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    Diana Policarpo
    O Inimigo Interno

    Sara de Chiara

    por Sara de Chiara

    A GUEST + A HOST = A GHOST [UM CONVIDADO + UM ANFITRIÃO = UM FANTASMA] — assim diz um famoso trocadilho de Marcel Duchamp, impresso nos invólucros de papel-alumínio dos doces distribuídos na inauguração da exposição de Bill Copley em 1953, em Paris. Além da fusão de letras, a junção destas palavras opostas — o anfitrião que oferece a hospitalidade e o hóspede que a recebe — resulta na sua aniquilação mútua. A frase adquire ainda mais humor e significado quando inscrita na embalagem de um doce: uma vez comido, resta apenas o seu invólucro, um manto ou fantasma da substância agora aniquilada.

    Algo semelhante acontece no ciclo biológico do fungo Ophiocordyceps sinensis, que parasita as larvas das traças que se encontram no subsolo do planalto tibetano; após germinar dentro da larva, o cordyceps mata e mumifica o seu hospedeiro, acabando por emergir pela cabeça e brotar do solo, de forma não muito diferente da vegetação circundante. Em chinês, é designado por "DongChongXiaCao" e, em japonês, por "Tockukaso", significando ambos "verme do Inverno, erva do Verão".

    Durante séculos, o cordyceps tem sido um ingrediente básico na medicina chinesa, acreditando-se que tem propriedades tónicas e revitalizantes que aumentam a energia, estimulam o sistema imunitário e melhoram a resistência física. Diz-se também que trata inúmeras doenças, desde o cancro à disfunção erétil. O conhecimento acerca das propriedades milagrosas do fungo disseminou-se pelo Ocidente apenas em 1993, depois dos atletas Wang Junxia e Qu Yunxia terem batido recordes mundiais nos Jogos Nacionais Chineses, em Pequim. O seu treinador, Ma Junren, atribuiu o sucesso às propriedades do cordyceps

    Embora os seus efeitos sobre os humanos permaneçam em grande parte desconhecidos, a procura pelo portentoso "Viagra dos Himalaias" disparou, especialmente na China. Este aumento de popularidade também fez com que o seu preço subisse exponencialmente, agravado ainda mais pela escassez e pelas alterações climáticas. A cada Primavera, os agricultores locais arriscam condições ambientais adversas para colher o fungo, e o seu comércio desenfreado leva a uma série de consequências nefastas: perturbação ambiental, desequilíbrio ecológico, disputas, aumento da criminalidade e inflação nas economias locais. Hoje, a maior parte do cordyceps disponível no mercado é cultivado através de tecnologias de fermentação, o que tem um impacto negativo nas comunidades locais que dependem da sua colheita selvagem como principal fonte de rendimento. 

    O fascínio de Diana Policarpo pelos híbridos, pela metamorfose que ocorre nos reinos naturais, pela invasão/contaminação de corpos, pela transformação física e as histórias que a rodeiam — do mito ao ciborgue — está presente em toda a sua prática. O processo de transformação em que a artista se foca é muitas vezes invisível – devido à ação de bactérias, vírus, mutações genéticas ou fungos parasitas. No entanto, o seu trabalho não se limita a revelar essas metamorfoses; expõe também as suas implicações culturais, políticas, económicas, sociais e antropológicas. Ou melhor, a obra mostra como estes processos e os seus resultados resistem a definições e classificações comuns, desafiando as categorias socialmente impostas no seio das quais normalmente operamos.

    Um elemento-chave que exemplifica a abordagem da artista é o fungo, presente nos vários corpos de trabalho que tem vindo a desenvolver ao longo dos anos. De modo a definir a complexidade desta investigação, as diferentes esferas de conhecimento envolvidas, o seu desenvolvimento multidisciplinar e a sua resistência à classificação, podemos recorrer à metáfora do micélio. Com o mesmo padrão rizomático, o pensamento de Diana Policarpo estabelece paralelos entre o carácter interconectivo das redes miceliais fúngicas e as relações e sociedades humanas, abrindo-as a uma dimensão cósmica.

    Tal como os micélios formam vastas redes simbióticas para a troca de nutrientes e comunicação, também os humanos estão interligados através de relações e experiências partilhadas. Esta perspectiva encoraja uma mudança do pensamento individualista em direcção a uma compreensão relacional de si mesmo e do mundo. A vasta rede de micélios destaca o carácter interconectivo de todas as coisas, tanto vivas como não vivas, sugerindo que os indivíduos são inerentemente parte de um todo mais amplo. 

    Diana Policarpo, Underground Allies. Fotos © Vasco Stocker. Cortesia da artista e Rialto6.

    A instalação Fungal Highways (2024) da artista, apresentada em Mutual Benefits, a sua exposição individual no espaço Rialto 6, em Lisboa (2024-2025), é o resultado de uma investigação sobre os cordyceps e incorpora este carácter interconectivo primordial. Consiste numa animação 3D na qual representações científicas das estruturas rizomáticas dos neurónios humanos alternam perfeitamente com complexas redes miceliais de fungos. Estas imagens intrincadas fluem numa projecção circular no tecto, assemelhando-se a um grande espaço aberto. A posição da projecção convida os visitantes a se reclinarem numa plataforma ao nível do solo, coberta de modo disperso por almofadas em forma de neurónios, e a observarem a atividade frenética dos mundos subcutâneo e sináptico. O som vibrante contribui para o ligeiro estado hipnótico em que mergulhamos ao nos confrontarmos com este olho, amplamente aberto no teto.

    Emanuele Coccia, nos seus vários estudos, deu enfoque a um conceito de contiguidade, fluidez e entrelaçamento dos elementos do mundo existente que pode ser comparado à abordagem de Diana Policarpo.1 Parafraseando as palavras do filósofo, a metamorfose é descrita como o fenómeno que interliga todas as espécies e une os vivos aos não vivos. Bactérias, vírus, fungos, plantas, animais — todos fazem parte da mesma vida e partilham a mesma substância.

    Uma simbiose semelhante entre seres de naturezas diferentes é sugerida na série de desenhos a pastel Underground Allies, iniciada pela artista em 2024. Estas imagens detalhadas, reminiscentes de placas científicas, justapõem secções anatómicas e visões microscópicas, estabelecendo ligações entre os mecanismos do corpo humano e os de outros organismos, à medida em que sublinham um substrato comum às diferentes manifestações do mundo: a presença de uma linguagem molecular partilhada. A linguagem científica dissolve o seu rigor na poética da interconectividade e da correspondência das coisas.

    Mas as referências de Diana Policarpo aos fungos também geram resultados mais prosaicos. O vídeo ¥€$! (2024) reproduz uma sequência de brilhantes anúncios chineses que promovem o precioso cordyceps, o "Viagra dos Himalaias", de maneiras adaptadas a consumidores chineses e ocidentais.

    Oferecendo um contraponto à ironia desta obra, Summer Grass Winter Worm (2024) é um pequeno vídeo que documenta a colheita do fungo no planalto tibetano. Realizado em condições adversas por algumas das classes mais marginalizadas, o processo depende de comunidades locais com conhecimentos ancestrais, capazes de distinguir o caule do fungo das plantas. Este vídeo alimenta o debate sobre questões ambientais relacionadas com o crescente mercado de cordyceps e o impacto do capitalismo na paisagem e na vida quotidiana local.

    As duras condições de trabalho associadas à corrida pela extracção deste recurso, impulsionadas pela crescente procura, foram também abordadas pela artista no projeto Death Grip (2019), apresentado no MAAT no âmbito do Prémio Novos Artistas Fundação EDP. Death Grip, uma instalação multimédia site-specific com áudio sincronizado de 15 canais e duas animações digitais, era complementada por um ambiente imersivo composto por esculturas, temperatura mais baixa e iluminação fria, que pretendiam simular o desconforto de trabalhar no planalto.

    “Este é um sítio onde não é necessariamente agradável estar,” explicou a artista, “mas que confronta o espectador com uma realidade ao mesmo tempo humana e alienígena — a primeira, personificada pelo trabalho das mulheres na apanha e exploração do fungo Cordyceps, [...] e a segunda, pelo próprio comportamento do fungo, a forma como expande e se ocupa do espaço e do seu hospedeiro.”2

    A ligação entre fungos e mulheres como repositórios da medicina tradicional e do conhecimento ancestral herbal é o foco de Nets of Hyphae, uma exposição apresentada na Galeria Municipal do Porto e na Kunsthall Trondheim (2020-2021), com curadoria de Stefanie Hessler. Neste caso, Diana Policarpo voltou a sua atenção para o Claviceps purpurea (ergot ou esporão-do-centeio), um fungo parasita desta planta, explorando os seus efeitos tóxicos (ergotismo), bem como usos medicinais no contexto das práticas tradicionais femininas. Por exemplo, o esporão-do-centeio era utilizado para induzir o parto, reduzir as hemorragias pós-parto ou interromper a gravidez.

    Nesta exposição, a artista criou uma narrativa especulativa e intrincada que liga os fenómenos coletivos de alucinações causadas pelo ergotismo a casos históricos de caça às bruxas, sugerindo que muitas acusações podem estar enraizadas em episódios de intoxicação alimentar coletiva. Através de vídeos, sons, vozes e desenhos, Nets of Hyphae destaca como, no passado, o fungo ergot representava não só um agente tóxico, mas também uma intrincada junção entre o poder patriarcal, o controlo dos corpos femininos e a perseguição de figuras "marginais", como bruxas ou curandeiros. Uma substância simultaneamente tóxica e curativa, o ergot torna-se um veículo para explorar o poder, o género e a autonomia corporal, apontando como o uso medicinal deste fungo pelas mulheres foi demonizado: as próprias práticas que fomentavam a autonomia reprodutiva feminina foram estigmatizadas dentro de narrativas de bruxaria e ordem patriarcal.

    Em The Argonauts, Maggie Nelson explora o carácter queer da gravidez, desafiando noções tradicionais de género e família. Questiona se uma experiência tão intensamente pessoal e profundamente transformadora pode ser também inerentemente conformista. A autora examina como a gravidez poderá significar um lugar tanto de intimidade radical como de alienação do próprio corpo, e como potencia o rompimento das narrativas tradicionais de género e identidade: "Haverá algo de inerentemente queer na gravidez em si, na medida em que altera profundamente o estado ‘normal’ da pessoa e ocasiona uma intimidade radical com o próprio corpo – e uma alienação radical em relação a este? Como pode uma experiência tão profundamente estranha, selvagem e transformadora também simbolizar ou representar a conformidade suprema? Ou será esta apenas mais uma desqualificação de qualquer coisa demasiadamente ligada ao animal feminino a partir do termo privilegiado (não-conformidade ou radicalidade, neste caso)?"3

    Graças, em parte, aos estudos de Silvia Federici, compreendemos hoje melhor como a regulação da sexualidade e da capacidade reprodutiva das mulheres serviu de pré-condição necessária para o estabelecimento de formas mais rígidas de controlo social.4 A autora provou como a caça às bruxas serviu para “privar as mulheres das suas práticas médicas, forçou-as a se submeterem ao controlo patriarcal da família nuclear e desmantelou a concepção holística da  natureza que, até ao Renascimento, tinha imposto um limite à exploração do corpo feminino”5 Noutro texto, a filósofa questiona: “Porque é que a caça às bruxas se dirigia sobretudo contra as mulheres? Como se explica o facto de, durante três séculos, milhares de mulheres na Europa se terem tornado a personificação do ‘inimigo interno’ e do mal absoluto?”6

    A definição de "inimigo interno" também se coaduna bem com a do fungo parasita, que ataca, altera ou mata o seu hospedeiro. Ao tocarem em diferentes pontos-chave, as obras de Nets of Hyphae enfatizam também uma ligação entre envenenamento e posse: ambos são processos invisíveis e descrevem um momento em que o eu é "interrompido" por uma força alienígena. Seja espiritual ou químico, o agente invasor desloca o corpo de si mesmo, transformando-o num território de incerteza, transformação ou ameaça. Neste sentido, o corpo tóxico ou possuído torna-se um símbolo de instabilidade e resistência — algo que não pode ser totalmente controlado.

    Outro exemplo de hibridização de um corpo feminino surge no vídeo Adaptogens (2024). Aqui, a voz de uma cientista acompanha um ensaio visual poético, justapondo cenas de laboratório, vistas microscópicas de micélios e neurónios, plantas, fungos, planetas e viagens espaciais. Este conto ficcional, inspirado numa conversa de Diana Policarpo com uma astromicologista radicada em Macau, despertou a imaginação sci-fi da artista. Especulando sobre a possibilidade de vida no espaço, o vídeo examina a produção sintética do ingrediente ativo do cordyceps em microgravidade, antes da narradora começar a experienciar estranhas transformações no seu próprio corpo. Como se vivesse uma “space oddity” ["estranheza espacial"] pessoal, a narradora evoca uma dissolução da identidade em favor de uma fusão de máquina, fungo e corpo. A languidez é substituída por um sentimento positivo de se tornar um novo organismo — uma fusão de identidades, uma harmonia entre a vida e a tecnologia.

    Através de redes de fungos e micélios, a obra de Diana Policarpo revela o seu poder de nos fazer questionar os nossos sistemas e categorias, alterando assim a forma como pensamos e imaginamos. Nos mecanismos do fungo parasita, a artista encontrou uma linguagem para criticar as estruturas de poder social e económico, enquanto simultaneamente identifica padrões repetitivos e recorrentes de normatividade. Ao mesmo tempo, o fungo e os seus esporos, capazes de infectar ou fertilizar, intoxicar ou curar, de renascer a partir de um cadáver ou fantasma, abrem, literal e ficcionalmente, perspectivas interespécies para a sobrevivência da humanidade ou para formas alternativas de vida — no planeta Terra ou em qualquer outro lugar.

    Diana Policarpo, Underground Allies. Fotos © Vasco Stocker. Cortesia da artista e Rialto6.

    Sara de Chiara é historiadora de arte, crítica e curadora de arte contemporânea. Doutorou-se em história da arte pela Universidade Sapienza de Roma em 2022. Desde 2019, é responsável pelas publicações do Centre d'Art Contemporain Genève, onde também colabora em alguns projetos expositivos como investigadora e assistente curatorial. Contribuiu com ensaios para numerosos catálogos e monografias, colabora com diversas revistas de arte, entre as quais a Contemporânea, Frieze, Flash Art International e escreve no suplemento cultural do jornal italiano Il Sole 24 Ore.

    Notas de Rodapé
    1. Coccia, Emanuele (2017) – The Life of Plants: A Metaphysics of Mixture. Tradução de Dylan J. Montanari. Cambridge: Polity Press, 2029. Coccia, Emanuele (2020) – Metamorphoses. Tradução de Robin Mackay. Cambridge: Polity Press, 2021.
    2. MARTINS, Ana Cabral (2019) – “Explorando o Death Grip vencedor de Diana Policarpo, no MAAT”. Público, 4 de julho. Disponível em: https://www.publico.pt/2019/07/04/culturaipsilon/noticia/ciclo-fungo-exposicao-maat-1878753.
    3. NELSON, Maggie (2015) – The Argonauts. Minneapolis: Greyford Press, pp. 13–14. Tradução livre.
    4. FEDERICI, Silvia (2004) – Caliban and the Witch: Women, the Body and Primitive Accumulation. Nova Iorque: Autonomedia.
    5. FEDERICI, Silvia (2020) – Caccia alle streghe, guerra alle donne. Roma: Nero, p. 21. Tradução livre.
    6. FEDERICI, Silvia (2012) – Witch-Hunting, Past and Present, and the Fear of the Power of Women. Ostfilder: Hatje Cantz, p. 5. Tradução livre.