A escultura de June Crespo é pura intensidade, extramente objetiva. Concreta e imaterial, construtiva e orgânica, física e invisível, não tem terreno estável e é a partir dessa ambiguidade semântica e sensitiva que a sua força radia. A cada exposição, June Crespo testa uma possibilidade de corpo, mas raramente nos dá uma imagem nítida desse corpo. Se nos trabalhos iniciais, ainda encontrávamos reminiscências de alguma figuração humana, como manequins ou capas de revistas com retratos e corpos femininos, muitas vezes fragmentados, hoje os processos escultóricos tendem a ser mais abstratos. A exposição individual Más Graves, em apresentação na Kunsthalle Lissabon, é um excelente exemplo desta reorientação, dando um passo em frente. Não apenas concorre para a abstratização do corpo de que falamos, como a radicaliza de forma sintética e “aguda”.
Este é um projeto que recusa, desde logo, a escultura tradicional de sentido vertical, análoga à verticalidade do corpo humano. Nada se ergue ou se sustenta do chão. Como noutros trabalhos anteriores, também aqui as instalações escultóricas, três no total, inéditas, migraram para as duas paredes principais da galeria, adotando o sentido longitudinal que estas oferecem. MÁS GRAVES, é constituída por três conjuntos duplos de lonas de camiões pesados, esticadas horizontalmente e cravadas à parede com ilhoses metálicas. A opacidade do tecido é interrompida em vários pontos por aberturas circulares que nos deixam ver o que está tapado: tubos de ventilação, também eles dispostos na parede, seguindo a orientação horizontal do tecido. Já na parede oposta, Crespo cerrou quatro perfurações oculares, espaçadas entre si, em linha. Na primeira e última abertura, acoplou um par de colunas para a peça de som hyle, concebida com Estanis Comella, a partir dos sons captados no interior de uma conduta do seu atelier, enquanto as aberturas centrais permitiram instalar no interior da parede duas formações extraídas de moldes sanitários, intituladas No osso (occipital) (I).
Para além desta vontade de trazer a escultura para o plano horizontal, a exposição também revela uma forte ligação à arquitetura que ajuda a desantropomorfizar a escala e a forma dos trabalhos. A Crespo, tanto interessa a parte visível, como as componentes infraestruturais arquitetónicas. As paredes são usadas para suster, tensionar ou conter as esculturas, as tubagens para conferir volume e dobras às lonas ou garantir qualidades acústicas específicas. Tudo parece querer raspar a subjetividade do processo escultórico e afastá-la da dimensão sensitiva: a linguagem construtiva das peças, a preferência por materiais fabricados em série, as suas qualidades físicas, a sua funcionalidade.
No entanto, não param de acontecer reversibilidades. O que é oculto expõe-se, o que veda mostra, o funcional traduz-se em sensualidade, a opacidade em transparência, o que não tem matéria palpável sente-se como presença física e o inanimado como vitalidade. É então que as coisas transmutam e o orgânico passa a contaminar o industrial. As lonas de camião dobram-se, ondulam e reaparecem como tecido epidérmico que resguarda tubagens. As tubagens passam a valer como vasos sanguíneos, reverberando o vermelho-vivo de uma das lonas. As formas sanitárias das esculturas encasuladas na parede assemelham-se a articulações ósseas, as articulações ósseas parecem canais vaginais humedecidos e a peça sonora projeta-se no espaço, vinda do interior da parede, como um organismo estranho que expande, contrai, ondula, engole, expele, suga, exala, arranha, corta, grita, balbucia, envolve, dilata, estreita, respira e circula.
Pela primeira vez, June Crespo decidiu trabalhar com som e o resultado não podia ser mais consequente com o seu método abstrato, onde o construtivismo se cruza, não sem surpresa, com o biomorfismo de herança surrealista. Quando em 1930, Hans/Jean Arp, Barbara Hepworth ou Henry Moore optaram por vitalizar a abstração, a escultura encontrou no biomorfismo um novo caminho que supunha justamente o desenvolvimento de formas orgânicas (humanas, animais, vegetais), baseadas num entendimento concreto das propriedades físicas dos materiais. Importava declarar a dureza e o brilho do mármore, as nervuras da madeira, a qualidade metálica e alisada do bronze, com recurso a uma análise estrutural da matéria e, ao mesmo tempo, extrair do seu núcleo volumétrico, opaco e inorgânico, uma pulsação análoga ao princípio vital atuante nos organismos.
Este desejo de dotar o material de uma sensação de vida regressa muito claramente na escultura de June Crespo, porém com diferenças assinaláveis que esclarecem a atualidade do seu trabalho.
Para Crespo, por exemplo, a escultura já não radica de uma massa central nevrálgica, concentrada e atomizada, mas de uma conceção agregativa, que a prática da instalação favorece. Não é por acaso, que as peças desta exposição, tal como os seus elementos constituintes, adquirem o estatuto de parcialidades em conexão. Literalizam a mecânica do sonho e revelam que a apreensão das coisas na totalidade é uma miragem. Nessa medida, a ideia de corpo que ressalta só pode mesmo coincidir com a mais plena abstração achada no ponto de união que “enrosca”, entre si, ilhoses, tubos de metal, paredes de mdf, orifícios metálicos, sons das condutas, lonas em poliéster e resinas.
Por sua vez, não podemos dizer que a escultura desta artista seja amável, quanto à de Moore ou Hepworth, nem que se dirige a uma forma cândida e primordial de vida, ancorada no feminino/maternidade. O aspeto industrial e reciclável dos materiais com que trabalha, combinado com a força sonora de hyle não o permitem, promovendo justamente uma sensualidade dura e crua. Por outro lado, a sensibilidade feminista de Crespo, mais devedora aqui de Louise Bourgeois ou Eva Hesse, vem situar o feminino numa ideia de corpo bem mais ambíguo, acategorial. Não nos sendo possível sequer imaginar os seus contornos, a projeção que vamos construindo, através de associações, visuais, táteis e auditivas, é a de um corpo sem nome, protegido por uma pele em lona resistente, que sabe integrar, mas também expulsar. Liberto do poder logocêntrico, parece ter achado o ritmo, a elasticidade e o funcionamento na vascularidade uterinovaginal. E que grande dispositivo de vida! Embora infraestrutural e invisível, goza de uma força multidimensional.
June Crespo
Kunsthalle Lissabon