Ir para o conteúdo

Contemporânea

  • Projetos

  • Sobre

  • pt / en

    Inês Mendes Leal:
    Reaching for Fata Morgana

    Marta Espiridião

    por Marta Espiridião
    Quando o horizonte se dilui na miragem:
    Reaching for Fata Morgana, de Inês Mendes Leal


    Parece-me necessário começar com um disclaimer, um aviso à navegação: este texto é um pouco diferente de outros que escrevi anteriormente sobre certas exposições e percursos das suas artistas. E é-o pela inversão da ordem “natural” da crítica expositiva, segundo a qual normalmente vejo a exposição, investigo a artista, falo com ela, escrevo. Desta vez, por motivos que aqui não interessam, tudo se desenrolou ao contrário: uma década de conhecimento mútuo facilitou uma chamada antes das férias, alguns dias para investigar os conceitos e temas que trocámos, e mesmo no final, a visita à Galeria da Boavista. Portanto, começo por ver a exposição pelos olhos (e pelas palavras) de Inês, e termino a ver a exposição com os meus — sem me esquecer, como me indicou, para pedir que subam o som das peças.

    Após alguns anos de estudos em Belas Artes, onde nos cruzámos, Inês Mendes Leal dedicou-se temporariamente à fotografia, da qual eventualmente desistiu por, segundo a própria, rapidamente se ter aborrecido com a sua bidimensionalidade. Havia uma vontade de procurar as possíveis traduções do movimento invisível dos elementos e da natureza, tão bem expressa numa antiga série de fotografias onde a luz do sol numa lupa queima a imagem fotográfica; mas foi no vento que Inês Mendes Leal encontrou a linguagem para dizer o indizível. Nos últimos anos tem sido o vento, na sua invisibilidade e omnipresença, na sua força imparável, que a inspira e orienta a sua expressão artística.

    Do vento foi um curto salto até ao som, que nada mais é do que a vibração do próprio ar, e com ele Mendes Leal pôde trazer o vento para dentro dos espaços, pôde dar uma sensação ao impalpável. O som grave de uma coluna que produz a aragem que faz mover o cata-vento (Turbina, 2024). Dois escudos de vento (Windshield), colocados no exterior, espelhando a não-imagem do vento que os move à sua vontade. Duas colunas recriam pelo som a fronteira indefinível entre barlavento e sotavento algarvios, uma fronteira definida pelo vento e a sua relação com a costa (Barlavento/Sotavento, 2023). É com esta linguagem que se delineia uma convicção reveladora: para o sónico, não existem barreiras físicas, fronteiras ou mapas, não há limites de representação nem de acção; a partilha de uma experiência de escuta é um momento de ligação entre experiências individuais, onde sensações cumulativas tocam sujeitos que ocupam um mesmo espaço, material e imaterial, mas sem nunca lhes pertencerem totalmente. Não podemos abarcar o som na sua totalidade, como fazemos com a certeza da imagem, e há algo nessa impossibilidade que se assemelha a uma recusa: o sónico, tal como o vento, é indomável.

    Ao longo dos trabalhos de Inês Mendes Leal há uma sempre palpável pulsão de traduzir o invisível em sensações, sejam carícias na derme ou cócegas nos ouvidos — a vontade de trazer para dentro o que se vive lá fora, de efervescer à superfície os lados ocultos da nossa experiência do mundo. Na pista do que apenas se sente, a artista segue no encalço da temperatura, cujas variações dão origem ao vento que a move. É aqui que se depara com a Fata Morgana, um fenómeno visual que pode surgir com uma subida térmica drástica, e que despoleta uma miragem complexa onde as partes e os objectos presentes na linha do horizonte são distorcidos ou refractados, tornando uma paisagem imóvel numa em constante movimento. Foi no deserto do Atacama, no Chile, que caminhou ao encontro da Fata Morgana; que atravessou essa “água no deserto”, ou o reflexo do céu na areia, e que cruzou a paisagem real até à miragem e de volta. Mas a Fata Morgana é inalcançável, nunca um lugar mas sempre uma visão, estará sempre à nossa frente: o caminho é a travessia, a odisseia, e a miragem possível é a que dilui o corpo na paisagem, dissolvendo-o no calor. É a partir desta ideia, desta residência e da investigação que a acompanhou, que surge Reaching for Fata Morgana, a primeira exposição individual de Inês Mendes Leal, com curadoria de Francisca Portugal na Galeria da Boavista.

    Aqui, o atravessamento possível da Fata Morgana — ou a transmutável relação com a miragem que nunca se deixa apanhar — é sónico e faz-se no percurso do piso térreo para o superior e de novo para o térreo (porque vamos, mas eventualmente voltamos). Os sons do andar de baixo são compostos por gravações do oásis, dos pássaros e da vida da areia, dos passos, dos geisers e dos tambores, e da principal banda sonora do deserto: os ventos. É aqui que a subtileza da miragem se faz ecoar: vários pares de colunas, projectadas uma contra a outra, reproduzem as frentes de calor de uma paisagem cujas altas temperaturas invertem o horizonte. O mesmo som é reproduzido em simultâneo, mas na oposição entre as ondas sonoras reflectidas, uma das quais invertendo ou espelhando a outra, os seus tons são anulados por ocuparem o mesmo espaço e a mesma frequência, produzindo uma força tão densa quanto imperceptível.

    Na procura da tradução sonora desta “visão” da temperatura, a artista depara-se com a ciência termoacústica (ou o estudo da propagação do som em diferentes temperaturas), que a leva eventualmente ao obscuro pirofone, também chamado de órgão de chamas ou de explosão. Criado em 1870, este instrumento de “chamas cantantes” produz diferentes sons através da combustão rápida de gases no interior de tubos de vidro ou metal, com chamas de diferentes tamanhos a produzirem sons mais ou menos agudos. Pela ascensão do ar quente com grande pressão nos tubos, e devido à ausência de vácuo na Terra (como me explicou Inês), o ar frio é puxado com muita força pela parte inferior do tubo, e é esse fluxo que faz vibrar a chama e produz diferentes sons, dependendo da quantidade de oxigénio consumido e renovado.

    Seguindo a física da ascensão, encontramos no andar de cima Concert of Fire, o vídeo onde a artista replica o pirofone, contraposto ao vídeo que dá o nome à exposição, e que regista a sua caminhada em linha recta até à miragem que nunca alcança. Com a total consciência da materialidade do som, de como é háptico nas suas formas de activação do corpo, a complexidade da obra espelha a complexidade da miragem e, logo, das relações (sejam complementares, miméticas, invasivas, ilusórias ou reais) entre todos os elementos acima e abaixo da linha do horizonte.

    No vídeo Reaching for Fata Morgana, há um momento em que o corpo, na sua travessia do deserto, se torna miragem: é o momento exacto em que algo se perde e outro algo se ganha. É o momento em que os limites do corpo se dissolvem na paisagem, as barreiras caem e o ego morre para renascer de novo. É a travessia, a odisseia (que está na minha mente também porque está nos cinemas) da procura constante de nos perdermos de todas as vezes que temos de nos reencontrar. É ir e voltar, mas deixar algo de nós pelo caminho ou no ponto de retorno, e talvez levar algo mais connosco para o regresso. Com o som ominoso do pirofone no fundo, não consigo não me deixar impressionar pela coragem precisa para enfrentar assim o deserto, a miragem, os limites do corpo e os medos da mente. Ao fim de oito minutos, os contornos esbatem-se quase na sua totalidade e o corpo desaparece, torna-se também ele paisagem, a carne transmutada em miragem, para em seguida recomeçar, de novo, a sua travessia. Afinal, estar viva é atravessar.

    Há, em toda a obra de Inês Mendes Leal, uma primazia de um olhar científico sobre o mundo que nos rodeia. Não escondendo o seu fascínio por laboratórios e seus instrumentos, o seu propósito é, como me contou, trazer um outro ponto de vista para as manifestações da física e da natureza que tomamos por garantidas — ou seja, reinterpretar o mundo e os seus fenómenos de formas experimentais e sensoriais. Durante a nossa conversa, mostrou-me vários esquemas, rodeados de indicações de graus, temperaturas, intervenientes e fenómenos — cada vez que queria satisfazer a minha curiosidade face à física das coisas, traçava um novo esquema — o que me levou a concluir que o seu objectivo não é de forma alguma traduzir os fenómenos físicos em desenhos ou imagens, mas em diagramas, e portanto, em fluxos. Trabalhando (com) o som, o vento, a temperatura, Inês Mendes Leal utiliza os fluxos do mundo como matéria-prima das suas obras, numa procura incessante pela compreensão daquilo que não vemos mas que dirige as nossas vidas, que redireciona as nossas rotas, que metamorfoseia constantemente a superfície da Terra e os corpos que a habitam. Ao encontro de uma consciência expandida da nossa relação com o mundo, do nosso lugar na Terra, da nossa escala reduzida perante a titã que pisamos e da qual esquecemos o nome e a força: Gaia, este é o único caminho possível.




    Inês Mendes Leal

    Galeria da Boavista

    Marta Espiridião é curadora, crítica, tradutora, e doutoranda em estudos artísticos com um projecto sobre vídeo, movimentos feministas e identidades queer.  Aliando a curadoria tanto à investigação como à programação, tenta trazer para os espaços artísticos outras formas de criação e conhecimento. Além destes temas, interessa-se profundamente por coisas como bruxaria, literatura, arquitectura e espaço público, condições sociais contemporâneas, ficção científica e jardinagem.