Entre a compressão do tempo e o futuro da memória,
o contributo da arte contemporânea no contexto de Zapping
For every image of the past that is not recognized by the present as one of its own concerns threatens to disappear irretrievably.
Walter Benjamin
Quem visita a exposição Zapping: Televisão como cultura e contracultura no Centro de Arte Oliva percebe rapidamente que, apesar da pequena duração dos excertos fílmicos mostrados, é pouco provável, em especial pela demanda que os conteúdos propõem à reflexão e à memória, conseguir absorver a totalidade de informação que a exposição comporta num tempo razoável de visita. Pareceu-me que escrever sobre este projecto pedia uma abordagem em jeito de interview-as-method1, e pedi à equipa curatorial para responder a algumas questões. Numa exposição em que a emissão discursiva se distribui pelo espaço, pareceu-me adequado recolher várias vozes para a formulação deste texto e gostaria de deixar um agradecimento em particular a Paula Parente Pinto pelo retorno recebido.
Há pelo menos dois ângulos de abordagem que tentarei desenvolver. Primeiro, abordar a questão do tempo, pensando o extraordinário compromisso da exposição em funcionar como espoletadora de memória e o seu potencial reflexivo sobre a necessidade de formar arquivos, de os cuidar e olhar criticamente, para a identidade de um povo e para o avanço da história. Em lateralidade, também, pensar o impacto do tempo nas formas de disseminação e consumo das imagens; a consequência da sua datação sobre a percepção; a questão da sua ubiquidade e passagem voraz a 'data' cuja circulação foge, progressivamente, ao controle individual. Em segundo lugar, incontornável, abordar a questão da cultura visual e a sua relação com a produção de arte contemporânea, relação passível de ser traçada nas respostas dos artistas visuais contemporâneos à televisão durante as décadas em que esta dominou a cultura de massas, através de obras em vídeo, instalações, performances, intervenções e programas televisivos produzidos como formas de resistência, apropriação ou mesmo paródia da televisão convencional.
Primeiro, um pouco de contexto. Da exposição, que mais deveria ser designada como projecto dada a duração e pormenor da pesquisa, diz Paula Parente Pinto, sua principal mentora e coordenadora:
Em 2023, depois do interesse demonstrado pela então diretora do Centro de Arte Oliva, Andreia Magalhães, comecei a elaborar a proposta da exposição ZAPPING e convidei três pessoas para prosseguir com a investigação e curadoria: o Joaquim Moreno tinha investigado e curado a exposição The University is Now on Air. Brodcasting Modern Architecture UK/ 1975-1982 no Canadian Center for Architecture (Monreal, Canadá) e na Garagem Sul do CCB (Lisboa) entre 2017-2018; a tese de Doutoramento da Alexandra Areia tinha incidido sobre alguns programas de televisão do Arquitecto Manuel Graça Dias para a RTP entre 1992 e 1996; a Vera Carmo estava a escrever uma tese sobre vídeo-arte e pensei que o interesse de alguns artistas pela televisão e a utilização de vídeo nos programas culturais na RTP lhe poderiam suscitar interesse.
Naturalmente que um projecto que reflectisse sobre os impactos sociais, culturais e artísticos da televisão teria que se servir do arquivo da televisão pública portuguesa, entretanto digitalizado e disponibilizado online2. Paula Parente Pinto retraça as dificuldades de chegar ao arquivos RTP antes da digitalização, a que tentava aceder desde 2001, passando pela exposição Que Horas são que Horas: Uma Galeria de Histórias na Galeria Municipal do Porto, dificultada pela pandemia Covid-19. A linha de tempo da investigação de Zapping é longa e dedicada, ancorando-se cada momento num continuum de pesquisa centrada "especificamente sobre os programas dedicados às artes visuais", até à proposta feita ao Centro de Arte Oliva em 2023 e concretizada em 2024 após os resultados da Rede Portuguesa de Arte Contemporânea. Paula Parente Pinto sublinha as dificuldades de concretizar datas e contratos na multitude de projectos e trabalhos paralelos a que a curadoria independente obriga. A verdade é que me parece que esta exposição mereceria um contexto institucional mais consubstanciado que permitisse a consolidação dos seus conteúdos e uma itinerância, por exemplo. A sua concretização assentou numa base de generosidade por vezes frágil que dificilmente permitiria o seu arquivo ou remontagem, já que, por exemplo, grande parte dos equipamentos em uso são privados, cedidos e recolhidos especificamente para a duração de Zapping.
Zapping: Televisão como cultura e contracultura aborda questões históricas, políticas e tecnológicas bastante densas, materializadas em cinco núcleos que foram estruturantes para a organização expositiva desde a sua origem — Fronteira, Resolução, Receção, Cor e Memória. Repartidos pela exposição, diz PPP que se organizam de forma "equivalente à própria divisão das salas do Centro de Arte Oliva". O espaço expositivo do Centro é, por isso determinante na espacialização do projecto mas, como acima refiro, seria interessante perceber como esta exposição poderia circular por outros espaços que a disseminassem e reconfigurassem, não obstante as suas iterações geográficas, no CAAA em Guimarães e em Elvas (MACE - Paiol) de que falarei mais à frente.
A exposição apresenta a radiodifusão como uma “paisagem invisível” que ultrapassa fronteiras físicas, Zapping contribui para repensar o papel dos media na organização do mundo contemporâneo, debatendo a relação entre televisão e poder político, bem demonstrada tanto como instrumento de propaganda, por exemplo durante o Estado Novo, como como ferramenta de emancipação, sobretudo após o 25 de Abril, uma dualidade que a instrumentalização dos media bem reconhece no progressivo controle que o século XXI viria a normalizar. Neste sentido as questões da memória social são absolutamente cruciais como mote de reflexão em Zapping. Interroguei-me frequentemente sobre a forma como a memória dissolve a nossa relação com a experiência passada, numa espécie de contradição intrínseca que determina que, apesar do caráter experiencial de recordar, é a própria continuidade vivencial da experiência que se encarrega de alterar a memória, ou mesmo de a apagar por completo. E é por isso que precisamos dos arquivos e da sua crítica activa, e a eles regressar com frequência. É Walter Benjamin que diz que "(o) passado só pode ser apreendido como uma imagem que surge no instante em que é reconhecida e não mais voltar a ser vista"3, porque é nesse reconhecimento, e apenas na medida em que este encontra uma reververação significante, que se concretiza o avanço da história. E bem sabemos que consequências podem advir do não reconhecimento das imagens da história!
Sabemos como a introdução do vídeo e, mais tarde, do digital, alterou profundamente a noção de temporalidade. A passagem de uma experiência síncrona para uma memória “à la carte” quando a memória televisiva se tornou um “eterno presente”, implica a contradição entre uma espécie de libertação do tempo, que autonomiza o acesso à história em relação à cronologia, mas que também, pelo contrário, implica a perda de profundidade histórica. Não é demais sublinhar esta contradição. A questão da memória, último núcleo da exposição, é, do meu ponto de vista, central na reflexão que Zapping suscita. Com a passagem da emissão em direto para a possibilidade de gravação e arquivo dominamos o tempo, porque podemos sempre regressar ao que já vimos, mas o que vemos de novo é frequentemente visto sem contexto, como uma paragem absorta em que a história realmente não avança. A exposição propõe uma importante reflexão sobre os modos como podemos pensar memória e uma ideia de comunidade neste contexto assíncrono e profundamente controlado em que a vivência não se percepciona ainda como história e a experiência ocorre desconectada de um tempo sequencial. Este é um problema que já Giorgio Agamben articula quando reflecte nos anos 70 sobre a ideia da experiência do tempo. Ele diz:
Toda a concepção de história é invariavelmente acompanhada por uma certa experiência do tempo que lhe está implícita, que a condiciona e, por isso, necessita de ser elucidada. Da mesma forma, toda a cultura é, antes de mais, uma experiência particular do tempo, e nenhuma nova cultura é possível sem uma alteração nessa experiência. A tarefa original de uma revolução genuína, portanto, nunca é meramente “mudar o mundo”, mas também — e sobretudo — “mudar o tempo".4
Se é crucial que a informação seja disseminada e chegue às pessoas, é também importante perceber que o controle dos media é progressivamente mais agressivo e centralizado em poderosas plataformas digitais dominadas por gigantes do capital. Os mecanismos invisíveis movidos a algoritmos geram uma dualidade nos meios de comunicação entre as formas de instrumentalização e controle, por um lado, e, por outro, a urgência de dar visibilidade aos processos de dominação, que o risco de minar e controlar globalmente sistemas políticos democráticos é cada dia mais real. No entanto, é importante ser dito que reflectir sobre o impacto dos media na vida contemporânea funciona como uma derivação da exposição e não como um dos seus objectivos. PPP diz:
"(O) papel dos media na organização do mundo presente não é o tema da exposição, e não partimos do ponto de vista dos estudos de media. A exposição propõe um determinado espaço-tempo de reflexão, não procurando dar respostas sobre os consumos televisivos e o desenvolvimento das políticas contemporâneas. Mas penso que as visitas guiadas realizadas a diferentes gerações de telespectadores proporcionaram algum pensamento sobre os diferentes conteúdos televisivos, a sua relação com a tecnologia ou as transformações no consumo público-privado".
A equipa curatorial demarca-se naturalmente de objectivos sociológicos, mas a proposta permitiu evidenciar uma construção retórica que corresponde a mentalidades vigentes na sociedade, e é incontornável pensar que a exposição se abre a uma análise sociológica que seria interessante expandir para uma publicação ou catálogo, reforçando o impacto da mediação de públicos ao longo da exposição.
A verdade é que, apesar da fragmentação de públicos resultante de formas de consumo cada vez mais individualizadas, transitamos facilmente da condição de espectadores produtores de significado para uma condição de unidades quantificáveis de uma audiência mercantilizada. A exposição ajuda a compreender como a televisão começou por constituir uma experiência colectiva e pública (seguramente a favor de uma ideia de público), evoluindo posteriormente para uma prática doméstica e individual. Neste sentido a exposição deixa em aberto, como espaço crítico em potência, reflexões sobre as consequências culturais e sociais mais significativas dessa transformação e os modos como essa mudança afectou as relações sociais e os processos de construção da memória colectiva.
No contraste entre o carácter profundamente manipulador e limitador do meio televisivo, e embora sem idealizar, parece existir ao longo da exposição uma certa nostalgia em relação à televisão enquanto experiência colectiva, nostalgia que os equipamentos analógicos e o preto e branco de grande parte dos excertos videográficos sublinha. Por um lado, a exposição permite questionar de que modo poderemos trazer ao presente as experiências a que os arquivos se referem se a nossa percepção se alterou entretanto profundamente - o véu sobre as imagens que chegam do passado altera o seu impacto. Por outro lado, a exposição permite indagar de que formas poderia a noção de um espaço público partilhado ser recuperada, e por qual outro meio de difusão com função equivalente. Diz PPP:
Não somos sociólogos, nem especialistas em tecnologia e media, mas quisemos evidenciar uma história da programação televisiva, que começou pela transmissão de vozes de figuras maioritariamente masculinas, com capacidades retóricas ou poder político, para uma experiência que foi fundamental na construção da democracia e que se foi especializando, construindo discursos e públicos específicos, até à entrada dos canais comerciais privados, que em Portugal só acontece nos anos 90.
Embora a dimensão marcadamente política e histórica apresente momentos cruciais da história nacional, o projecto expositivo não se circunscreve a Portugal, fazendo referências a "momentos televisivos globais" como o assassinato de J.F. Kennedy em 1963 ou a alunagem em 1969. No entanto, importa referir que é através da presença da arte que a exposição realmente estabelece um diálogo internacional, diálogo que se desenvolve ancorado em exemplos da incursão pelo meio televisivo por artistas nacionais, em particular na série Os artistas por eles próprios, que, embora demonstrativa da hegemonia masculina do meio e por consequência da arte e da cultura no meio televisivo, denota também a forma como, em particular nos anos 70, foi permitido aos artistas inserirem-se na produção televisiva. A série demonstra como os artistas utilizaram o meio para disseminar informação sobre exposições, entrevistas, temas ligados às instituições e ao mercado, e também discutir questões que lhes eram pertinentes, como o Aproximações à Pintura, de Rocha de Sousa, ou, na falta do "mítico" Obrigatório Não Ver de Ana Hatherly entretanto desaparecido, a cópia única da artista do programa dedicado a Emília Nadal. Ainda dos anos 70, a exposição apresenta excertos do programa satírico do poeta visual Alberto Pimenta realizado com Jorge Listopad, A Arte de Ser Português, para além de momentos do TV Artes da responsabilidade de Alexandre Melo nos anos 90 e mais recentemente (2013) do programa de Manuel João Vieira sobre o seu pai João Vieira. Estes exemplos indicam maioritariamente uma utilização do meio televisivo como forma, seguramente de comunicação, embora procurando subverter o meio nos seus conteúdos afastando-os dos seus contornos marcadamente populares e de mensagens acessíveis. Outros utilizam-no como medium. Veja-se a coincidência entre meio e medium que virá a permitir diferentes formas de subversão, agora sim, dos modos de produção da arte em particular a partir dos anos 70.
Neste sentido, tal como Francesco Spampinato refere, poderemos distinguir várias gerações de artistas. Vale a pena transcrever a citação completa:
(...) aqueles que surgiram na década de 1960, associados a movimentos artísticos como a Pop Art, o Fluxus e o Happening — cujo trabalho explorou as implicações da televisão se tornar uma presença ubíqua em todos os lares; os que surgiram no final da década de 1960 e na década de 1970, associados a práticas de vídeo e de performance, bem como à contracultura e à Arte Conceptual, que empregaram o vídeo como espelho — quer em termos psicanalíticos, quer sociais; os que surgiram na década de 1980, cujo trabalho visava desconstruir a representação mediática em consonância com as teorias pós-modernistas; os que surgiram na década de 1990, que reagiram à convergência simultânea da arte e do entretenimento, da política e do espetáculo; os que chegaram na década de 2000, uma era em que, através dos reality shows e da internet, qualquer pessoa podia potencialmente tornar-se uma personalidade mediática; E, finalmente, aqueles que surgiram na década de 2010, cujo trabalho reflecte sobre como os meios antigos, como a televisão, se vaporizaram definitivamente pelas vias eletrónicas do ciberespaço (pedindo emprestado um vocabulário retrofuturista da época em que os computadores pessoais entraram nas nossas casas, nomeadamente na década de 1980).5
Podemos encontrar exemplos destas variações pela exposição. PPP refere que no processo de construir o projecto expositivo fazia sentido ir mais além da relação entre programas televisivos e o trabalho de artistas "para, sobre e com a televisão, complexificando o tema da televisão como cultura e contracultura". O facto do CAO ser um centro de arte contemporânea que alberga duas singulares colecções de arte e que produz regularmente exposições de arte contemporânea viria a provocar, segundo PPP, uma outra "chave para a investigação".
A obra TV as a fire place (1968-69) do artista Jan Dibbets abre a exposição, segundo a curadora, como "referência importante para a conceptualização da (própria) exposição". A obra foi feita em específico para televisão funcionando como janela que replica e enquadra a realidade circundante procurando deslocar a percepção do espectador do seu habitus.6 Colocada perante imagens de arquivo da primeira emissão experimental da RTP, reforça tal deslocamento: a televisão produzida e experienciada em direto que entra no espaço doméstico, esmagando o tempo e o espaço. Este diálogo entre uma obra conceptual satírica do meio televisivo e a promessa, tardia em Portugal, de levar o mundo até ao lar, reconfigura, pelas palavras de PPP "(...) as fronteiras entre o domínio público e privado, entre o real e a ficção, entre a passividade e a actividade, entre o passado e o presente."
A exposição reúne artistas de diferentes gerações, como Nam June Paik, Martha Rosler ou Wolf Vostell, para além de nomes portugueses como Ângela Ferreira ou Alexandre Estrela, propondo um diálogo entre televisão e práticas artísticas, e abordagens contraculturais. Mas a curadora assinala as limitações de natureza económica e institucional:
Gostaríamos de ter tido exemplos de obras históricas realizadas para televisão, como as coletâneas de encomendas de Gerry Schum, como Land Art (1968-69), transmitida pela Sender Freies Berlin /ARD em 1969, ou a coletânea de filmes Identifications transmitida na SWF de Baden-Baden em 1970, ainda antes da utilização do vídeo. Mas acabámos por sintetizar ao máximo as participações internacionais, apenas para marcar temporal e historicamente alguns exemplos como o incontornável Nam June Paik, tendo em conta as coleções mais acessíveis e o facto de estarmos a trabalhar exclusivamente o contexto da RTP.
Muitos dos artistas presentes exploram ou criticam a televisão enquanto meio, mas fica no ar a questão sobre até que ponto a arte o consegue subverter ou é inevitavelmente absorvida pela própria lógica mediática que questiona. Podemos interrogar se a arte subverte ou reutiliza os códigos da televisão. Ou como é que a utilização destes códigos é reconfigurada no contexto tecnológico actual nomeadamente na relação entre tecnologia e perceção, pensando a questão da evolução da sensibilidade à alteração da resolução das imagens ou à questão da percepção da cor. Referi atrás como essas mudanças técnicas influenciam a forma como entendemos a realidade, interessaria pensar como pode a arte influenciar ou aproveitar esse entendimento, ou vice versa como essas alterações influem os modos de produção artísticos. Percebemos como, no contexto actual em que a televisão se funde com a internet e os ecrãs móveis, distribuindo-se por múltiplos dispositivos, não faz já sentido falar de “televisão” como um meio autónomo, mas o que parece importante referir a partir da exposição é que as diferentes formas do televisivo aparecem esbatidas perante a nossa percepção. Crucialmente para o meu argumento é que, pelo contrário, muitas das propostas dos artistas mantêm relevância enquanto atravessam o tempo. Há, por isso, um confronto entre os sistemas de valoração da memória histórica e o sistema que determina a relevância da prática dos artistas, e parecer-me-ia crucial analisar criticamente os pontos de contacto entre os problemas da recepção, a que os estudos culturais em larga medida procuraram dar respostas, e as formas de acesso das dimensões poéticas ou conceptuais da arte que suberte o meio televisivo ou os próprios media. Parece-me que a própria curadoria, e não apenas a mediação de públicos, coloca esta questão, ainda que os objectivos curatoriais declarados o não queiram fazer.
O conjunto de obras mostradas é variado. Há obras cedidas por colecções e há três encomendas feitas especificamente para a exposição aos artistas Nuno Nunes-Ferreira, Mariana Vilanova e Ângela Ferreira. A esta variação entre obras existentes e obras novas, corresponde também uma dispersão geográfica, à qual se juntaram actividades paralelas, como conversas e encontros de que se destaca o convite feito pela equipa curatorial a Antoni Muntadas, para dar a ver no gnration (Braga) três obras históricas: Confrontations TV (1973/74) La televisión (1980) e TVE: Primer Intento (1989). Pese embora as diferenças entre estas iterações e as óbvias dificuldades de as comunicar, o alcance geográfico é significativo, entre S. João da Madeira, Braga, Guimarães e Elvas. Do ponto de vista dos públicos este é talvez um aspecto do projecto que mereceria continuidade e análise.
Termino citando PPP a partir da nossa conversa:
Se a análise, mesmo que superficial, da transformação dos programas televisivos ao longo do tempo, permite inúmeras interpretações sobre os modos como nos relacionamos com o mundo, a arte responde singularmente a todas essas possíveis interpretações. Cada obra permitiria uma reflexão a fazer sobre a televisão.
Então, na compressão temporal em que se joga o futuro da memória, podemos perguntar que relevância tem hoje revisitar a televisão enquanto meio artístico, ou mesmo político? Estamos seguramente perante uma nova ecologia mediática e é inevitável perguntar que meios se lhe substituem quando o próprio futuro das imagens, a sua genealogia e heriditariedade está definitivamente em causa pelo devir de orfandade visual provocada por artifícios vários. Se a curadoria pode fazer perdurar o acesso impulsionando a responsabilidade colectiva na garantia da liberdade e da democracia, aos artistas que cabe reter do tempo a transmissão da memória, ainda que cada obra o não pretenda revelar ou declarar.
Lista de artistas nacionais e internacionais integrados na exposição: Alexandre Estrela, Ângela Ferreira, Ant Farm, Antoni Muntadas, António Barros, António Cerveira Pinto, António Olaio, Ção Pestana, Cristina Mateus, Daniel Barroca, Dara Birnbaum, David Askevold, E. M. de Melo e Castro, Emília Nadal, Helena Almeida, Jan Dibbets, José Carneiro, Mariana Vilanova, Martha Rosler, Nam June Paik, Nuno Nunes-Ferreira, Pedro Barateiro, Pedro Cabral Santo, Priscila Fernandes, Rosa Baptista, Rui Toscano, Silvestre Pestana, Wolf Vostell.
A autora escreve segundo o antigo acordo ortográfico.
- Naturalmente sem qualquer pretensão de competir com as famosas duas mil e quatrocentas horas de entrevistas que Hans Ulrich Obrist realizou.
- Arquivo consultável em https://arquivos.rtp.pt/. Para mais informação sobre a sua formação, ver por exemplo: PAR – PORTAL ARQUIVO RTP: A nossa memória coletiva à distância de um click entre 2015 e 2017. https://www.compete2020.gov.pt/detalhe/detalhe/Proj12440-RTP. (Consultado em junho 2026).
- "The past can be seized only as an image which flashes up at the instant when it can be recognized and is never seen again". Walter Benjamin, "Theses on the Philosophy of History, V" in Hannah Arendt
- "Every conception of history is invariably accompanied by a certain experience of time that is implicit to it, conditions it, and thereby has to be elucidated. Similarly, every culture is first and foremost a particular experience of time, and no new culture is possible without an alteration in this experience. The original task of a genuine revolution, therefore, is never merely to ‘change the world’, but also – and above all – to ‘change time". Giorgio Agamben, Infancy and History: On the Destruction of Experience, Trad. Liz Heron, London Verso, (1978) 1993, p.91. Tradução livre da autora.
- Francesco Spampinato, Art vs. TV, A Brief History of Contemporary Artists’ Responses to Television, Bloomsbury: NY, Londomn, Dublin, 2022, p.8. Tradução livre da autora.
- O termo é cunhado por Bourdieu e possibilita compreender como os comportamentos, pensamentos e gostos individuais são moldados pelas condições sociais e culturais dominantes. Apesar da sua relevância para os assuntos que aqui trato, o espaço deste texto não o permite aprofundar.