17 elementos omnipresentes da dominação:
O extrativismo das terras raras e a asfixia de terras, vidas e sonhos
quero ir onde estavas
a montanha verde brilhando ao fundo
a terra dos espécimes incríveis
os melhores de todos, diziam eles
— Otobong Nkanga, Reflections of the Raw Green Crown [Reflexões de uma crua coroa verde] , 2014
De um palco escurecido emerge Otobong Nkanga, a sua cintura cingida por uma mesa metálica que balança como um tutu. A mesa é iluminada por frases enquanto a artista acena à audiência da sua performance Glimmer: Aurum (2013), proclamando finalmente o prazer de “trabalhar em concertação com os minerais, as memórias e o desejo de utilizar os infinitos recursos da sua energia combinada”1. Em lugar desta beleza que é trabalhar em conjunto, as vidas humanas e mais-que-humanas são atormentadas pelos recursos minerais, como se de uma toxina nas mãos de um viciado se tratasse. A obsessão compulsiva do nosso sistema com os minerais levou o extrativismo à sua mais perversa forma de violência colonial, racial e ecocida, mas também aos vícios impulsivos da gratificação instantânea, dos níveis de conforto insustentáveis e da optimização contínua. A última tecno-obsessão do mercado global, e consequentemente da geopolítica e dos arautos do conflito, são elementos de terras raras.
As terras raras mostram-nos o intrincado novelo que é a vida contemporânea, pois constituem “um terreno fértil onde começar a exploração do contemporâneo”, citando Nadim Samman, um dos curadores da exposição RARE EARTHS (2015)2 no TBA21. Tendo passado os últimos meses a pesquisar terras raras, dou por mim a tentar deslindar este complexo enredo. A sua presença é sempre perseguida por uma memória-sombra da sua violenta extração. Como uma espécie de especiaria para a tecnologia, as terras raras estão presentes em pequenas quantidades em quase todas as tecnologias que constroem a nossa sociedade na sua obsessão com o conforto e a segurança: dos micro-ondas, ecrãs e LEDs aos gigantescos centros de dados (data centers), jatos militares e mais recentes tecnologias de ressonância magnética. Embora não estejam na base destas tecnologias, as terras raras exponenciam as qualidades específicas dos metais, aguentam a radiação nuclear, aceleram a condução nas turbinas eólicas e nos veículos elétricos, permitem a miniaturização dos nossos dispositivos e clarificam os sons das colunas e as cores dos ecrãs que alimentam o nosso vício tecnológico3. Por outras palavras, as decisões em volta do design tecnológico, guiadas pela ubiquidade, controlo e otimização, são tomadas com a expetativa da disponibilidade total destes elementos, independentemente de custos sociais e ecológicos.
As terras raras são tudo menos raras: tal como o seu uso na tecnologia está disperso pela sociedade contemporânea, também a sua disponibilidade natural está dispersa pela crosta da Terra, onde pequenas quantidades destes elementos estão cerzidas com outros minérios, metais e elementos radioativos. Tal significa que a sua extração implica a destruição ambiental massiva, tanto pela mineração como pela refinação necessárias. Esta devastação ecológica tornou-se inegável após o fecho da mina de Mountain Pass, California, que fornecia terras raras para grande parte do mercado global, após um derrame tóxico4 em 2002. Na China, que controla agora a cadeia de fornecimento global de terras raras, garantindo a refinação de 90% e a mineração de 70% destes produtos, as regiões mineiras da Mongólia estão já marcadas pela subida do número de mortes humanas, animais e vegetais devido ao envenenamento das águas e dos solos5. Com a crescente dependência de terras raras nas novas tecnologias militares, energéticas e de controlo de dados, e com o domínio chinês tanto sobre os mercados como sobre os processos, assistimos agora a uma corrida ao ouro que afeta a geopolítica mundial, ameaçando montanhas, águas e vidas na Gronelândia, Brasil, Índia, Austrália, Malawi, Zâmbia e África do Sul, entre muitos outros6. Como explica a artista Ndidi Dike, “Somos todos testemunhas de um espetáculo recorrente onde líderes mundiais debatem, regateiam, negoceiam e ocultam terras raras, minerais críticos e tarifas de guerras comerciais, que são intercambiadas pela segurança e pelo desenvolvimento económico, sempre a partir da linguagem e da retórica da “construção da paz”, tudo peças no tabuleiro de xadrez do capitalismo extrativista.”7
Um Tabuleiro de Xadrez do Capitalismo Extrativista, onde a Eficiência é a Rainha
O antropoceno foi, nas palavras de T.J. Demos, “completamente instrumentalizado pelo neoliberalismo tecnocrático… [justificando] todas as formas de capitalismo do desastre e dos seus reparos tecnológicos”. O que está em causa aqui é o absurdo de confiar a esses mesmos tecnofeudalistas, principais causadores da crise ecológica, com a missão de a resolver. Tendo anteriormente colocado o dinheiro acima de tudo o resto, o sistema racista e capitalista continua a fazê-lo mesmo após as novas correções8. Como Kair e Jodi Dean acusam incisivamente em “Revolution or Ruin” [Revolução ou Ruína], há ainda muito dinheiro a ser feito num mundo em aquecimento9.
Grande parte deste dinheiro poderá vir da mineração de terras raras, cada vez mais usadas para exponenciar a eficiência das tecnologias de fornecimento energético. Isto pode ser feito com tecnologias mais antigas, como no caso da utilização de escândio e lutécio na refinação do petróleo. Mas também com novas tecnologias, onde lantânio é utilizado como liga de níquel para armazenar gás de hidrogénio em veículos movidos a hidrogénio, ou em baterias híbridas de carros híbridos. A utilização de promécio faz o fósforo emitir luz em células solares. Talvez mais potentes, o neodímio e o disprósio são usados para produzir ímans permanentes, que suportam altas temperaturas e são necessários para turbinas eólicas, motores, geradores e carros elétricos10. Como tal, a utilização de terras raras em tecnologias de “energia limpa” ou de “transição verde” serve para justificar a sua extração, independentemente dos custos que acarrete para humanos e mais-que-humanos. Tornam-se assim parte integrante de um extenso sistema extrativista: como Kate Crawford e Vladan Joler mostram em Calculating Empires: A Geneology of Technology and Power since 1500 (2023) [Calculando Impérios: uma Genealogia da Tecnologia e do Poder desde 1500], as terras raras fazem parte de uma “guerra fria mineral planetária”, onde formam uma triangulação com os triângulos do lítio e dos metais industriais, levando à exploração violenta e a conflitos regionais sangrentos11.
Enquanto Calculating Empires é um trabalho enciclopédico e racionalizado que materializa o enredamento de diferentes estirpes de poder e domínio contemporâneos, obras como Rare Earth Rare Justice (2025) [Terra Rara Justiça Rara] de Ndidi Dike trazem uma aproximação mais emocional ao tema. Uma topografia desenhada, onde a crueza das superfícies e pigmentos hápticos remete tanto para as cores dos recursos como para o vermelho, branco e azul das bandeiras imperiais. Rare Earth Rare Justice foca-se na República Democrática do Congo (RDC), onde as guerras por recursos se tornaram um dos mais mortíferos conflitos na história do mundo, ceifando mais de seis milhões de vidas nos últimos 30 anos12. A “mind/minescape” [trocadilho com a palavra paisagem (landscape), onde a primeira parte da palavra — terra (land) — é substituída por mente (mind) e mina (mine)] da exposição refere-se à “deformação tectónica da riqueza e da pobreza pela exploração da guerra por recursos. Por baixo da superfície desta paisagem de exploração perdura o submundo: ecos de um sofrimento imenso e de custos ecológicos imensuráveis”13. Estes ecos são visualmente representados por instalações, onde esculturas na técnica Igbo e objetos encontrados/reapropriados servem como recetáculos da memória pós-colonial: uma escultura monumental, cuja forma lembra uma bala ou o plano de um navio negreiro clássico, é composta por cerca de 900 apoios de cabeça para autópsias (maioritariamente usados por morgues), e acompanhada por uma cadeira de rodas feita de moldes de balas. A toda a volta, o som de balcões de câmbio relembra-nos do que se trata verdadeiramente14. Nas palavras de Adelaide Bannerman, as terras raras “emergem [na exposição] como condições éticas: o eco do império nas veias minerais, o trabalho espectral que alimenta a tecnologia global, a cumplicidade silenciosa entre capital estrangeiro e governação local … [como] poder, lucro e silêncio formam uma lógica mineral partilhada”15.
Para Ndidi Dike, as terras raras permitem entender a corrida à extração que devasta a RDC, e cujo principal motor é hoje o dito “crítico” mineral de cobalto16, utilizado (juntamente com as terras raras neodímio e disprósio) nas baterias de iões de lítio, presentes nos carros elétricos17. Dike não é a única artista a colocar a caçada global por minerais “críticos”, como lítio, cobre e cobalto, no mesmo saco que a corrida às terras raras: o projeto Rare Earths Elements [Elementos de Terras Raras] (2017-2019) de Rosell Meseguer compila, de forma similar, terras raras e minerais “críticos” da tabela periódica em dicionários de geologia, teoria económica e ecologia política. Pedras, desenhos, fotografias, mapas e livros de contabilidade pintados com pigmentos da cor dos minerais mapeiam as suas histórias ao longo da exposição18. O uso partilhado dos minerais “críticos” e das terras raras nas tecnosoluções para a crise ecológica, combinado com apertos previstos às cadeias de fornecimento, justifica a violência que, uma e outra vez, atinge principalmente pessoas negras e indígenas.
Na continuação da história de violência racial estão, por exemplo, projetos de mineração de terras raras em Angola, Malawi e África do Sul, dos quais Austrália, China, Europa, Japão e EUA são os maiores investidores19. Estes projetos são recentes, tendo a última mina de terras raras em África, British Rainbow Mining, parte do projeto de mineração Gakara no Burundi, sido fechada em 2021 por ordem do Presidente Évariste Ndayishimiye, que suspendeu a exploração minéria por companhias estrangeiras, evidenciando que os seus contratos saqueavam a população do Burundi e precisavam de ser renegociados. Entretanto, o país continua a debater-se com 90% da sua população vivendo abaixo da linha da pobreza, juntamente com escândalos de corrupção, mineração artesanal e contrabando de recursos da vizinha RDC, onde o governo de Ndayishimiye está intensamente envolvido na guerra civil20.
Enquanto a tendência dos ciclos noticiosos é obscurecer estes conflitos, apresentando-os como algo que afeta apenas geografias, mercados e interesses específicos, as respostas artísticas falam-nos da natureza planetária e racista da violência extrativista. As tapeçarias, instalações e performances de Otobong Nkanga acusam as transformações das matérias-primas para utilização industrial, que deixam feridas profundas nas montanhas e nas memórias coletivas21. Denise Ferreira da Silva entende que In Pursuit of Bling (2014), de Nkanga, compreende de que formas as mercadorias materiais alimentam o capital global construído sobre arquiteturas jurídicas e económicas de violência colonial e racial. No seu ensaio-resposta, teoriza a luz negra como ferramenta poética que torna visível “o obscurecimento que é condição para a possibilidade de um capital global”22. Ferreira da Silva volta a repescar o conceito de luz negra mais tarde, desta vez como técnica para o seu filme com Arjuna Neuman, 4 Waters: Deep Implicancy (29’10’’, 2018). O filme atravessa quatro oceanos e quatro ilhas para deslindar as formas como a violência racial, as alterações geológicas e o extrativismo material “deslocam o lugar privilegiado do valor na ética, nas relações e no conhecimento”23. Da mesma forma, a já referida instalação Rare Earth Rare Justice de Ndidi Dike justapõe imagens de beleza com a realidade do consumo global que continua a violar e a expropiar corpos negros enquanto empobrece terras e ecossistemas, assim “revelando não apenas os mecanismos do poder, mas também a nossa própria cumplicidade, desejo e negação”24.
Uma violação paralela acontece com os povos indígenas do Norte, como nos mostra a atual crise na Gronelândia. Tendo identificado dois depósitos de terras raras em Kvanefjeld e Tanbreez, as corporações mineiras e os estados pós-industriais competem pelo seu pedaço dos direitos de exploração e desenvolvimento infra-estrutural. Dado que os depósitos de terras raras de Kvanefjeld estão emparelhados com urânio — a mineração trazendo um alto risco de fugas de resíduos radioativos —, o movimento social “Urânio? Não!”, encabeçado pela população indígena, trouxe a questão do extrativismo até às eleições. Em 2021, o partido Inuit Ataqatigiit venceu as eleições parlamentares e reinstalou a interdição da década de 1950, que impedia a mineração de depósitos minerais com urânio e que foi revogada em 2013. O resultado? A empresa de mineração australiana Energy Transition Minerals levou a Gronelândia a tribunal, onde o projeto está ainda parado, e exigiu uma compensação de 11,5 mil milhões de dólares — quatro vezes o PIB da Gronelândia — argumentando que a legislação é uma expropriação de facto do projeto25.
Com a reaparição do fantasma haitiano da incapacitante dívida de dois séculos à França, após a revolução haitiana, escapar do ciclo de extrativismo que está a cozer a Terra viva enquanto se alimenta de corpos negros e indígenas parece um sonho cada vez mais distante. Traçando o paralelo entre corpos indígenas e extrativismo de recursos, o filme Extractions (16’, 2019) de TJ Cuthand fala-nos de uma próspera indústria de apreensão de crianças, planos para novos oleodutos e uma complacência partilhada com um progressivo evento de extinção em massa:
Mas talvez seja isso que nos querem fazer acreditar: que este é o fim da esperança e da vida e do amor. Que não há mais futuro para a humanidade, para as pessoas indígenas, para as pessoas que tornam fazer bebés tão mais complicado. Talvez seja só um engodo para que possam sugar este planeta até à última gota de sangue em vez de encontrarem uma forma de dar a volta. Talvez não ter bebés torne tudo mais fácil, pois se não tivermos pessoas que precisem de estar bem, então não temos de nos preocupar tanto. E podemos só sentar-nos com o ar condicionado a ver Netflix até a eletricidade acabar26.
Guiados pelo desejo de dominar e conquistar a vida
O que está por detrás da profunda implicação da dominação do mundo? Que movimentos e desejos colocaram a humanidade no caminho do aceleracionismo tecnológico que destrói tudo do que a existência depende? Argumentando a necessidade de uma visão expandida da cultura mediática que inclua o seu extrativismo material, Jussi Parikka introduz este desejo em A Geologia dos Media (2015), a partir do conto “Quando o mundo gritou” (1928) de Arthur Conan Doyle. A narrativa segue o Professor Challender, Sr. Edward Malone e Sr. Peerless Jones numa missão para revelar o organismo vivo da Terra, por baixo das camadas do subsolo. Perfurando cada vez mais fundo, chegam onde é “inegável que até a matéria não-orgânica está viva: ‘as vibrações não eram diretas, mas davam a impressão de uma ondulação ou ritmo gentil que corria pela superfície’, assim descreveu Sr. Jones a superfície profunda que encontraram. (…) [Então,] numa das mais bizarras cenas de violação na literatura, (…) ele penetra essa camada gelatinosa só para fazer a terra gritar. Este sadismo científico ecoa nos ouvidos da audiência e muito mais além.”27
Este ato sádico de penetração é espelhado a montante na utilização de pelo menos doze elementos de terras raras em três áreas-chave da dominação: tecnologia militar (força física sobre humanos), reatores nucleares (força sobre o maior poder que conhecemos) e dispositivos médicos (domínio sobre a vida e a morte). O promécio é utilizado para guiar mísseis, o praseodímio em motores de aviões e o escândio em caças, enquanto o neodímio (com ferro e boro) e o samário (com cobalto) são usados nos ímanes permanentes de que dependem uma parte significativa dos programas de defesa modernos, dos jatos militares aos radares, drones e mísseis guiados. Os absorventes de neutrões presentes em várias peças dos reatores nucleares usam samário, európio (que, coincidentemente, é também usado para imprimir notas de euros, pois brilha sob luz UV), disprósio, hólmio e gadolínio. Este último é também usado nas ressonâncias magnéticas, enquanto o túlio e o neodímio são utilizados em lasers cirúrgicos, e o primeiro ainda em máquinas de raio X portáteis — uma tecnologia tornada segura pelo térbio28.
Pelas paisagens mineiras imaginárias que os domínios militares, nucleares e da medicina mantêm vivas, começamos a entender como a omnipresença das aplicações tecnológicas das terras raras tem a ordem social global pelo pescoço. Mas o mais interessante são algumas obras de arte que exploram a relação extrema da humanidade com as montanhas e os minerais, como The Magic Mountain [A Montanha Mágica] (68’24’’, 2020) de Daniel Mann e Eitan Efrat. O filme explora a ambivalência dos legados minerais do Bag Gestein, um local radioativo na Áustria onde o projeto de mineração Nazi encontrou os trabalhadores abusados a serem curados pelo gás rádon da mina; as curas da mística Emma Kunz com pedras mágicas nos Alpes Suíços, cujas energias ela tentou utilizar para matar Adolf Hitler; e as pérolas criadas pelo suor e sangue numa localização subterrânea utilizada pelos nazis durante a sua ocupação da Polónia. Esta dualidade de cura em lugares de abuso, vingança em lugares de cura e memórias minerais resultantes da violência reflete a interligação relacional entre humanos e minerais.
Encontramos também uma lembrança da exposição Desejos Compulsivos - A Extração do Lítio e as Montanhas Rebeldes, de Marina Verzier Otero (Galeria Municipal do Porto, 2023), e da sua publicação Flotando en litio (2025). Falam-nos de uma dupla resistência contra a utilização do lítio na medicação bipolar paliativa, e contra o seu uso enquanto recurso a extrair para a indústria automóvel continuar a sua dominação, desta vez com veículos elétricos. Enquanto estes extrativismos deixam um rasto de destruição de ecossistemas e vidas no seu encalço, a água potável e as fontes termais destas montanhas são há muito consideradas curativas29. Aqui, tal como na Montanha Mágica de Efat e Mann, encontramos memórias de relações mais leves e não-extrativas, onde as águas da montanha são espaços místicos de descanso, cuidado e cura. Um lugar onde os humanos “trabalham em concertação com os minerais”, como é referido na performance de Nkanga30. Poderemos nós encontrar uma forma de curar as relações que tínhamos com estas montanhas, com estes elementos? Uma forma de atentar à chamada de Ursula K. Le Guin para que se evite o trágico, “linear, progressivo modo do (matar o) tempo-flecha do tecno-heróico” que “conquista a terra, o espaço, os alienígenas, o futuro”, e se redefina a “tecnologia e ciência como primeiramente uma cesta cultural em vez de arma de dominação”31?
Obsessão, adição e materialismo compulsivo
Se a tecnologia é a cesta cultural recheada de simbolismo das terras raras, os seus conteúdos são uma crescente neurose de obsessão, adição e compulsão alimentada pela indústria do entretenimento. Na verdade, um dos primeiros usos das terras raras foi precisamente por esta indústria, com a descoberta de que o oxissulfato de ítrio tornava mais vermelhos os fósforos vermelhos das televisões antigas32. Como uma traça atraída pela luz, esta amplificação de tom abriu território para uma nova área de dominação capitalista: a mente e o corpo do consumidor. Enquanto o ítrio das televisões era substituído pelas luzes vermelhas e azuis criadas pelo európio dos ecrãs LCD, trazidos até nós pelos cabos de fibra ótica e seus sinais de banda larga amplificados pelo érbio, a televisão e a indústria do entretenimento continuam a ser um dos maiores utilizadores de terras raras até hoje. A produção fílmica é também uma grande consumidora, com a presença de escândio e lantânio na iluminação de estúdio e na luz solar artificial33.
Apesar do seu renovado brilho, a televisão não era suficiente para garantir a dominação total. O que era necessário, portanto, era a miniaturização dos dispositivos, permitida pelos ímans de samário-cobalto, hoje largamente substituída pelos ímans de neodímio — esta miniaturização permitiu que a tecnologia ganhasse a sua atual qualidade pervasivamente cyborg34. Microresearchlab aponta para este extrativismo absurdo no seu projeto Tiny Mining (2020): “uma cooperativa e comunidade de exploração mineral empenhada no aproveitamento open source do interior do corpo humano para procurar terras raras e outros recursos minerais”35. Hilariante e perspicaz, o projeto oferece uma base teórica substancial que vira o antropocentrismo de cabeça para baixo numa excelente crítica ao extrativismo. “Não queremos continuar a extrair recursos de um mundo cada vez mais esgotado”, escrevem os minúsculos mineiros no Tiny Mining Sweatshop Reader. Querem desmantelar o privilégio e “tornar-se térreos através de uma igual exposição e responsabilização das práticas da própria humanidade e dos seus desejos de exploração” enquanto encenam “os desejos e as fantasias do consumo e exploração sem culpa”36.
O mundo da arte, claro, não está isento de culpas, como nos mostram projetos como CRITICAL INFRASTRUCTURE (2013). Criado por Jamie Allen e David Gauthier para o transmediale no Zentrum für Kunst und Urbanistik em Berlim, o projeto é um (an)arquivo do levantamento dos recursos e reservas que constroem o festival de arte e tecnologia transmediale. Explicando o projeto, a dupla sublinha a invisibilidade inerente à tecnologia: “Quando algo funciona — realmente funciona — é infraestrutura; tal como diz Douglas Adams: ‘Tecnologia é algo que não funciona ainda’”37. Por outras palavras, estamos imbricados nos sistemas infraestruturais tecnológicos que foram feitos para desaparecer, o que os torna cada vez mais difíceis de resistir.
Uma destas infraestruturas é o reino digital, que nos últimos vinte anos deixou de ser um espaço de possibilidade e comunalidade e se tornou uma viciante Plataforma Corporativa Complexa governada pela Big Tech. Como explica Tiziana Terranova em After the Internet (2022), isso tornou-se possível após 1991, quando o governo americano eliminou a proibição do uso comercial e várias ideias capitalistas tentaram colonizar a internet. Após a crise dot-com de 2001 e uma série de inovações de software que fugiam à rede de produção colaborativa baseada em bens comuns dos meados dos anos 2000, a mineração de dados tornou-se o modelo comercial vencedor e a internet foi integrada na Plataforma Corporativa Complexa38. Com a utilização de gadolínio, térbio e itérbio39 em centros de dados, enquanto a miniaturização permite a vigilância massiva numa escala sem precedentes, a Big Tech não tinha mais entraves a tornar-nos viciados como parte do seu modelo financeiro.
Procurar outros futuros em espaços suspensos
Com o léxico de dominação das terras raras debaixo de um braço, e a máquina extrativista debaixo do outro, os humanos que empunham qualquer poder, grande ou pequeno, são amaldiçoados com o desejo de Midas. Quer procuremos gratificação instantânea, um pouco de entretenimento, saúde, mobilidade, riqueza ou dominação, qualquer coisa que tocamos parece tornar-se num metal embrulhado em terras raras, cujo magnetismo permanente o prende ao seu aparato extrativista. Quando finalmente entendermos o quão embrenhados estamos, presos a um planeta ecocida em chamas, já não vamos conseguir ver uma saída.
Na sua procura por uma saída, TJ Cuthand e a sua Reclamation (13’, 2018) vão mais longe, especulando um futuro onde as pessoas brancas foram para o espaço, fugindo de guerras civis ambientais à escala planetária. Mas com a fuga das pessoas brancas, tudo o que a Terra precisa é de tempo. Após dolorosos períodos de abstinência, as pessoas indígenas curam as suas adições de consumo e redes sociais e passam o seu tempo a limpar o lixo. A água torna-se novamente potável. O ar torna-se respirável. A Terra recupera lentamente.
Numa proposta semelhante, a Fordlandia Malaise (40’, 2019) e a Fordlândia Panacea (62’, 2025) de Susana de Sousa Dias mergulham na história da plantação de borracha falhada de Henry Ford na Amazónia. A aldeia foi sonhada como uma utopia do (autoritário) industrialismo Fordista, que começou por deslocar e eventualmente erradicar o povo Tupi que lá estava antes. O projeto torna-se um enorme fiasco: todas as árvores que plantaram morreram, enquanto as borracheiras centenárias sobreviveram e os animais selvagens da floresta se tornaram uma ameaça mortífera; “a natureza reagiu… eles foram expulsos daqui pela própria natureza”, diz-nos uma voz da Fordlandia Malaise. Após afundar uma fortuna no projeto, Ford foi eventualmente forçado a abandoná-lo, mas a história da cidade continua. As casas foram ocupadas. As pessoas começaram a viver de outra forma. Combinando imagens de arquivo e filmagens de drones com conversas atenciosas e silenciosas com a população da aldeia, Sousa Dias põe a descoberto rastos do que podiam ser outros futuros possíveis: o projeto de um viveiro de árvores que lentamente refloresta o que foi destruído; pessoas que descobrem pedras pintadas e ferramentas Tupi nas profundezas da fábrica de Ford; histórias orais da selva do passado para aprender como viver com a riqueza à nossa volta, “ou pelo menos como defender o que está debaixo dos nossos pés”, como nos diz uma voz da Fordlândia Panacea.
Ambas as obras de Cuthand e Sousa Dias falam de futuros possíveis para lá da obsessão do extrativismo: futuros para lá da contínua dominação racial que infeta tudo o que toca. Como diz Sousa Dias, um aspeto importante da vitória do capitalismo global é a convicção humana de que não há alternativas. Viajando até à Fordlândia, Sousa Dias encontrou-se no que ela apelidou de espaço suspenso — um espaço que já cumpriu os seus propósitos económicos, sociais e políticos, abrindo-se a outros futuros. “Ao falar com os residentes da Fordlândia, encontrei um sentimento de futuro, uma habilidade de pensar e imaginar outros futuros para lá do que parece inevitável”, reflete numa conversa da eflux film. “As pessoas estão a replantar a Amazónia… A escrever a sua própria história e, no processo, a criar novas reações e metodologias”40. Reações e metodologias que poderão um dia reverberar pela Terra. Talvez haja ainda um lugar onde a esperança possa nascer. Talvez nem todos os sonhos tenham sido dominados pelo extrativismo para dominação. Talvez nestes espaços, livres de propósitos económicos, sociais e políticos, possamos começar a tecer novas relações planetárias com estes elementos mágicos das profundezas das montanhas. E aí, tudo pode mudar.
Imagem de Capa
Daniel Mann e Eitan Efrat, The Magic Mountain (68’24’’, 2020), still de vídeo.
Tradução EN-PT
Marta Espiridião
- Performance de Otobong Nkanga, Glimmer: Aurum (2013), na Akademie der Künste, Berlim, descrita por Monika Szewcyk em ‘Exchange and Some Change: The Imaginative Economies of Otobong Nkanga,’ Afterall 37 (Outono/Inverno 2014): 45 (40-50), e por Natasha Ginwala em ‘The Refusal to Shine’, de Otobong Nkanga: Luster and Lucre, Clare Molloy, Philippe Pirotte and Fabian Schöneich (eds.) (Sternberg Press, Berlim, 2017): 89-94.
- Nadim Samman, ‘Rare Earth,’ em Nadim Samman e Boris Ondreička (eds.), RARE EARTH (Thyssen-Bornemisza Art Contemporary and Sternberg Press, 2015): 22 (20-27).
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- Center for Preventive Action, ‘Conflict in the Democratic Republic of Congo,’ Global Conflict Tracker (atualizado a 18 de fevereiro 2026): cfr.org/global-conflict-tracker/conflict/violence-democratic-republic-congo [visitado a 18 de abril 2026].
- Dike, ‘Wake of My Mind,’ 5.
- Ndidi Dike, Rare Earth Rare Justice, na Secession, Vienna, Austria, 6 março 2026—31 maio 2026; Färgfabriken, Stockholm, Sweden, 28 agosto 2026—22 novembro 2026; Zachęta – National Gallery of Art, Warsaw, Poland, 2027.
- Adelaide Bannerman, ‘Her Materials,’ em Dike, Rare Earth, 57 (52-61).
- Center for Preventive Action, ‘Congo.’
- Tobias Junne, Niklas Wulff, Christian Breyer e Tobias Naegler, ‘Critical materials in global low-carbon energy scenarios: The case for neodymium, dysprosium, lithium, and cobalt,’ Energy 211 (2020): doi.org/10.1016/j.energy.2020.118532.
- Ver Rosell Meseguer, Rare Earth Elements: rosellmeseguer.com/index.php/en/projects/rare-earth-elements/work.html [visitado a 20 abril 2026].
- Houenou, ‘Africa’s Next Rare Earths Mine’.
- World Bank, ‘Burundi Mining Sector Diagnostic,’ (2025): doi.org/10.1596/43952. Outros exemplos reveladores do envolvimento transnacional do tabuleirdo de xadrez do extrativismo que Dike denuncia incluem a situação em Angola, onde as minas de terras raras de Longonjo e Coola estão a ser exploradas pela londrina Pensana, com investimento americano e da Toyota, entre outros. No Malawi, o projeto de terras raras Kangankunde, detido pela empresa de mineração australiana Lincian, anunciou o começo da produção no final deste ano, para processamento na fábrica de carbonato Sareco, no Cazaquistão, da qual é coproprietária e detém 51%, enquanto o projeto Songwe Hill da Canadian Mkango Resources, com um investimento inicial dos EUA, deverá ser refinado em Puławay, na Polónia. Ver Makungu Coco, ‘Angola Leads African Rare Earth Surge with $165 Million Investment in Longonjo Project,’ Angolan Mining Oil & Gas (17 março 2026): angolanminingoilandgas.com/angola-leads-african-rare-earth-surge-with-165-million-investment-in-longonjo-project/ [visitado a 18 abril 2026]; Houenou, ‘Africa’s Next Rare Earths Mine’; Nana Oye Ankrah, ‘Malawi’s Songwe Hill rare earth project cost rises to US$297m,’ Africa Business Insight (19 março 2026): africabusinessinsight.com/malawis-songwe-hill-rare-earth-project/ [visitado a 18 abril 2026].
- Clare Molloy, Philippe Pirotte and Fabian Schöneich (eds.), Otobong Nkanga: Luster and Lucre (Sternberg Press, Berlin, 2017).
- Denise Ferreira da Silva, ‘Blacklight,’ em Ibid.: 251 (244-252).
- Citando Steffanie Ling em Denise Ferreira da Silva, Arjuna Neuman e Steffanie Ling, ‘4 Waters: Deep Implicancy: Correspondence between Denise Ferreira da Silva and Arjuna Neuman. Introduced by Steffanie Ling,’ Images Festival (2019). É interessante que a exposição RARE EARTHS no TBA21 fale deste mesmo conceito do invisível através de uma filosofia descorporificada, com o curador Boris Ondreička a escrever na respetiva publicação : ‘TERRA RARA é o material (weight#x) do imaterial (weight#y).’ Boris Ondreička, ‘Litany on Aether,’ em Samman e Ondreička (eds.), RARE EARTH, 37 (28-38).
- Dike, ‘Wake of My Mind,’ 5. Outras instalações de Dike, como Commodities of Consumptions and Sites of Extraction in the Global South (2020-2021) exploram de forma similar como a comodificação desejada pela hegemonia ocidental continua a violar e despojar corpos negros, enquanto empobrece terras e ecossistemas. A obra enforma-se numa instalação de fotografias semelhante a uma jaula, cujas imagens falam do Norte Global e seu consumo de algodão, baunilha, ouro e índigo extraídos do continente africano. Ver Dike, Discomfort Zones (iwalewa books, 2022).
- Schwarts e Baskaran, ‘Greenland.’
- Citado da voz off de TJ Cuthand em Extractions (16’, 2019).
- Jussi Parikka, ‘An Alternative Deep Time of the Media,’ A Geology of Media, parte de Electronic Mediations 46 (University of Minnesota Press, 2015): 32 (29-58).
- “Escândio”, “Praseodímio”, “Neodímio”, “Promécio”, “Samário”, “Európio”, “Gadolínio”, “Térbio”, “Disprósio”, “Hólmio” e “Túlio”, Tabela Periódica
- Desejos Compulsivos - A Extração do Lítio e as Montanhas Rebeldes, com curadoria de Marina Verzier Otero, Galeria Municipal do Porto, 25 março — 28 maio 2023; Marina Verzier Otero, Flotando en litio (Caniche Editorial, 2025). Sublinho aqui a resistência popular à extração de lítio no centro e norte de Portugal, i.a. no Barroso, onde a população local tem vindo a resistir à proposta de uma mina de lítio a céu aberto, que seria uma das maiores da Europa e uma das 10 propostas de mineração para a zona, apesar de ser lugar de enorme bio-diversidade, um lugar de reservas de aquíferos cruciais e de património agrícola reconhecido pela FAO. A mais recente obra de arte a refletir sobre o movimento é Guardar com a Terra (10’2’’, 2025) de Tiago Patatas.
- Nkanga, Aurum como descrito em Szewcyk, ‘Exchange,’ 45.
- Ursula K. Le Guin, ‘The Carrier Bag Theory of Fiction’ (1986) em Dancing at the Edge of the World (New York: Grove Press, 1989): 169-70. Citada em Charles Stankievech, ‘Magnetic Anomalies in the Arctic: Colonial Resource Extraction, Meteoric Cults, and the Rare Earth Age,’ em Samman e Ondreička (eds.), RARE EARTH, 82-93.
- “Ítrio”, Tabela Periódica
- “Escândio” e “Lântanio”, Tabela Periódica
- “Neodímio” e “Samário”, Tabela Periódica
- Martin Howse (ed.), Tiny Mining: A Handbook for Internal Extraction (V2_, 2022): 2.
- Agnieszka Anna Wołodźko, ‘Tiny Mining: Theory of the earth from a sweatshop – on practising becoming cosmic,’ em Ibid., 13, 14, 17 (5-17).
- Jamie Allen e David Gauthier, ‘Critical Infrastructure,’ transmediale 2014: afterglow C. Ecologies (2014): 268 (266-271).
- Tiziana Terranova, After the Internet: Digital Networks between Capital and the Common (MIT Press, 2022).
- “Gadolínio”, “Térbio” e “Itérbio”, Tabela Periódica.
- Susana de Sousa Dias em T.J. Demos, Kodwo Eshun, Toby Lee, Sasha Litvintseva, Anjalika Sagar, Susana de Sousa Dias e Lukas Brasiskis, ‘Visualizing the Anthropocene: Aesthetics and Politics,’ discussão online, ‘Ecology After Nature: Industries, Communities, and Environmental Memory,’ e-flux film (14 agosto 2020—8 novembro 2020). Disponível em e-flux.com/film/351120/visualizing-the-anthropocene-aesthetics-and-politics [visitado a 2 abril 2026].