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Contemporânea

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    Sara Massa:
    And wait, and wait, and wait

    Marta Espiridião

    por Marta Espiridião
    Do pasto para a galeria: a espera e a espera e a espera de Sara Massa

    Há lugares de onde queremos fugir e que, ainda assim, não deixam de nos habitar: é desta ambivalência que nasce And wait, and wait, and wait, exposição de Sara Massa no Project Room Guest Young Artist da Fundação Leal Rios, em Lisboa, com curadoria de Sara Leichsenring. O título ilustra na perfeição o gesto central do seu trabalho: a insistência de quem espera, sem saber bem o quê, num desses lugares onde o tempo se dilata.

    Sara Massa começou a fazer vídeo muito antes de o assumir como prática artística. Em criança brincava com espelhos e com o próprio reflexo, e quando teve o primeiro telemóvel, começou a filmar-se e a publicar vídeos no YouTube. Mas foi em 2020, aquando da sua participação no Fuso Insular, que passou a trabalhar com esse medium quase exclusivamente. Segundo a artista, havia uma necessidade muito real por detrás desta escolha: o vídeo servia para lidar com o ódio e a raiva que sentia pelo local onde nasceu e viveu até à maioridade, a ilha de São Miguel, e para processar o tédio e a sensação sufocante de estar presa a um lugar tão pequeno, deslocado e fechado sobre si mesmo. O vídeo tornou-se o instrumento que mediava a sua relação com o seu território e com as frustrações e contradições que este imprimia no seu corpo.

    Todos os vídeos que realizou até agora (tal como, disse-me, os que virá a realizar proximamente) foram gravados no mesmo cenário, o pasto onde o pai, lavrador, deixa as vacas a pastar. Foi ali que começou a experimentar com a câmara e é ali que continua a trabalhar, nesse território delimitado que pertence à sua família há gerações: é a sua herança também, e sem vocação pastoral, encontra no vídeo a forma mais real para se apropriar dela. Aquilo que poderia ser apenas um cenário de infância, ou um destino imposto, torna-se assim um lugar de disputa consigo mesma e com a ideia de pertença, mas também de uma certa inevitabilidade em ser-se permeável à nossa envolvente — para o bem, e para o mal.

    Performar para a câmara e para as vacas, o seu público na ilha, acontece num estado a que Sara chama "embriaguez do isolamento", uma condição insular já descrita por Vitorino Nemésio. Uma espécie de estado quase alucinogénico, muito ligado a uma percepção do tempo alterada pelo isolamento e pelo tédio, em que a espera deixa de ser excepção para se tornar uma forma de habitar o quotidiano. No centro de cada vídeo, o seu corpo é em si uma mensagem, “um SOS lançado aos aviões que passam”, disse-me —  e há nesta formulação uma consciência aguda da precariedade da comunicação insular: a mensagem lançada para o alto, na esperança de que alguém de fora a receba.

    Há uma lógica escultórica nesta insistência. Massa descreve os vídeos como “tentativas de fazer objetos" que não consegue materializar em três dimensões e que, por isso, constrói com luz e imagem, e cada vídeo é uma tentativa de dar corpo a algo que resiste a ser tangível — esse mundo complexo e paradoxal de quem se vira para dentro quando não consegue mais ver a mesma paisagem. Vistos em conjunto, deixam de ser peças soltas e passam a ser variações de um mesmo objeto, examinado várias vezes sob ângulos ligeiramente diferentes. É comum a todos, para além do cenário e do(s) corpo(s), a utilização do humor, da ironia e do inusitado para despoletar a sensação de estranheza: acções e relações que se sentem deslocadas ou quase despropositadas, ecoando o sentimento do próprio corpo de quem as faz no contexto que o constringe. Massa não resolve o isolamento, mas habita-o; não renuncia à ilha, mas negocia com ela. A repetição não esgota o que procura, e é por isso que o regresso ao pasto, à câmara e ao corpo se mantém — a coleção parece crescer não tanto por acumulação quanto por obstinação.

    A relação com as vacas, símbolos da ilha de São Miguel e protagonistas da sua maior indústria, não é meramente performativa: Sara tenta aproximar-se delas, toca-lhes flauta, tenta afagá-las, veste-se de ervas, tudo num esforço para as retirar do lugar de animais de produção e trazê-las para a mesma dimensão afectiva que habita. Mas a aproximação nunca se completa, porque o que separa a artista das vacas é também aquilo que as une: partilham o mesmo pasto, o mesmo horizonte limitado, a mesma espera. Entre elas estabelece-se a relação silenciosa de quem resiste à impotência e ao conformismo: os seus corpos em tensão recortados contra a monotonia do verde, o absurdo das suas interacções que dão sentido aos dias e os tornam simultaneamente indiferentes, desfazem a constância da espera quotidiana sem deixar uma marca materialmente visível.

    A ligação ao lugar é tão central como ambivalente, pois Sara não abandona a ilha e também não a aceita totalmente, mas procura um campo muito mais produtivo para disputar essa permanência que altera a maneira como o tempo é vivido. Quando a distância é permanente, esperar deixa de ser um intervalo entre acontecimentos e passa a ser o próprio tecido dos dias. É aqui que entra Camus, convocado no texto curatorial, “para quem o absurdo emerge do confronto entre a necessidade humana de atribuir sentido e a indiferença do mundo”: o seu Sísifo empurra a pedra sem que o mundo lhe devolva uma razão, e Sara envia o seu sinal sem garantia de resposta. Só que nos seus vídeos, esse esforço absurdo é mitigado por um sentido de humor cortante, presente num corpo que zigueagueia pela pastagem enquanto tenta fazer festas a uma vaca, diante de uma câmara e de um verde infinito, habitando o cenário que mais lhe é familiar e, ao mesmo tempo, perturbando-o. É nesse pequeno desalinhamento, mais do que em qualquer recusa declarada, que a artista encontra a força da estranheza, a resistência da fricção que um corpo pode imprimir nos espaços que o oprimem, mas que também o nutrem.

    A exposição prolonga esta lógica no espaço, algo especialmente sublinhado no momento da inauguração, quando Massa se apresentou vestida de vaca, cumprimentando as pessoas suspensa da parede nas escadas que levam até à sala. Para subir, o público tinha de passar por ela e lidar com o desconforto da proximidade ao seu corpo preso, tenso pela performance de resistência física e de exposição. O pasto deixava de ser uma imagem projetada e passava a ser uma presença que obrigava os visitantes a abrandar e a aproximar-se, colocando-os frente à vastidão verde e avassaladora dos infinitos campos de pastagem de São Miguel. Mas também este gesto é a continuação deste ensaio constante do absurdo como uma possibilidade de fissura na hegemonia da contemporaneidade: durante um ano, Sara Massa apareceu em inaugurações por toda a cidade com esse mesmo fato de vaca, trazendo o estranho e o inusitado para o quotidiano do circuito artístico. Massa desloca assim a ilha para a cidade, e com esse movimento, o estado de espera já tornado hábito transforma-se numa reclamação ainda mais sonora: sim, ainda há aqui quem esteja viva, quem espere por algo diferente, quem queira materializar alguma cisão na invariabilidade dos dias. Em And wait, and wait, and wait, esperar não é passividade, mas uma maneira de insistir, de sinalizar uma existência que resiste mesmo num lugar que lhe é inóspito.

    Marta Espiridião é curadora, crítica, tradutora, e doutoranda em estudos artísticos com um projecto sobre vídeo, movimentos feministas e identidades queer.  Aliando a curadoria tanto à investigação como à programação, tenta trazer para os espaços artísticos outras formas de criação e conhecimento. Além destes temas, interessa-se profundamente por coisas como bruxaria, literatura, arquitectura e espaço público, condições sociais contemporâneas, ficção científica e jardinagem.