“Lembra-te de lembrar de esquecer”, sussurra Eunice Pais no seu filme Rosa-Zita: Um espaço liminal. A frase repete-se no fundo da minha mente desde a primeira vez que vi a curta de 17 minutos que é a peça central de Pele do Mar, com curadoria de Patricia Coelho, patente na Galeria Municipal do Porto. Protagonizado pela sua mãe, o filme de Pais conta uma história de migração, com todo o sofrimento, luto, desejo e transformação que residem no corpo migrante, mas também com agência, máscaras e resiliência. É também uma âncora para a artista na exploração do paralelismo entre a história da migração da sua família, de Moçambique para Portugal, e a história da migração do sargaço: por detrás do ecrã encontramos esculturas de sargaços feitas de alumínio e ramos de árvores que o mar trouxe à costa nas tempestades de inverno.
Encontrei-me com Eunice para uma chávena de chá e para ouvir a miríade de referências tecidas em Pele do Mar. Confiante, gentil e sempre pronta a partilhar o seu riquíssimo conhecimento, pela conversa cedo se tornou claro o quão bem pensadas e precisas são as suas obras. Em vez de uma jovem artista com a sua primeira exposição individual, dá a impressão de ser alguém que sabe exatamente o que está a fazer, contando as suas histórias com honestidade, naturalidade e graça. Tal como a artista, também as obras têm uma panóplia de histórias e reflexões para partilhar, primeiro emocionalmente: levaram-me de volta à história da minha própria migração, à migração dos meus pais e até outras histórias de outras viagens e transformações. Como nos adaptamos a novos contextos enquanto seguramos o nosso passado, ou o dos nossos ancestrais, dentro de nós? O que fazemos com os nossos eus, as nossas identidades, quando chegamos a novos contextos com novas culturas, costumes, bactérias, crescimentos e vidas? Procurando entender estas questões, deparamo-nos com uma visão de dualidade que atravessa a exposição: Rosa/Zita no filme, Português/Cisena na paisagem sonora e terra/mar nas esculturas. Para Eunice, reconhecer e agarrar este tanto…como é uma forma de navegar (e resistir a) sistemas que exigem identidades fixas.
Por detrás do filme está a verdadeira história da migração da família de Pais, que começa no período pós-independência em Moçambique, onde os detentores de nacionalidade portuguesa eram obrigados a sair do país sob restrições apertadas — por vezes no espaço de 24 horas e com limitados pertences — na que ficou conhecida como a ordem “24/20”. O seu avô, professor, obteve nacionalidade dupla mais tarde, já depois da guerra da independência, o que lhe permitiu ficar em Moçambique com as crianças mais pequenas. Inicialmente Rosa/Zita, mãe de Eunice, viajou até Lisboa com a sua irmã mais velha, seguidas de dois dos seus irmãos. Quatro dos cinco irmãos mais novos juntaram-se mais tarde, vivendo todos perto uns dos outros no Barreiro, enquanto os avós e o tio mais novo de Eunice permaneceram em Moçambique.
Embora toda esta agitação tenha ocorrido antes do nascimento de Eunice, ela viveu as consequências desta viagem, ao desenterrar as próprias memórias esquecidas, através dos arquivos da sua mãe, bem como da experiência de a observar enquanto crescia. O filme faz este desvelamento com amor e respeito, tecendo-o com outros entendimentos que a artista adquiriu. A ideia de lembrar de esquecer, por exemplo, vem dos seus estudos universitários em neurociência: o córtex frontal regista primeiro as novas ações, e quando são suficientemente repetidas, passam para o córtex motor. Ou seja, há um momento em que repetimos uma ação vezes suficientes para o seu lugar no cérebro se alterar do córtex frontal para a memória do córtex motor — o momento em que esquecemos de lembrar. Esta flutuação da memória dá o tom para o segundo capítulo do filme, que mostra Rosa/Zita a acordar, lavar a cara, entrançar o cabelo, pendurar roupa, lavar loiça, cozinhar e cuidar, repetindo tudo isto uma e outra vez num ritmo cada vez mais rápido até acalmar e, finalmente, começar a dançar. Com a artista a narrar as ações, o espetador é levado a um lugar de opressão e solidão, espelhado na frase “lembra-te de lembrares de esqueceres quem és. (De onde és).”. Esta sensação de perda, ou de uma dispersão do eu, é universal, embora aqueles de nós que migraram a vejam assomar uma e outra vez, contrariada por (e talvez até coexistindo com) sentimentos de agência, perseverança e resiliência. Encontramos estes sentimentos-irmãos tanto na dança de Rosa/Zita como na sua decisão de sair, de continuar a cuidar, de escolher lembrar e escolher esquecer.
O anterior capítulo do filme introduz as histórias da migração de Rosa/Zita enquanto a observamos, entre capulanas (tecidos tradicionais moçambicanos) a secar ao vento num telhado do Barreiro, acompanhada da voz de Eunice, que lê a carta que escreveu para a mãe (“Agora que sou mulher, percebo-te, vejo-te. Agora que somos mulheres, criamos”). Somos depois levados para as dunas Apulinas que Eunice escolheu intuitivamente, desconhecendo a sua semelhança com a paisagem moçambicana. Rosa/Zita coloca algumas fotografias e memórias numa escultura de um recipiente-sargaço enquanto Eunice lê duas cartas do seu avô para a sua mãe, uma congratulando-a pelo nascimento do seu irmão e outro dizendo que afinal não viria a Portugal após a morte da esposa. “Contaste-lhe [ao teu marido] as minhas falhas?” pergunta o avô à sua filha. Há uma honestidade direta na questão, uma autoconsciência e um cuidado raros numa figura patriarcal. É um gesto bonito de Eunice, resgatar esta carta destacando esta frase.
Rosa/Zita deposita as memórias no recipiente, juntamente com um véu preto, e coloca-o na água rasa do mar que o segura, reorganizando o conteúdo à sua vontade e contaminando com todas as outras memórias, histórias e corpos que por ele passaram. Mais tarde no filme, estas memórias alteradas são desveladas pela própria Eunice, que pesca o recipiente da água. “Voltei para ouvir”, diz enquanto coloca o recipiente no seu ouvido. No capítulo final, versões de Rosa, de Zita e de Eunice transcendem memórias e espaços, enquanto Eunice promete “comigo, carreguei outras presenças deixadas para trás… Relembrei o que deixaste (imaginei as tuas memórias). Desdobrei a tua inquietação antes de carregar a tua separação. Carrego as tuas memórias (ou esquecimentos). Guardo-as com cuidado… Com o mesmo cuidado com que cuidas de mim”. Ecoando trechos anteriores do filme, Eunice empodera a sua mãe: “(Pára). (Acorda). Dói? Desembaraça-te (Desembaraça-nos). (Regressa) Revisita-te… Relembra-te de ti (Relembra-te de nós). Recusa (Rosa). (Zita) Rebela-te. Esses lugares nebulosos (que te lembraste de esquecer). São paisagens que habitas mesmo depois de as deixares… (Fecha os olhos e regressa a um lugar)”. Com esta frase final, vemos subitamente o sargaço a flutuar debaixo de água, habitando ainda outro espaço liminar.
Eunice explica-me como, na sua mente, Rosa foi sempre a sua mãe Ocidental e Zita a Moçambicana. De início, a sua mãe usava os dois nomes: Zita para a família, Rosa para estranhos. Quando o pai de Eunice morreu, algo mudou. Talvez pela forma como o luto é culturalmente assimilado: em África, explica, o luto é alegre, “vestes roupas coloridas, vais à água e cantas para a água”, enquanto em Portugal o luto é vergonhoso, triste, cinzento. Em criança, Eunice não entendia por que a sua mãe vestia roupas pretas para ir à rua, até uma amiga lhe explicar que as pessoas vestem de negro para fazer o luto. Iniciar esta dualidade, as máscaras de dentro de casa e do “lá fora”, trouxe também uma mudança de nome, e a sua mãe começou a pedir a todos — menos à sua filha — que lhe chamassem Rosa. No entendimento de Eunice, Rosa e Zita nunca se resolveram numa só identidade, mantendo-se como presenças paralelas em permanente negociação. “Esta negociação”, diz-me, “pode ser entendida como uma forma de agência, onde a opacidade se torna uma escolha em vez de uma condição imposta pelo exterior”.
Enquanto falamos num café em Campanhã, conto a Eunice a minha história de migração, como também o meu nome foi algo que mudou e como isso é algo que se sente tão íntimo. Falámos sobre o que significa pertencer a duas culturas, nem aqui nem ali, de identidade em mudança, de avôs que pedem às nossas mães para não falarem a língua local (Moçambicano para a sua mãe, Yakut para a minha), com esperanças num futuro melhor para elas. Falámos da terra natal como uma terra que nunca foi, como algo místico e marcado por uma ânsia que nunca pode ser apagada. Enquanto explica os detalhes da história, Eunice questiona subitamente: “Estou a falar da minha mãe? Ou estou a falar do sargaço?”. Visualmente, o sargaço aparece apenas no final do filme, nadando na água como Rosa/Zita, e nas estranhas esculturas do outro lado do ecrã. Diria até que neste trabalho o sargaço funciona como um ancestral cujas memórias a artista está a tentar desvendar.
O sargaço entrou na vida de Eunice depois desta se mudar para a Apúlia, uma vila piscatória a norte do Porto, onde as mulheres tradicionalmente o colhiam do mar para fertilizar os seus jardins. Rapidamente descobriu que a sua viagem era multifacetada: formando-se nas profundezas do mar, o sargaço parte das Caraíbas e acopla-se à corrente do Golfo, atravessando o fundo do mar e tornando-se novamente visível à chegada. O seu papel altera-se na jornada: num ponto é visível e considerado “invasivo” por cobrir os recifes de corais do sol, impedindo o seu crescimento; nas profundezas da água é invisível, filtra metais pesados do oceano; e no final, visível de novo, é colhido para fertilizar. “Não é incrível que ali o considerem invasivo e aqui seja tão importante para o sustento?”, pergunta-me entusiasmada, sublinhando como o sargaço tinha sido ainda mais importante durante a ditadura, e como as pessoas o usavam para plantar vinhas nas dunas para as manter no lugar, apanhando sargaço nos pequenos vales que a areia formava.
A ligação entre visibilidade e invisibilidade é a chave, da mesma forma que os corpos migrantes são tornados visíveis e invisíveis pelo olhar branco: às vezes “invasor”, outras vezes útil, e outras simplesmente aceite. Ao fazer esta conexão, o trabalho de Eunice segue um movimento contemporâneo que traça paralelismos entre corpos migrantes humanos e mais-que-humanos1. Para Eunice, o mais importante é que, independentemente de tudo, o sargaço continua a aparecer. Pode tornar-se invisível em parte da sua jornada, pode ser desejado ou indesejável, pode ser violado ao ser chamado de invasivo, pode ou não ser usado, em simbiose com os humanos ou não, ele continua a aparecer. É esta reincidência, esta presença na dualidade e na contradição, que o destaca e torna tão relacionável: não apenas uma metáfora potente, mas um nós mais que humano. Ao criar esta experiência partilhada, a obra permite-nos dar um passo em frente, vendo a visibilidade e a invisibilidade não como condições impostas, mas como estratégias para navegar e resistir a sistemas de extração, categorização e, em última instância, de dominação.
Ao rever o filme pela sétima vez, volto a suspirar profundamente. Um suspiro de ânsia, uma mágoa sem fim. Mas igualmente um suspiro de rebeldia e uma dedicação a continuar a aparecer igual mas diferente, lembrando o mesmo mas noutros lugares. Tal e qual o sargaço: visível e invisível, presente e ausente, lembrado e esquecido. Também sorrio, grata pelo que o trabalho curou no mais profundo de mim, lembrando-me de algo muito querido e importante. Proximamente teremos mais, pois Eunice continua a construir sobre Pele do Mar — prelúdio da sua exploração do sargaço — a poética dos corpos migratórios e das ecologias especulativas, com o Sargassum a unir filmes especulativos e uma instalação escultórica, para ver no espaço PADA em Dezembro.2
Tradução EN-PT
Marta Espiridião
- Para dar um exemplo:“Calcium Breather”, exposição de Alvin Luong, (2025, Hunt Gallery Toronto, Canada) traça o paralelo entre a rota dos refugiados vietnamitas e os corais exportados do Vietname para os Estados Unidos.
- Até lá, podem encontrar Eunice Pais na exposição Fios de Luta no LAC, em Lagos, onde mostra um trabalho que, com seis capulanas entrançadas, traça as origens do tecido dentro do comércio colonial holandês, explorando-o enquanto arquivo tecido de identidade, memória e lembrança intergeracional; e na exposição Wild Water, na Framer Framed, onde apresenta o prelúdio ao Barreiro em Ecologias.