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    Ana Vieira:
    O Esquema Narrativo

    Francisca Portugal

    por Francisca Portugal
    AQUI QUERO RESPIRAR

    O Esquema Narrativo é uma exposição que celebra o legado de Ana Vieira. Dez anos após a sua morte, Antonia Gaeta, em colaboração com Sofia Gomes e Astrid Suzano,  apresenta o resultado destes últimos quatro anos de investigação, que permitiram elaborar os cadernos de montagem da artista, a partir de material recolhido no Banco de Arte Contemporânea e junto dos seus herdeiros.

    Em entrevista, Gaeta refere a responsabilidade de assumir o papel de “depositária desse conhecimento”. Depois de se dedicar à recuperação e conservação das instruções técnicas das obras, vem agora mostrar a relação que desenvolveu com o espólio, um vínculo que já existia também por parte da galerista Vera Cortês. A título de curiosidade, a curadora lembra a longa ligação entre a artista e Vera Cortês ao evocar um conjunto particular encomendado pela galerista em 2004.


    AQUI QUERO VER ENTRAR

    Para a leitura da exposição a curadora reconhece a exigência do tempo. Como se este, a par do espaço, fosse uma condição simultânea para visualizar as obras de Ana Vieira. Por essa razão, no texto de folha de sala, a curadora admite conformar-se com o que podem ser as diversas etapas de reação dos seus espectadores. 

    O primeiro contacto surge, inevitavelmente, de uma sensação de familiaridade (em particular com o espaço doméstico), na qual certos objectos permitem a construção de uma narrativa pessoal. Passado este momento de aproximação, fruto das impressões iniciais, surge um novo impulso e “a narrativa é interrompida”. Alguns dos elementos estão, afinal, alterados, fora de ordem ou do contexto, e instala-se a rutura. Deixa de haver a aparente sequência de eventos do modelo clássico da narrativa, a favor de uma abertura da leitura, ou melhor, de um “lugar de reversibilidade fenomenológica”.

    De facto, ao isolar os elementos apresentados no espaço, estes afastam-se cada vez mais do enredo inicial, tornando-se enigmáticos no seu conjunto. É o princípio da “metalepse”, introduzido pela curadora como conceito fundamental para a interpretação e análise desta exposição. A “metalepse”, tal como explicada pela autora francesa Alice Zeniter, “revela a porosidade dos universos, o da narração e o do narrado, o da ficção e o da realidade. Faz explodir as estruturas. Pode também servir para fazer ligações entre universos inteiramente fictícios que estavam supostamente fechados – dado que o simples facto de os reunir é uma acção surpreendente e vistosa da narração que vem perturbar a sua primeira estrutura, aquela na qual são mundos distintos.” 

    Estamos perante uma narrativa complexa e anacrónica, e uma obra atravessada pela ambiguidade, em que o espectador fica situado neste ponto indeterminado, num papel de mediador entre ambas as partes. Tal como Ana Vieira admitia: “a dualidade é a mola que desencadeia energia. Não me parece que o meio termo possa ter a mesma força.”

    A peça Ocultação/Desocultação (1978) inscreve no chão, em forma de planta, as divisões de uma casa. Desenha-se um percurso poético de alguém que entra identificando cada um dos espaços através de uma ação: “executar”, “ter”, “colher”... Olhamos para esta obra da artista enquanto modo de organização de uma casa, ou um mote para os títulos que organizam esta recensão. Apesar de não integrar esta exposição, parece-me pertinente evocar esta instalação pela sua dimensão discursiva, bem como pela dimensão doméstica que tanto guiava a prática de Ana Vieira.

    A palavra “aqui” inicia todos os versos, dando ao espaço uma presença teatral (que se aproxima da omnipresença), e ao mesmo tempo uma essencialização do lugar da casa e dos seus habitantes. Comparativamente, O Esquema Narrativo deve ser tratado como se o visitante estivesse a entrar em casa de alguém que conhece há pouco tempo. Alguém que, com uma certa cerimónia, vai ficando cada vez mais à vontade para espreitar os livros nas prateleiras, servir-se de uma chávena de chá, abrir as gavetas do móvel do lavatório… Gaeta revela: “É uma exposição muito silenciosa: que precisa também realmente de um trabalho do observador para descobri-la. É uma interação de intimidade com as obras.”


    AQUI SABEREI DESCOBRIR

    Se aplicarmos o método acima proposto à peça que introduz a exposição, Mesa-Paisagem (1973), quais são as primeiras impressões? Todos os objetos que nela encontramos são-nos familiares: em cima de uma toalha amarela, uma mesa posta com um prato e um coco, talheres e um copo, um comboio e umas palmeiras de brincar. Seguindo os princípios da lógica, a familiaridade comprova-se. No entanto, numa segunda avaliação, as noções de realidade ficam distorcidas e cedem o seu lugar à ficção: surge aqui a metalepse.

    Regresso a esta sensação de ubiquidade e de atordoamento dos sentidos para juntar ao argumento as palavras com que Jorge Luís Borges, neste parágrafo, parece descrever a Mesa-Paisagem de Ana Vieira: 

    “... Naquele Império, a Arte da Cartografia conseguiu tal perfeição que o mapa de uma só Província ocupava toda uma Cidade e o mapa do Império toda uma Província. Com o tempo, esses Mapas Desmesurados não satisfizeram e os Colégios de Cartógrafos levantaram um Mapa do Império que tinha o tamanho do Império e coincidia pontualmente com ele.”

    Tal como Borges indica, o mapa é o próprio território, e esta obra exige precisamente ser vivida, não apenas com os olhos, mas com a totalidade do corpo. Frequentemente, a prática de Ana Vieira é associada ao teatro e à cenografia que são, só por si, exercícios de criação narrativa em que se supera a própria metáfora. Entramos novamente na questão da veracidade desta situação. O espectador expande o seu campo de visão para além da mera observação, passando a integrar a própria composição: e daí ser necessário viajar.


    AQUI GOSTAVA DE OLHAR

    Numa analogia doméstica, oito painéis brancos suspensos junto às paredes da galeria ocupam o lugar do que poderiam ser as janelas para o exterior. Mas, pelo contrário, procuram camuflar-se com a arquitectura do espaço e fazer a sua presença o mais oculta possível, diria até de difícil acesso, num gesto de recusa do seu potencial de paisagem. 

    A montagem do conjunto das peças Close-up (2004) evoca o título dado à exposição antológica de Ana Vieira, Muros de Abrigo (2010-2011). Nesta, a ideia e a simbologia associada aos muros, uma imagem da infância da artista na Ilha de São Miguel, tornou-se a base para a organização do seu trabalho. Além disso, a natureza transicional de um muro representa os princípios de dualidade da obra da artista: a opacidade e a transparência, a ocultação e a visibilidade, a recusa e a aceitação.

    No filme documental Ana Vieira… E o Que Não é Visto, que registou a montagem das exposições no Centro de Arte Contemporânea em Lisboa e no Museu Carlos Machado em Ponta Delgada, respeitava uma particularidade exigida pela artista: a de nunca aparecer filmada. Recusou a sua imagem a favor das suas obras, queria estar atrás de um muro. É exatamente a lógica que aplica a um espelho onde não nos podemos ver. As obras Close Up são uma forma de muros, e os espelhos por si ocultados prolongam um fator teatral inesperado. 

    Afinal, a paisagem que estes paineis escondem no seu verso é o interior de uma casa. Esta só se torna visível através de uma composição de pequenos espelhos côncavos e convexos que revelam partes destes cenários. A intimidade concedida a este ambiente é, tal como em Mesa-Paisagem, um exercício de movimento constante de aproximação e afastamento, onde a perceção do contexto das imagens se distorce. E tal como em Ocultação/Desocultação, a representação do quotidiano é feita a partir de fragmentos, sendo este, um lugar demasiado íntimo para permitir um convite incondicional.


    AQUI QUERO SAIR

    No final do percurso, O Esquema Narrativo retoma um trabalho de retrospectiva documental em que se reflete sobre a receção futura da obra da artista, uma questão intemporal nos discursos sobre arte e a sua história. Relativamente à ativação e conservação do espólio da artista, e graças ao trabalho desenvolvido com o seu arquivo, a curadora Antonia Gaeta confirma um interesse renovado por parte das novas gerações, perpetuando a pertinência deste legado. Resta ao visitante da exposição, no lugar de habitante temporário deste universo poroso, a liberdade de espreitar o que ficou escrito no avesso do visível.

    Francisca Portugal curadora e escritora (Lisboa, Portugal). Tem uma prática independente de curadoria e nos últimos anos colaborou com instituições nacionais como Centro de Arte Moderna Gulbenkian, Coleção de Arte Contemporânea do Estado, Galerias Municipais de Lisboa, Fundação Carmona e Costa, Museu de Arte Contemporânea de Elvas e Fundação Eugénio de Almeida e instituições internacionais como Bergen Kunsthall, Callie's Berlin, Berlin Arte Prize e Swiss Church of London. Programa os projetos Departamento de Estudo das Bibliotecas (em colaboração com Benedita Pestana) e Belo Campo (na Galeria Francisco Fino).