem] (Al-Sadd, 84’, 2022), a terceira da Trilogia Telúrica sobre geografias de violência, tal como o vídeo de três canais Of Men and Gods and Mud [Dos Homens e Deuses e Lama] (18’40’’, 2022), que incluía excertos de The Book of Mud.

    Estas obras foram criadas durante a, e no rescaldo direto da, revolução sudanesa (2018-19), num contexto de violência política e desastre ecológico. A barragem de Merowe é a maior do continente, e provavelmente o mais destrutivo dos seus projetos hidroelétricos. A sua construção na década de 2000 deslocou forçosamente mais de 50.000 pessoas das tribos Manasir, Hamadab e Amri, submergindo 180 km2 de locais ancestrais históricos, destruindo os pomares de tamareiras que sustinham a população local, erodindo as margens do rio a jusante e danificando severamente o frágil ecossistema que tornava as costas do Nilo num oásis de fertilidade no deserto.6

    The Dam, de Cherri, aborda esta violação de corpos, arqueologia e ecologia a partir de uma psicologia material subtil, que torna o seu trabalho tão único. O filme segue o dia a dia de Maher, trabalhador de uma fábrica de tijolos tradicional, quase sempre ao som da transmissão noticiosa da revolução sudanesa, com a deposição do antigo presidente Omar al-Bashir, o conselho militar que assume a liderança do país, protestos nas ruas, inflação e corpos mortos a flutuar no Nilo. Enquanto a sociedade à sua volta vive uma mudança dramática, a realidade de Maher mantém-se a mesma, trabalhando dia após dia. No entanto, algo nele muda também: todas as noites sai secretamente, em direção ao deserto, para trabalhar numa misteriosa escultura de lama que parece derreter cada vez que a barragem se enche. A materialidade porosa e instável da lama contrasta com a materialidade permanente e dominante da barragem. “A construção secreta de Maher emerge desta tensão. Não a descreveria como uma imagem de libertação”, diz-me Cherri. “Ela absorve o seu trabalho, a sua raiva, o seu desejo e a sua imaginação, até se tornar algo que o excede.”7 No final do filme, a construção de Maher começa a falar com ele, e vemo-lo a nadar na água da barragem em que no início se recusara a entrar.

    Em Of Men and Gods and Mud, Cherri afasta-se da história de Maher “na direção dos gestos coletivos dos tijoleiros, colocando o seu trabalho em diálogo com as histórias de criação onde os seres humanos são criados a partir de terra ou barro”8. O vídeo mostra os trabalhadores a fazer tijolos, a descansar, ver TV, cozinhar, caminhar, a nadar no Nilo e a queimar tijolos. É uma materialidade corporificada da lama para os recitais, em árabe e inglês, de The Book of Mud, o projeto através do qual Cherri levou a sua pesquisa para além do Sudão, numa grande narrativa que une o científico e o espiritual:

    “Os Incas, os Moriori, os Babilónios, os Egípcios, os Chineses, os Hindus, os Yorubá, os Sumérios, separados por mares e montanhas e anos, todos contam a mesma história: o homem que vem da lama… Da lama fomos primeiro criados. Da lama sonhámos que fomos criados. Depois esquecemos, ou procurámos esquecer, e declarámo-nos como os criadores… Da lama a primeira vida. Onde a terra e a água primeiro se mesclaram, dando vida ao primeiro organismo unicelular que se tornaria em cada criatura viva e respirante no mundo.”
    — Ali Cherri, The Book of Mud, recitado em Of Men and Gods and Mud

    Cherri contou-me como a lama se tornou “o ponto de partida para diferentes histórias, canções e fragmentos, carregados através de vozes e música. Ao longo destes quatro anos [2018-2022], deixou de ser, no meu trabalho, um material enraizado numa paisagem específica [barragem de Merowe] e uma forma de labor, passando a ser uma forma de pensar sobre corpos, mitos e história. O que continua a interessar-me é a sua instabilidade e o quanto a lama retém vestígios sem os fixar permanentemente. Pode tornar-se um tijolo, um abrigo, um corpo ou um monstro, mas nenhuma destas formas é definitiva… Continuo ainda a explorá-la e penso que será um material que se manterá comigo por muito tempo.”9

    No dia 3 de outubro de 2026, Ali Cherri apresentará The Book of Mud como uma performance musical com recital, concluindo o programa “My Center Is not in the Solar System” no Mosteiro de São Bento da Vitória, Porto. O programa tem curadoria de Alexandra Balona, e faz parte dum projeto maior da Contemporânea, On Hybridity and The Poetics of Resistance, sob a direção artística de Celina Brás. A noite também inclui I Killed the Bird (2026) de Shahd Wadi e James Newitt, e Nothing will Remain Other than the Thorn Lodged in the Throat of this World (2025) de Noor Abed e Haig Aivazian.

    Sleeping Bronze Head, 2024, Ali Cherri, Vingt-quatre fantômes par seconde, 2025, Bourse de Commerce – Pinault Collection, Paris, 2025. © Tadao Ando Architect & Associates, Niney et Marca Architectes, agence Pierre-Antoine Gatier. Photo: Aurélien Mole / PinaultCollection.


    Foto: Dmitry Kostyukov

    Tradução EN-PT
    Marta Espiridião

    M Vulfson é uma autora/escritora de artes e cultura apaixonada pelo poder da arte e o seu impacto no mundo em que vivemos. Os seus textos e pesquisas centram-se na interculturalidade radical e na resistência colonial, bem como em temas relacionados: a ecologia e a teoria queer.

    Notas de Rodapé
    1. Gregory Coutaut, “Interview with Ali Cherri, The Sentinel director,” La Semaine de la Critique of Festival de Cannes (2026): https://www.semainedelacritique.com/en/articles/interview-with-ali-cherri-the-sentinel-director (visitado a 22 de setembro de 2026).
    2. Conversa com Ali Cherri, 14 de setembro de 2026.
    3. Numa entrevista com Efi Michalarou, por ocasião da exposição “How I Am Monument” na Secession de Viena, Ali Cherri explica: “Muitos destes objetos… estão literalmente partidos ou danificados, e vejo nisso uma forma poética de estabelecer solidariedade com outros corpos quebrados. Hoje todos carregamos as nossas próprias fraturas, e portanto procuramos conexão com outros seres e comunidades que partilham experiências diferentes, de quem posaamos aprender e com quem possamos empatizar”, em Efi Michalarou, “ART CITIES: Vienna – Ali Cherri,” Dream Idea Machine: https://www.dreamideamachine.com/?p=103648 (visitado a 22 de setembro de 2026).
    4. Conversa com Ali Cherri, 14 de setembro de 2026.
    5. Ibid.
    6. International Rivers, “Independent Review Reveals Serious Flaws in Sudan’s Merowe Dam [Revisão independente revela falhas sérias na barragem sudanesa de Merowe]”, Press Release 22 de Março de 2006. Ali Cherri, “How I Am Monument”: https://alicherri.com/projects/how-i-am-monument (visitado a 22 de stembro de 2026).
    7. Conversa com Ali Cherri, 14 de setembro de 2026.
    8. Ibid.
    9. Ibid.