“O firmamento é como um pássaro que rufla as asas do jeito que Deus lhe ensinou, batendo a cabeça na Porta como se fosse um martelo.”
Matei o pássaro do sol.
Jamais tentarei rasgar as minhas costas, aguentando a dor com olhos abertos ao mundo, à espera que da minha rachadura cresçam asas. Vento a vento.
Talvez fosse um ato de resistência. Terminei a vida do pássaro embebida na sua fé em demasia. Matei o pássaro. Jamais um crime voara tão longe, tão longe, tão longe de qualquer adjetivo que eu pudesse imaginar. Não existindo palavras desaparecidas capazes de esvaziar a escrita, deixando-a oca como a morte do pássaro, caem aqui frases desmedidas. Sacos cheios de ar, inadequados ao acontecimento. Numa vida que nunca conheci, bastaria dizer “matei o pássaro” para drenar o universo inteiro.
O primeiro passo era encontrar a ave certa. Um pássaro sem morte nem corvos. Um pássaro com penas feitas de metáforas e cujas pegadas deixassem um rastro de alforria infinita. Um pássaro que pudesse voar muito mais que um conto. Encontrá-lo e matá-lo.
No início, chegou à memória dos meus ouvidos a voz de Fairuz cantando um poema palestiniano. Tudo à minha volta se tornou de repente rouxinol, a sua voz, o poema e o pássaro. Alguns rouxinóis deixam de cantar quando estão no cativeiro. E se fosse palestiniano? Voltaremos, respondeu-me a canção:
“Voltaremos: o rouxinol confidenciou-me
quando na curva do caminho o encontrei
que, além, todos os rouxinóis continuam
a alimentar-se com os nossos poemas.”1
Desisti do rouxinol, não consegui matar o “voltaremos”.
Olhei bem para cima, mesmo sabendo que já ocuparam os últimos céus. Na espera de um sinal que não seja um rocket, ouvi a voz do poeta cantarolando: “Querido céu, por onde andaste enquanto as nossas casas estavam a ser bombardeadas?”2 O teto celeste estava forjado, cheio de maquinarias e choviam muitos fósforos sem cabeças. Consegui, apesar de tudo, ver as asas do anjo que de tanto sonhar morrendo voaram.
Procura uma poupa no poema. Parecia ter dito o anjo.
Uma poupa talvez seja o meu pássaro morto. Fantasiei-me desfazendo o seu orgulho e despedaçando a crista erguida pela sua identidade. Identidade esta que nunca larga, mesmo quando o colonizador declara a poupa como sua ave nacional. Ela e todos os ramos palestinianos onde pousa.
No meu conto, não voará. Será uma poupa morta. O corpo preto e branco que se assemelha a um keffieh será lavado com lixívia. O seu peito feito mel, defunto sem doçura. Contudo, enquanto traduzia este pássaro com o nome de hud-hud na sua língua materna, a poupa que saltitava até à morte recusou abandonar o nome e o poema. “Há um hud-hud em nós”3. Dizia o verso. Há uma poupa em nós, e eu não nos quis matar a nós, apenas o poema.
A minha avó é um poema morto. Nunca a conheci, mas habita as minhas palavras vivendo sempre no mesmo lugar, curiosamente na vila palestiniana donde foi expulsa em 1948. Visitou este meu texto e escolheu o pássaro que andava na sua terra. O pássaro perfeito para matar. Um pássaro que carrega Palestina no seu nome: ʾasfur ash-shams al-filasṭīnī, o Pássaro do Sol da Palestina.
Mata um macho, disse.
Faria mais sentido ser o meu pai a aparecer neste meu conto invés da minha avó. Tem um romance cujo título acaricia este pássaro e sobre ele fala. Nesta parte do conto que não escrevi, o meu pai, um poema morto como a minha avó, ia aparecer nos meus sonhos. Falaríamos do seu livro, enquanto empoleirado nu na grade da minha cama como se fosse um pássaro, exatamente como Matthew Modine, no filme Birdy. A nossa conversa sobre literatura ficaria acesa. Sempre foi. Não iríamos concordar. Eu transformar-me-ia num dos pássaros de Hitchcock e atacaria o meu querido pai.4
Felizmente a dominância das figuras das mulheres na minha escrita, evocou o fantasma da minha avó para esta história, evitando o horror. Os espíritos dos mortos são extremamente egoístas, eles é que escolhem quando aparecem nos sonhos e nos contos. Ao escrever esta frase, o meu coração acelerou e comecei a transpirar. Será que o pássaro morto irá visitar os meus pesadelos e as minhas palavras sempre que quiser? Uma coisa é ser visitada por uma avó que nunca conheci, ou um pai agachado sem roupa no fundo da cama, outra coisa, por um ser que eu matei e cuja beleza supera a liberdade. Desviei o meu medo, decidindo celebrar o triunfo: capturei o meu pássaro nacional.
Desde o início da escrita, conhecia o pássaro que queria matar, só não conhecia este seu nome: Cinnyris osea. Apesar de ser palestiniano, o nome científico dele habita num cárcere em latim. Não tem nenhuma raiz forte de três consonantes, nem oferece qualquer resistência de cantos guturais ou pedras linguísticas. Um pássaro extremamente árabe em latim.
Um pássaro pequeno e eu tenho duas mãos. Nenhuma asa.
Não sabendo o tamanho da palma da minha mão, agarrei numa fita métrica. Coloquei a ponta na minha boca e a outra na mão esquerda para a medir, enquanto estava ligeiramente aberta e estendida como um bico em frente da minha cara. Confirmei que o tamanho do pássaro que nunca ultrapassa os 12 cm cabe na palma da minha mão. Não analisei as minhas linhas de vida que foram gravadas no meu corpo desde a catástrofe Nakba. Presumo que um pássaro estendido morto ficava lá bem.
A minha ave é nectarívora, chupa a doçura das flores palestinianas com seu bico preto curvo, longo e igualmente palestiniano. A sua língua longa, um pincel. Era uma acácia. Buganvília. Lavanda. Hibisco. Sálvia. O pássaro sugou as suas cores, ficando ele próprio com tons metálicos. Verde. Azul. Laranja. Matei o meu beija-flor.
O pássaro não era mais que uma condição para um sonho de liberdade. Talvez ninguém dê pela sua falta. A ausência passa sempre despercebida. Apertei o pescoço à utopia, convicta de que a morte do pássaro seja a porta gaiola fora. Num mundo preso à expectativa de voar, mata-se o desejo. A esperança não alimenta a fome, é preciso arregaçar as mangas da vida. Fazer. Depois da morte do pássaro, as alegorias jamais farão sentido.
Era uma ação ética e moral, sem estética nem elegância. Não foi, porém, nada que se pareça com as pombas esmagadas no meio das ruas de Lisboa, que sempre me devolvem as imagens dos corpos desfeitos do meu povo. Recordação que prefiro nunca partilhar com ninguém. Contudo, confirmo que matei o pássaro sem beleza.
A morte nunca fica bem.
Não sei como o matei. Não vou empurrar as minhas fantasias assassinas para o além, vou deixar a frase simples e limpa: matei o pássaro. Não é preciso voar na imaginação. O pássaro palestiniano nunca parava de cantar esperanças com voz aguda. Nauseada, matei o pássaro. Foi apenas para me libertar da sua metáfora e uma tentativa de entender o poema: “os pássaros são as sombras dos campos cobrindo o coração e as palavras.”5 Talvez tenha sido ele próprio que se matou em mim.
Pintei o seu bico de branco e tingi, da mesma cor, a ponta do meu lápis. E enquanto com a mão esquerda deslizava o ecrã, aparecendo à minha frente um vídeo de uma menina a andar no fogo, com a mão direita arrancava escrevendo as penas do meu pássaro morto. Sussurrei nos seus ouvidos invisíveis: até os insetos têm asas. Nunca fiando e sabendo que o meu pássaro não é nenhuma barata cujas asas não servem a liberdade, arranquei-as.
Abri a janela e mandei fora todas as minhas canetas juntamente com os braços do pássaro.
Nada voou.
Estendi o meu pescoço para fora da janela, vi o prazer olhos nos olhos: um conjunto de porta-penas deitadas no chão, ao lado de umas asas. Parecia ter ouvido um canto ou um rabisco. Divagando, afoguei. Calma. O pássaro está morto e já não acredito na reencarnação. Não haverá mais em mim qualquer imaginação. Alívio. Levantei a minha cabeça e olhei para a frente. Nenhuma mancha de nenhum pássaro arruinava o mar nem o horizonte. Nenhuma melodia de pássaros acompanhava obrigatoriamente o silêncio. Já não precisava de saber se foi a música que inventou o canto do pássaro ou se foi ele que imitou a canção. Senti-me finalmente livre. Voei, voei, voei como se não houvesse muros nem nuvens no céu.
Olhei para baixo antes de fechar a janela. O pássaro fitou-me, parecia vivo. Aprendi algo com meu colonizador: matar até que não haja mais morte. Decidi, um dia, matá-lo outra vez noutro conto, se voltar a ter canetas. Deitei-me na cama, sem arrancar o meu arrependimento lágrima a lágrima, pois já não tenho nenhuma pena. Dormi descansada pela primeira vez desde 7 de outubro.
De manhã, abri a janela. Como todos os outros dias, a luz do dia me encarou. Imaginei um parapeito que não tenho. Ali, um ovo no ninho. Dele começava a voar um poema. Nenhum pássaro. Recolhi as asas e continuei a escrever.6
Imagem de Capa
Camille Henrot, Grosse Fatigue, 2013. Cortesia da artista.
- O poema, cantado por Fairuz — cantora libanesa e uma das vozes mais emblemáticas na história da música árabe — é do poeta de Gaza Haroun Hachim Rachid (1927 - 2020). Poemas disponíveis em português em As Pedras Têm Entranhas? Antologia de poemas palestinianos (2023), escolhidos e vertidos para português por Regina Guimarães. Vila Meã: Contracapa.
- ASHOUR, Yahya (2024) – “De repente lembro-me do meu desespero”, disponível em português em Se Eu Tiver de Morrer - Poesia de Resistência Palestiniana Séc. XXI. Traça Editora.
- DARWISH, Mahmoud – Verso do poema “A poupa”.
- PARKER, Alan (1984) – Birdy. Filme baseado no romance de William Wharton (1978).
- DARWISH, Mahmoud – Verso do poema Poema da Terra.
- Dedico este conto aos seguintes poemas que acompanharam a sua escrita e inspiraram frases aqui resistentes: “Estrela da Tarde” de Ary dos Santos; “Nós ensinamos a vida, senhor”, de Rafeef Ziadah, onde diz: “Nós, palestinianos, ensinamos a vida, depois de eles terem ocupado o último céu.”; “Agora as minhas asas voam livremente”, de Hiba Abu Nada, que foi morta em 20 de outubro de 2023 em Gaza, durante os bombardeamentos israelitas. Também dedico este texto ao seminário da escritora Adania Shibli Times of Destruction (organizado por Maumaus, Fundação Calouste Gulbenkian – Lisboa, março 2025) que inspirou a escrita deste conto.