É um artista que temos acompanhado nos últimos anos. Precisamente há um ano, João Pimenta Gomes (n. 1989) apresentava a performance for Cristal Baschet no Panótico do Hospital Miguel Bombarda, no âmbito da abertura do Festival Lisboa Soa. O título daquela apresentação retirava o nome do objecto sonoro desenvolvido pelos irmãos Bernard e François Baschet em França, em meados do século XX, justamente na época em que o experimentalismo nas artes visuais se aventurava por territórios inéditos, provocadores e inusitados, nomeadamente – e na proximidade deste universo –, com a acção histórica de 1954, em Colónia, quando Stockhausen apresentou publicamente as suas obras Studie I e Studie II, compostas com sons produzidos eletronicamente. O tom da obra é de uma derivação por entre os territórios da artes visuais e das artes sonoras, com um propósito unificador e especulativo. Curiosamente, tem sido muitas vezes no campo sonoro que, do ponto de vista da arte contemporânea, vamos encontrando sucessivos exemplos de trabalhos inquietantes e surpreendentes.
Volvido um ano, reencontramos uma instalação de Pimenta Gomes, desta vez no interior de uma das galerias do MAAT – Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia, na qual estes objectos são revisitados, neste caso, a peça compõe-se de dez ressoadores passivos metálicos e foliformes. A instalação é feita in situ, estabelecendo-se, por conseguinte, uma relação próxima e consequente entre as obras e o espaço. Este espaço tem a singularidade de ser curvilíneo, criando uma espécie de concha onde os espectadores encontram agora a possibilidade de se abandonarem confortavelmente em pufes e de fruírem a sonoridade de um modo que podemos designar de condensado e denso. Outra singularidade desta apresentação prende-se com o facto de o espaço ter uma cor alaranjada e quente, promovendo, no seu conjunto, um acolhimento aconchegante e envolvente. A percepção encontra, assim, um lugar para acontecer num sentido pleno e sensorial.
Deste lugar de experimentação sensorial partimos para a sua relação com o título New Age (Nova Era). Como se sabe, a partir de meados do século XX, sobretudo ao longo dos anos 60 e 70, a expressão surgiu associada a correntes espirituais e filosóficas que acabariam por se afirmar como formas alternativas de compreender a o universo, a espiritualidade e a relação entre o ser humano e o mundo, recorrendo-se aos conceitos de consciência, energia, vibração, harmonia ou evolução espiritual. As peças de João Pimenta Gomes, a seu modo, poderão equacionar algum tipo de espelho com esta forma de pensamento e de conjuntura especulativa. Na verdade, a sua proposta de aproximação entre tecnologia e experiência sensorial converge para a criação de atmosferas sonoras densas e tangíveis, numa espécie de materialidade do som e da visibilidade da sua dimensão metafísica.
A sonoridade da música electrónica exploratória foi, ao longo do tempo, revelando uma fascinante capacidade de proporcionar uma espécie de introspecção pelo som, atingindo-se a possibilidade de uma qualquer vivência hipnótica e transcendental. Através de sintetizadores, sequências rítmicas envolventes, texturas atmosféricas ou mesmo ruídos etéreos, estas expressões musicais vêm construindo universos sonoros que transcendem os limites da percepção convencional, despertando emoções e até estados de consciência ampliada. Esta ideia de consciência ampliada, largamente ancorada na meditação, retoma propostas centrais da New Age. E tudo se funde em conexão, sensorialidade, imanência e transcendência, adivinhando a vastidão do universo.
Nesta recente apresentação de Pimenta Gomes, possivelmente a luz foi o elemento mais surpreendente, talvez porque, em propostas anteriores, os efeitos visuais dentro do espaço expositivo eram sobretudo conseguidos através da iluminação e dos recortes luz-sombra. À componente sonora junta-se agora a envolvência cromática, quente e hipnótica, confluindo para uma dimensão na qual o sono e a vigília se misturam. A realidade, aparentemente sem gravidade, dilui-se numa dimensão pouco clara de tempo e de espaço, como medidas que, por norma, enquadram a nossa existência.
E, neste ponto evocamos Henri Bergson, sobretudo na obra Ensaio sobre os dados imediatos da consciência (1889), ensaio em que o autor desenvolve o conceito de duração (durée), operando uma distinção entre o tempo vivido pela consciência — subjectivo — do tempo cronológico e mensurável. Nesta sala entramos num tempo subjectivo, como se depreende. A sonoridade e a visualidade podem suspender a percepção do tempo cronológico e conduzir a uma experiência interior de continuidade, imersão e contemplação. A sua ideia de duração descreve um tempo interior, contínuo e qualitativo, no qual memória, percepção e consciência se interpenetram.
Na verdade, podemos estabelecer também uma relação entre as sonoridades electrónicas, a estética e conceitos New Age e o pensamento de Henri Bergson, manifestando-se na exploração do tempo como experiência subjectiva e contínua, por intermédio de texturas etéreas e hipnóticas ou de paisagens sonoras imersivas, nas quais o som transcende a linearidade cronológica, aproximando-se da noção bergsoniana de duração: um tempo interior, fluido e indivisível, vivido pela consciência. Neste universo sonoro, a música torna-se uma experiência de suspensão temporal e expansão sensorial, onde a perceção do espaço e do tempo se dissolve numa dimensão contemplativa e, talvez, perpétua.
MAAT
João Pimenta Gomes