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Contemporânea

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    MY CENTER IS NOT IN THE SOLAR SYSTEM

    Do pássaro, do espinho, da lama

    Se me encontrares na rua, não tenhas a certeza de que seja eu. O meu centro não está no sistema solar.
    Etel Adnan, The Heart of the Heart of Another Country (2005) 

    Inspirado nas palavras da artista e poeta libanesa Etel Adnan, que refletem sobre conflito, migração, exílio e identidades híbridas, e convocando um tempo geológico além da escala humana, My Center Is Not in the Solar System dá título ao programa de performances, que integra o projeto mais amplo da Contemporânea, On Hybridity and Poetics of Resistance, sob a direção artística de Celina Brás.

    My Center Is Not in the Solar System apresenta performances de Sammy Baloji, Ali Cherri, Noor Abed e Haig Aivazian, Shahd Wadi e James Newitt, Ana Isabel Castro, e Marcelo Reis. O programa circula entre o Atlântico e o Mediterrâneo, num território fluido que articula Europa, África e Ásia ocidental, não somente como geografia partilhada, mas como campo relacional, moldado por regimes de poder, de mobilidade e visibilidade diversos. Questionando historicidades eurocêntricas e narrativas coloniais, e examinando a erosão de fronteiras ideológicas e geopolíticas, o programa propõe, através da performance, temporalidades alternativas que problematizam os limites da perceção e do real. 

    Estrutura-se em três momentos: o primeiro tem lugar no CAM – Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, no dia 19 de setembro, celebrando o segundo aniversário da reabertura do espaço, e apresenta Missa Utica (2024), de Sammy Baloji. O segundo momento, no dia 3 de outubro, integra o programa que assinala a reabertura do Mosteiro de São Bento da Vitória, no Porto. O último momento tem lugar no dia 10 de outubro, na Rampa, um espaço de arte independente no Porto, apresentando street tease (2026) de Ana Isabel Castro, e Barragem dos Minutos (2026) de Marcelo Reis.

    No Mosteiro de São Bento da Vitória, o programa inicia com a estreia absoluta de Matei o Pássaro (2026), performance da artista luso-palestiniana Shahd Wadi, com filme de James Newitt. Nesta leitura-performance, Wadi conduz-nos numa procura febril pelo pássaro que deseja sacrificar. Um pássaro que é tanto sol e esperança, como encarna voos sombrios, debruçando-se ameaçadoramente sobre o solo e a vida nua. Entrelaçando palavras ditas, performance e filme, Shahd Wadi convoca luto, memória e a herança palestiniana, num território onde a poesia dialoga com a resistência desde tempos ancestrais. Perante as ruínas da catástrofe que fratura o tempo, o espaço, e a possibilidade da experiência, a artista procura reanimar a voz que insiste em não emudecer.

    Nothing Will Remain Other than the Thorn Lodged in the Throat of this World (2025), da artista palestiniana Noor Abed e do artista libanês Haig Aivazian, em estreia nacional, é uma performance de som, texto e voz, em que o corpo se torna um lugar de ressonância, resiliência e memória. Articulam-se fragmentos poéticos, com excertos de outros textos e sons guturais, ativados pelos órgãos sonoros dos artistas, que reescrevem memórias, numa recusa de apagamento histórico. A dupla convida o público a participar, temporariamente, neste coro heterogéneo, partilhando voz, ar e respiração, onde a narrativa se secundariza em detrimento de uma sincronia coletiva.

    Conclui-se este segundo momento com a estreia nacional de The Book of Mud (2024), de Ali Cherri, artista libanês premiado com o Leão de Prata da Bienal de Veneza, em 2022. Nascido em Beirute no início da Guerra Civil, essa experiência de quase duas décadas ressurge na sua obra, permeando-a com questões em torno de ruínas, da violência política e da construção de narrativas históricas após o trauma. A sua obra reflete sobre o que significa (sobre)viver a geografias de violência, além da falsa dicotomia entre a vida e a morte. Incorporando a experiência do passado, sobreviver acarreta a responsabilidade de transportar o que foi obliterado e o que permanece. A terra, a água, os corpos, a fisicalidade das coisas e da paisagem, tornam-se pontos de entrada para a construção da história, numa obra que problematiza também a complexa geopolítica da museologia e dos artefactos arqueológicos.

    A performance The Book of Mud integra um longo projeto homónimo, que parte do fascínio pela lama enquanto simultaneamente matéria e metáfora simbólica. Entre as cheias e os dilúvios, ou a seca e a escassez de água, a lama materializa tanto o recipiente da água, como corporiza o material do tijolo que constrói a casa, ou a materialidade híbrida que pode ser permanentemente moldada. Território fértil da imaginação, a performance convoca geografias instáveis, forças elementares e territórios fragmentados que se convertem em novas formações topográficas. Dialogando com escritores de língua inglesa e árabe em torno da lama, que molda tanto a natureza como a história, The Book of Mud propõe uma reflexão entre poder, geologia e memória, unindo terra e água, enquanto elementos constitutivos da civilização.

    — Alexandra Balona



    MY CENTER IS NOT IN THE SOLAR SYSTEM
    Programa de Performances Contemporânea, 2026

    CAM - Centro de Arte Moderna, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa
    Sábado, 19 de setembro
    20:00 — Sammy Baloji: Missa Utica (2024) – estreia nacional

    Mosteiro São Bento da Vitória, Porto
    Sábado, 3 de outubro
    16:00 — Abertura
    16:30 — Shahd Wadi com James Newitt: Matei o Pássaro (2026) – estreia absoluta
    17:30 — Noor Abed e Haig Aivazian: Nothing Will Remain Other than the Thorn Lodged in the Throat of this World (2025) – estreia nacional
    18:30 — Ali Cherri: The Book of Mud (2025) – estreia nacional
    20:00 — Convívio

    Rampa, Porto
    Sábado, 10 de outubro
    15:00-19:00 — Ana Isabel Castro, street tease (2026) – estreia absoluta
    19:00 — Marcelo Reis, Barragem dos Minutos (2026) – estreia absoluta


    CAM - Centro de Arte Moderna, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa
    Sábado, 19 de setembro
    Sammy Baloji: Missa Utica (2024)

    Missa Utica é um novo capítulo da obra de Sammy Baloji: Fragments of Interlaced Dialogues, que abrange vários anos de investigação e produção artísticas, em diálogo com uma variedade de objetos do Congo reunidos na Europa ao longo dos últimos cinco séculos e atualmente conservados em diferentes museus. Após capítulos em Florença, Paris e outras cidades-chave na história do Congo, este capítulo leva o artista a Utica, na Tunísia, onde, no século XVI, foi nomeado o primeiro bispo africano na sequência de inúmeros intercâmbios entre a Europa cristã (em particular, os portugueses) e o Reino do Congo. Em Missa Utica, a investigação histórica cria a base para uma obra de arte interdisciplinar que funde o texto poético escrito por Fiston Mwanza Mujila, a criação musical de Pytshens Kambilo e Barbara Drazkov, a performance de Bwanga Pilipili e a instalação cenográfica de Sammy Baloji. Esses elementos existem num diálogo constante, tornando esta obra num híbrido entre concerto, instalação artística e performance.


    Mosteiro São Bento da Vitória, Porto
    Sábado, 3 de outubro

    Shahd Wadi com James Newitt: Matei o Pássaro (2026)

    criação Shahd Wadi e James Newitt
    texto e interpretação Shahd Wadi
    filme James Newitt
    apoio à encenação Jo Castro

    Esta leitura performativa e fílmica é uma tentativa de matar o pássaro que sustenta a esperança. Na procura da ave certa para sacrificar, Shahd Wadi e James Newitt exploram vozes ancestrais, poemas, filmes, canções, fantasmas e símbolos da resistência palestiniana.

    Esta criação interroga a relação entre metáfora e vida, questionando se a liberdade pode existir para lá da imaginação. Ao longo da performance, o pássaro torna-se simultaneamente um objeto de desejo e uma necessidade de destruição.

    Matei o Pássaro revela a perda das palavras perante a catástrofe e e nidifica o poema quando já não resta nada que possa voar.

    Shahd Wadi com James Newitt, Matei o Pássaro. Performance no Mosteiro São Bento da Vitória. Fotos: José Caldeira. Cortesia Teatro Nacional São João.


    Mosteiro São Bento da Vitória, Porto
    Sábado, 3 de outubro
    Noor Abed e Haig Aivazian: Nothing Will Remain Other than the Thorn Lodged in the Throat of this World (2025)

    Não fiques triste. Ninguém conseguirá livrar-se de nós. A Palestina é uma uma espinha cravada na garganta do mundo. Ninguém a conseguirá engolir. Não te preocupes.
     
    Últimas palavras de Wadih Sanbar, dirigidas ao filho, o historiador e poeta palestiniano Elias Sanbar.

    Noor Abed e Haig Aivazian encenam uma partitura composta por som, texto e movimento. Os temas centrais do texto expressam-se através de uma série de sons guturais – suspiros, tosses, murmúrios e sibilos –, produzidos por diferentes partes do nariz, boca, laringe, traqueia e pulmões. Assim, cada orgão incorpora e manifesta uma série de registos afetivos e textuais.

    Numa correspondência contínua, Abed e Aivazian continuam a trocar reflexões, incluindo anedotas quotidianas, leituras, poemas, gravações de canções e recitações. A performance encena o trabalho ativo de recordar, reencenar, reestruturar e reagrupar elementos da sua correspondência, como forma de lidar com um momento histórico intensificado, caracterizado por um clímax no constante ruído da violência genocida que tem estruturado as respetivas trajetórias dos artistas.

    Encorajando repetidamente os espectadores a participar na experiência sonora, Abed e Aivazian tentam criar um espaço de sincronia e ação, onde o público se torna uma câmara de ressonância vibrante, transformada num coro heterogéneo.

    Noor Abed e Haig Aivazian, Nothing Will Remain Other than the Thorn Lodged in the Throat of this World. Performance no Mosteiro São Bento da Vitória. Foto: José Caldeira. Cortesia Teatro Nacional São João.


    Mosteiro São Bento da Vitória, Porto
    Sábado, 3 de outubro
    Ali Cherri: The Book of Mud (2025)

    guitarra elétrica Charbel Haber
    leitura em inglês Jamika Ajalon
    leitura em árabe Souhaib Ayoub

    O fascínio pela lama reside na sua dimensão de material tangível e metáfora simbólica. A transformação da lama em material de construção constitui um processo tão antigo quanto a história da humanidade. Nem só terra, nem apenas água, os pântanos lamacentos têm sido há muito vistos como zonas temidas, lugares enigmáticos e fantasmagóricos, que evocam tanto o fascínio como o pavor.

    Inspirado no trabalho de Ali Cherri sobre a relação entre civilização e paisagem, The Book of Mud utiliza a lama como ponto de partida para uma viagem por várias narrativas relacionadas com pântanos, águas estagnadas e planícies. Esta escolha simbólica permite a exploração das múltiplas dimensões da terra e da água, tanto físicas como metafóricas, e revela como estes elementos interagem na formação da nossa compreensão do mundo e da nossa própria existência. Se a lama tivesse memória própria, o que consideraria digno de ser lembrado?

    Um projeto Contemporânea em parceria com o CAM – Centro de Arte Moderna Gulbenkian, o Teatro Nacional São João e a Rampa

    Direção artística
    Celina Brás

    Curadoria
    Alexandra Balona

    Locais
    19.09.2026
    CAM - Gulbenkian, Lisboa
    Anfiteatro ao Ar Livre

    03.10.2026
    Mosteiro de São Bento da Vitória, Porto

    10.10.2026
    Rampa, Porto

    Financiamento

    DGARTES
    República Portuguesa – Cultura, Juventude e Desporto / Direção-Geral das Artes
    Plaka / Porto

    Parceiros
    CAM – Centro de Arte Moderna Gulbenkian
    Teatro Nacional São João
    Rampa


    Apoio
    O Espaço do Tempo
    MaisFrança / Institut français
    Embaixada da Bélgica
    Wallonie-Bruxelles

    Imagem de Capa
    Sammy Baloji, Missa Utica. Foto: Caroline Lessire. Cortesia do artista.