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Contemporânea

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    João Penalva:
    Personagens e Intérpretes

    Isabel Nogueira

    por Isabel Nogueira

    João Penalva (n. 1949) assinala 50 anos de carreira, facto que tem merecido algumas actividades e exposições, de entre as quais destacamos a mostra na Culturgest — Personagens e Intérpretes —, com curadoria de  Bruno Marchand, sobre a qual nos debruçamos ao longo desta reflexão crítica. Penalva dividiu a sua actividade artística entre as artes visuais e a dança. É, de resto, bastante conhecida a sua colaboração com Pina Bausch ou Gerhard Bohner, nos anos 70, chegando a instituir a sua própria companhia, também nos ano 70, com Jean Pomares, The Moon Dance Company. Personagens e Intérpretes coloca-se na convergência do território das artes visuais — fotografia, vídeo, instalação, desenho — com o da dança — fotografias, filmagens, barras de treino, textos. São linguagens diametralmente distintas? Cremos que não. E é justamente por este aspecto que iniciamos.

    A arte não é um território espartilhado, sobretudo depois da complexidade e diversidade de suportes e de linguagens que o movimento geral da neovanguarda internacional acarretou e permitiu. O chamado campo expandido conduziu a uma liberdade criativa inédita e, em alguns casos, mesmo avassaladora, alterando diametralmente as trajectórias estanques da artes e a sua permeabilidade, a qual, de algum modo, se tornaria total e, acreditamos, felizmente sem retorno. Desenhar é dançar com a mão e com o braço. Dançar é desenhar um movimento no solo ou no espaço; é incorporar a abstracção da música e devolvê-la com a materialidade do movimento do corpo. As próprias barras de trabalho, também apresentadas na exposição, funcionam como um desenho preparatório do que a seguir se consubstanciará em espectáculo.

    Entre a dança e as artes visuais estabelece-se uma relação de profunda afinidade, um espaço de convergência onde o corpo e a imagem dialogam de forma contínua. Se a dança inscreve no espaço formas transitórias através do movimento, as artes visuais procuram fixar, interpretar ou prolongar essas experiências sensíveis. Neste território de encontro, as fronteiras disciplinares esbatem-se: o gesto adquire uma dimensão plástica e a imagem abre-se à temporalidade do corpo. Mais do que uma simples aproximação entre linguagens artísticas, esta ligação configura um campo de experimentação estética onde visualidade, corporeidade, memória e espaço se mesclam, dando origem a novas formas de percepção e de criação.

    Um outro aspecto que se destaca nesta mostra é a impossibilidade de apreensão total da exposição. A montagem é exigente e coloca ao espectador o problema de acompanhar cada objecto, desenho, texto, imagem. Quando rapidamente se percebe e incorpora essa impossibilidade, há uma espécie de transmutação para a fluidez do momento e da beleza da impossibilidade. Vê-se o que nos é, por algum motivo, mais relevante ou mais próximo, assumindo tacitamente o ganho e a perda que qualquer escolha implica, exactamente como na origem da tragédia: a necessidade de optar por duas situações igualmente importantes e incompatíveis. Em Personagens e Intérpretes a impossibilidade de tudo abarcar, pelo menos num primeiro contacto, converte-se numa hipótese de devir estético, de desejo de regresso e de incorporação futura.

    Há um terceiro ponto que entendemos merecer atenção. Trata-se das ideias de trajecto, arquivo e memória que esta exposição comporta. A investigação artística de João Penalva centra-se frequentemente na memória, na narrativa, no arquivo, na experiência do tempo e na construção de ficções a partir de fragmentos do real. Personagens e Intérpretes pretende estabelecer — inclusivamente como o título evoca — esta relação entre artista e personagem. Neste contexto, retomamos a dança enquanto forma de pensamento e como um acto de modernidade, sobretudo a partir das reflexões de Stéphane Mallarmé, particularmente no texto Divagations (1897), quando o autor atribui à dança a capacidade de sugestão e de abstracção, emancipando-a e afastando-a da representação mimética. Ao privilegiar o movimento, a presença e a efemeridade, a dança surgia como expressão de uma nova sensibilidade estética, capaz de traduzir as transformações culturais e perceptivas da modernidade. Através dela, o corpo deixava de ser representação para assumir um posicionamento de experimentação activa e singular.

    Nestes pontos de reflexão, podemos especular e propor que a dança seja coisa mental e o desenho é coisa material, e que ambos ocupem uma dimensão ontológica de experiência do mundo e da matéria que o compõe e sedimenta. O corpo físico ou visual é um corpo político, precisamente porque o corpo deixa de ser apenas um instrumento estético e passa a ser entendido como um lugar de memória, identidade, representação e relação social. Nas suas obras, o interesse pelas histórias, pelos gestos e pelas formas de ocupação do espaço sugere uma reflexão sobre como os indivíduos são moldados por contextos culturais e históricos específicos.

    Na verdade, a noção de transitividade adquire particular relevância. O corpo revela-se transitivo na medida em que opera continuamente entre diferentes regimes de existência: entre o sensível e o simbólico, entre o individual e o colectivo, entre a materialidade da presença e a construção imaginária da subjectividade. A experiência estética emerge precisamente desta condição liminar, onde os significados permanecem em circulação e nunca se estabilizam definitivamente. A criação não se situa, portanto, fora do corpo; ela manifesta-se através dele. Cada gesto, deslocação ou inscrição espacial constitui um processo de tradução entre o visível e o invisível, entre o que é dado à percepção e o que permanece virtual. O corpo — físico e visual — torna-se num dispositivo onde as fronteiras entre realidade e ficção, memória e projecção, identidade e alteridade são continuamente desafiadas. Ainda bem.

    Isabel Nogueira [n. 1974]. Historiadora de arte contemporânea, professora universitária e ensaísta. Doutorada em Belas-Artes/Ciências da Arte [Universidade de Lisboa] e pós-doutorada em História da Arte Contemporânea e Teoria da Imagem [Universidade de Coimbra e Université Paris 1 Panthéon-Sorbonne]. Livros mais recentes: "Teoria da arte no século XX: modernismo, vanguarda, neovanguarda, pós-modernismo” [Imprensa da Universidade de Coimbra, 2012; 2.ª ed. 2014]; "Artes plásticas e crítica em Portugal nos anos 70 e 80: vanguarda e pós-modernismo" [Imprensa da Universidade de Coimbra, 2013; 2.ª ed. 2015]; "Théorie de l’art au XXe siècle" [Éditions L’Harmattan, 2013]; "Modernidade avulso: escritos sobre arte” [Edições a Ronda da Noite, 2014]. É membro da AICA [Associação Internacional de Críticos de Arte].

     A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.