Três mulheres — uma idosa, uma adulta e uma adolescente — unidas por um fio que passa pelas suas bocas. Uma imagem poderosa e emblemática da obra de Anna Maria Maiolino, que serve de ponto de partida para Terra Poética, exposição no MAAT com curadoria de João Pinharanda e Sergio Mah, e a primeira dedicada à artista italo-brasileira numa instituição portuguesa.
Por um fio (1976) é o título desta fotografia a preto e branco, onde a própria artista, na altura com trinta e quatro anos, se senta ao centro, ladeada pela sua mãe (à sua direita) e pela sua filha (à sua esquerda). Enquadradas da cintura para cima, as mulheres olham diretamente para a câmara, mas parecem partilhar um diálogo profundo — sem palavras, quase visceral — sugerido pelo fio que as une. Qual cordão umbilical, torna visível a intimidade da conexão entre elas. O fio traça uma linha matricial, uma genealogia horizontal.
Com a sua rica polissemia, a imagem oferece uma introdução lúcida e condensada aos vários temas que atravessam a prática de Maiolino — tempo, corpo, a linha e o fio, memória, a simplicidade do gesto, a esfera doméstica —, que se desenrolam por uma exposição que abarca cinco décadas, de 1975 a 2025.
Nesta iconografia moderna da alegoria das três idades da vida — ou mais precisamente, da mulher —, o conceito de tempo é destilado numa única fotografia que contém passado, presente e futuro em três corpos femininos atravessados pela linha do tempo. Distintos, mas inseparáveis, formam um mesmo organismo vivo, como uma árvore — mais do que uma metáfora genealógica — cuja presença física revela simultaneamente a sua história e o seu devir: raízes, tronco e folhagem, sustentados pela mesma seiva circulante.
Não é coincidência falar aqui de raízes. Nascida em 1942 em Scalea, uma pequena aldeia na Calabria, Itália, Maiolino viveu a convulsão da II Guerra Mundial antes de emigrar com a sua família para a Venezuela em 1954. Estabelecendo-se no Brasil em 1960, firmou as suas raízes mais profundas no Rio de Janeiro, com um curto interlúdio em Nova Iorque entre 1968 e 1971.
Refletindo sobre a sua chegada ao Brasil, em conversa com Helena Tatay, a artista recorda: “Cheguei em 1960. Tinha dezoito anos. Não foi uma decisão minha — os meus pais decidiram mudar-se para o Rio de Janeiro, e lá fui eu, de novo uma imigrante, sem falar português. Senti-me como se em areias movediças, permanentemente ansiosa; o que me manteve firme foi a procura obstinada por uma linguagem, a minha obsessão de me tornar artista”1. Com os seus dezoito anos numa terra estranha, Maiolino encontrou nas artes visuais a sua própria linguagem — uma capaz de transcender as barreiras impostas por diferentes línguas.
Por um fio esquissa um mapa de migrações imaginado: uma mãe do Equador, uma filha de Itália e uma neta do Brasil. O fio que corre pelas suas bocas é também o de Ariadne: dentro da experiência labiríntica da migração, o fio traz de volta ao eu, ao corpo. Traça tanto a ancestralidade como a descendência, reafirmando origens e fortalecendo laços de família.
O fio é também um elemento formal, como a artista denota em conversa com Helen Molesworth: “O fio é uma linha. Kandinsky falou muito eloquentemente sobre a linha. Tal como na música, os artistas plásticos usam o segmento, a continuidade, o ponto. Para mim, é uma questão de ambivalência espacial. Por exemplo, em Por um Fio, falo da continuidade do tempo, que é também a continuidade através das gerações. Existo porque a minha mãe existe; a minha filha Verônica existe porque eu existo. Isto remete para a continuidade da humanidade, o infinito. Cada um de nós é um ponto ao longo da linha.”2
A expressão idiomática contida no título, Por um fio, acaba por evocar a fragilidade da vida em si mesma. A fotografia pertence à série Fotopoemação, iniciada em 1973, na qual uma ação performativa levada a cabo em frente à câmara traz ao de cima um poema visual cristalizado numa única e potente imagem. O título é em si um portmanteau, unindo fotografia, poema e ação num todo inseparável. Ativa no Brasil durante a ditadura militar, Maiolino voltou várias vezes ao tema da boca e das ações relacionadas com comer, falar e silêncio na série Fotopoemação. Estas obras podem ser lidas como metáforas para a comunicação obstruída e consequente necessidade de inventar formas alternativas de linguagem quando a fala é censurada — uma urgência que se torna ainda mais aguda quando a voz em questão é a de uma mulher.
Na noite da inauguração da exposição no MAAT, a artista apresentou uma versão atualizada da sua célebre performance Entrevidas, primeiramente apresentada em 1981 num espaço público do Rio de Janeiro. Os participantes eram convidados a atravessar o espaço por entre centenas de ovos espalhados pelo chão. Entrevidas foi concebida no momento em que a ditadura militar brasileira, no poder há mais de quinze anos, começara a perder o seu aperto na sociedade, embora um processo de democratização genuíno não tivesse ainda começado. Esta condição de incerteza e precariedade é materializada na tensão gerada pelo campo de ovos, uma espécie de campo minado cujo simbolismo é deliberadamente ambivalente. Os ovos evocam a fragilidade da vida, simultaneamente corporificando uma sensação de ameaça e questionando a atmosfera de perigo que permeava a vida quotidiana sob a ditadura.
Um manifesto contra o autoritarismo e a favor da abertura democrática no Brasil, esta performance foi reencenada no MAAT com o título KA e com a introdução de um novo elemento, que adiciona uma nova camada de interpretação à luz da insegurança contemporânea gerada pelas guerras em curso e crescentes ameaças à estabilidade global. O título remete para o hieróglifo egípcio ka, um símbolo da força vital representado por uma figura de braços levantados. No caminho traçado entre os ovos, Maiolino incorpora este gesto das mãos erguidas. Como explica a artista, este não é um gesto de rendição, mas antes um apelo poético e político à paz e ao desarmamento — e que renova o compromisso ético que sempre animou a sua prática.
Esta dimensão é logo sugerida pelo título da exposição, Terra Poética. A terra é barro, material primordial do qual a humanidade é esculpida; é matéria que, por gestos e ações, se torna linguagem poética. É um poema sem palavras faladas na sua totalidade, uma linguagem na qual a ética pode ganhar forma.
A exposição, que ocupa a galeria oval do MAAT, está dividida em duas seções. Obras em papel e peças predominantemente bidimensionais ocupam as paredes da rampa, enquanto esculturas pontuam a arena oval abaixo. Criando uma coreografia de presenças e ausências, sólidos e vazios, os visitantes são convidados a descobrirem o seu próprio caminho, o seu próprio fio — tal como quando navegaram o labirinto de ovos na performance que ocupou o exterior do museu.
Ao longo da rampa, os trabalhos em papel desdobram-se em esquissos de lápis e tinta, uma constelação de notas visuais acumuladas pela artista sob o nome de Tempestade de Ideias (1991-2017). A sua organização não dependeu de uma lógica restrita ou uma ordem cronológica, mas procurou enfatizar a sua natureza espontânea e a imediatez da página anotada. Por vezes, as formas desenhadas relacionam-se diretamente com as esculturas expostas, como os rolinhos; outras vezes parecem materializar um fluxo de pensamento em marcas e gestos. Os desenhos são atravessados por temas recorrentes: a linha sinuosa, a espiral, a oval, a corrente, o círculo, a árvore, a forma anelada; configurações orgânicas e biomórficas, estratificações geológicas, constelações de símbolos, gatafunhos escritos, e investigações sobre a relação entre vazio e cheio.
Aspirando a uma presença espacial, vários trabalhos da série Desenho objeto interrompem estas “páginas” visuais. Por exemplo, em Espiral (1975) a superfície do papel é perfurada e cortada, enquanto as obras da série Nova paisagem negoceiam a tensão entre bi- e tridimensionalidade. É assim (1989) é disso exemplo: uma composição a óleo, gesso e cimento moldada pela artista numa forma amorfa. Vestígios dos seus dedos estão impressos no material, transformando-o numa paisagem viva que recorda as densas e cumulativas florestas orgânicas de Max Ernst. Obras mais recentes como Linha e ponto (2013), compostas por elementos cerâmicos, inscrevem-se no espaço como uma forma de pontuação ou uma mensagem escrita em código Morse — embora livres da rigidez do código e da sua estrutura linear.
A Tempestade de Ideias, que cerca fisicamente a arena e introduz conceptualmente as obras escultóricas expostas, oferece pistas em vez de explicações. Transmite formas, signos e processos que reaparecem nas esculturas sem nunca as descrever na totalidade. Na prática escultórica de Maiolino, a forma, o gesto e a matéria emergem em conjunto; coexistem e moldam-se mutuamente, sem nenhuma tomar precedência sobre as outras. As esculturas do ciclo Hilomorfos tornam este princípio explícito no próprio título, que referencia o conceito aristotélico do hilomorfismo, segundo o qual cada ser físico nasce da união entre matéria e forma.
Estas esculturas são entidades orgânicas amorfas, feitas de gesso ou de metal fundido, este último suportado por esguias estruturas metálicas verticais. O contraste entre a aparente suavidade corpórea das formas e a geometria rígida dos seus suportes gera seres híbridos, suspensos entre presenças totémicas e figuras humanas. Em ambos os casos, Maiolino parece desinteressada na representação em si, permitindo que as formas surjam do ato de moldar a matéria, tornando a própria transformação o verdadeiro tema do trabalho.
Nas obras em cimento Untitled, parte das séries Da Terra – Errância Poéticas (2014–18) e Entre o Dentro e o Fora (2013), a artista escava o bloco de material, produzindo a forma pela subtração e não pela acumulação e revertendo o gesto de amassar e moldar. A matéria organiza-se sozinha em redor da coreografia vazia da ação da artista. O material aparece quase desfigurado, sem forma — sem surpresa, o nome de Georges Bataille é recorrente nas discussões sobre a prática de Maiolino. Estas obras revelam uma anatomia secreta da matéria, estabelecendo uma correspondência evocativa entre as entranhas da terra e as do corpo humano.
O trabalho escultórico mais impositivo da exposição faz parte da série Terra modelada: esculturas expansivas em barro não cozido, moldadas in situ, as maiores que a artista já produziu. Compostas por rolinhos, pequenos cilindros de barro feitos à mão, num gesto repetitivo: rolar o material entre as palmas da mão até que este assuma uma forma elementar, semelhante a um fio, uma minhoca ou um esparguete. O gesto remete para o amassar do pão ou para a feitura da massa, uma memória que ressurge da infância da artista e se mantém profundamente conectada à esfera doméstica, ao trabalho da mulher e aos seus rituais ancestrais.
Cada rolinho preserva vestígios do contato físico e torna-se testemunha da labuta, um registo do corpo que o modelou. Pela multiplicação e agregação, Maiolino constrói esculturas que lembram organismos vivos, redes sempre crescentes, criaturas marinhas ou vilos intestinais. Destinado a secar e endurecer com o tempo, o barro altera-se na duração da exposição. As esculturas continuam a transformar-se, secando, partindo e assentando, muitas vezes desenvolvendo uma delicada rede de fissuras nas suas superfícies. Desta forma, o processo de criação torna-se uma transformação constante. O trabalho mantém-se vulnerável, e é precisamente esta vulnerabilidade que o torna profundamente humano.
Através de materiais naturais, formas essenciais e restrições cromáticas, gestos manuais e rituais ancestrais, Maiolino articula os temas centrais da sua poética: memória, transformação, e processos vitais como nutrição, digestão e expulsão; a relação entre a experiência individual e a existência coletiva. Pois da multiplicação de elementos simples emergem estruturas complexas; de um gesto quotidiano, da ação humilde performada pela mão, advém uma instalação de ressonância universal.
Este é o “léxico familiar” em que a prática de Maiolino está enraizada e que permeia a sua Terra Poética. Um léxico de resiliência: o gesto repetido, modesto mas duradouro; a habilidade de continuar a viver, a criar e a devir, apesar da deslocação e das hostis condições políticas e culturais.
Tradução EN-PT
Marta Espiridião
- Conversa entre Anna Maria Maiolino e Helena Tatay. Em Anna Maria Maiolino (catálogo de exposição). Barcelona: Fundació Antoni Tàpies – CGAC / Malmö Konsthall, 2010, p. 53.
- Helen Molesworth, Anna Maria Maiolino. Em Electra, n. 32, Primavera 2026, p. 51. Disponível em https://electramagazine.fundacaoedp.pt/editions/edicao-32/anna-maria-maiolino