ao longe, um artista continua a caminhar
Um dispositivo em promenade emite fluxos de raios luminosos na forma plástica de proposições escultóricas, cromáticas e linguísticas. Modula óptica e visualmente as diversas superfícies assim transformando umas na profundidade de outras. Nesta instalação de grande escala agitada por múltiplas conexões, o sentido não se produz isoladamente mas, antes, através de uma espécie de conjunto cinético da época digital, continuamente assombroso, que activa a operação de questionamento dos meios tecnológicos e as fronteiras da desmaterialização da arte. A cinemática que se joga entre a luz e a obscuridade, produz o efeito de multiplicação dos volumes. Linhas sem princípio nem fim desenham o nosso campo de visão. As palavras subtraem-se ao mundo quotidiano com o qual dialogam e conceptualmente se articulam de maneira não linear. Privilegiando uma sequência discursiva não normativa, esta espécie de hipertexto sinestésico configura uma rede interactiva de informação na qual a fragmentação espacializada se transforma em espacialidade fictícia.
Colapso, exposição de Silvestre Pestana com curadoria de João Laia, apresentada na Galeria Municipal do Porto, materializa-se em trinta e um painéis leds, propondo-se construir o espaço expositivo a partir de uma gramática multimédia que inclui materiais semióticos verbais e não-verbais: palavra, luz, cor, ritmo, som. Trata-se do “poema mais ambicioso” daquele artista, escreve o curador. Os espectros da poesia visual, performance, vídeo, arte electrónica e digital objectivam-se nesta exposição — é claramente reconhecido que a obra de Silvestre Pestana, desde os anos sessenta, foi pioneira daquelas práticas e da contaminação entre os múltiplos territórios da arte. Sempre afastado dos limites entre disciplinas, o artista situa perante a actualidade o capital histórico da sua prática — convoquemos, no âmbito particular desta exposição, a obra de Jenny Holzer. Potenciando experiências de interacção, analogias e confrontos graças a uma eficácia pluridimensional do discurso, esta complexa proposta manifesta tanto a ideologia e o modelo dominante que sustenta o networking das Smart Cities, como o sentido das tecnologias digitais que dão forma à vida das cidades no contexto das sociedades contemporâneas. Excesso e supérfluo convergem na economia do luxo e da miséria. Estamos perante uma espécie de zapping que nos faz circular entre o caminho livre e sinais programados, o paraíso e o inferno, a ecologia e o vazio, a ruptura e o vestígio, a lua e o furacão, o abismo e o futuro, a guerra e o desejo, a ausência e o olhar, o oxigénio e a semente, o cosmos e o colapso — deste modo, o artista constrói um imenso e pertinente glossário da nossa actualidade. Não se trata de mera experimentação técnica mas de uma operação simultaneamente política, social e até multicultural, assim transcendendo a mera geografia pessoal.
A similitude visual com a atmosfera vibrante, fluorescente e intensa das feiras populares que o artista nos permite adivinhar, transfigura-se no uso apropriacionista que consagra a recontextualização de espaços simbólicos. Entre as experiências imersivas daquelas vivências (nas quais se inscreve o tempo da memória) e a cidade dita inteligente (maximamente funcionalizada) é a arte que parece ainda tornar possível a construção de um posicionamento crítico. Se habitualmente afirmamos estar rodeados de imagens que pretendem captar a nossa atenção, de maneira idêntica as palavras podem reproduzir o domínio despótico de significados que circulam infinitamente no espaço público e na teia da comunicação digital. Esta, simulando a realidade que desnaturalizamos não deixa de, cada vez mais, depender da fisicalidade material. Talvez as máquinas que visam simular tarefas habitualmente associadas à inteligência não saibam dar conta do imprevisível mesmo quando a algoritmização e a IA se assumem como ontologias fundadoras de cuja amplificação e consequências epistemológicas, antropológicas, políticas, filosóficas ou artísticas, o capitalismo um dia prestará contas. Como argumenta Victor Burgin, a questão não é apenas a de definir o que constitui uma política da arte na actual conjuntura:
Por mais que falemos uma linguagem, a linguagem fala por nós. A linguagem é uma máquina e todos estamos presos às suas engrenagens. Na parábola chinesa, o jardineiro taoísta adverte que quem usa uma máquina pensará como a máquina.1
É esta vontade de desconstrução das estruturas e códigos dominantes que, sem nostalgia do passado, reconhecemos na obra de Pestana e que, igualmente, a aproxima dessa ecologia do virtual reivindicada por Félix Guattari para quem não faz sentido o afastamento entre os seres humanos e a máquina —trata-se, hoje, de estabelecer ligações e alianças entre ambos, novas bifurcações e lugares de enunciação. Sem oposições maniqueístas procuram-se outras modalidades de coexistência capazes de instaurar distintos metabolismos. São as máquinas estéticas que, na perspectiva daquele autor, se propõem subtrair ao vazio unidimensional das sociedades capitalísticas à banalidade generalizada e à segregação. Não se trata, como argumenta Guattari, de transformar o artista num novo herói da revolução mas sim de afirmar uma ecologia do virtual com a potência das ecologias do mundo visível. Neste âmbito, são as práticas artísticas que, como relações de força, podem contribuir como paradigma de referência para a construção de novas práticas sociais e modos de subjectivar:
Significa dizer que a ecologia generalizada — ou a ecosofia — agirá como ciência dos ecossistemas, como objeto de regeneração política mas também como engajamento ético, estético, analítico, na iminência de criar novos sistemas de valorização, um novo gosto pela vida, uma nova suavidade entre os sexos, as faixas etárias, as etnias (....). 2
Abordando historicamente as máquinas colectivas de subjectivação, Guattari assinala três séries dessas vozes: as vozes de poder, as vozes de saber e as vozes de auto-referência.3 Sendo esta última a mais singular e contingente mas também a mais rica em “universos de virtualidade”, é precisamente a que julgamos encontrar em Colapso: articulando figuras da finitude com a aventura que se joga em territórios heterogéneos, a obra estabelece a possibilidade de projectar formas de produção subjectivas sem pretensões universalistas e binárias. Subtraindo-se, entre vários exemplos, ao dualismo sujeito-objecto, matéria-espírito, eu-outro, interior-exterior, são as linhas de fuga e uma processualidade continuada, que conferem a esta instalação a vibrante energia da alteridade. Sabemos que é com o meio ambiente maquínico da produção de subjectividade numérica, informática, telemática que as vozes de auto-referência conquistam o seu pleno regime e nelas o capitalismo sustenta a sua expansão. Porém, é a multiplicação daquelas vozes que diariamente ele impede de se afirmarem. Ora, na sua dupla dimensão autopoiética e alopoiética, e não fazendo depender a máquina da techné, Silvestre Pestana conduz-nos a um recentramento da produção de subjectividade que, sem ignorar a possibilidade de ser controlada por mecanismos de saber-poder submetidos a figuras retóricas de sociabilização, também não se deixa abandonar a uma qualquer versão apocalíptica.
As Águas permanecem Vivas e os Neurónios ainda pulsam. Ao longe, um artista continua a caminhar. Anuncia a intencionalidade da acção poética. A força real do acontecimento.
- Victor Burgin — Returning to Benjamin. London, MACK, 2022, p. 29.
- Félix Guattari — Caosmose. Um novo paradigma estético. São Paulo, Editora 34, 1992, p. 116. Sobre a ecologia do virtual, ver pp 113-126.
- Félix Guattari — “Da produção de Subjetividade”, in Imagem Máquina: A Era das Tecnologias do Virtual. Org. André Parente, São Paulo, Editora 34, 1996, p. 180-181.