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Contemporânea

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    MADEYOULOOK:
    MafolofoIo

    Marta Espiridião

    por Marta Espiridião

    Sonic agency is expounded upon as a means for enabling new conceptualizations of the public sphere and expressions of emancipatory practices — to consider how particular subjects and bodies, individuals and collectivities creatively negotiate systems of domination, gaining momentum and guidance through listening and being heard, sounding and unsounding particular acoustics of assembly and resistance. 

    A agência sonora é explorada como um meio para possibilitar novas conceptualizações da esfera pública e de expressões de práticas emancipatórias — para considerar como sujeitos e corpos particulares, indivíduos e colectividades, negoceiam criativamente sistemas de dominação, ganhando impulso e orientação através de escutar e do ser ouvidos, soando e silenciando acústicas de assembleia e resistência.

    Brandon Labelle, Sonic Agency: Sound and Emergent Forms of Resistance


    MADEYOULOOK é um colectivo artístico interdisciplinar de Joanesburgo, nascido da longa colaboração entre Molemo Moiloa e Nare Mokgotho, cujo trabalho é uma procura incessante por epistemologias negras originárias e suas formas ancestrais de viver com a terra. Traduzindo-se em exposições, programações de conhecimento e publicações, a sua prática intermedia e intertextual é marcada pela pesquisa activa e afectiva: na procura das práticas e vivências quotidianas (sistematicamente rasuradas) dos corpos negros, estabelecem relações afectivas com as pessoas que encontram e os lugares que visitam, acreditando que é na escuta activa e empática — e não no distanciamento emocional que a ciência ocidental defende — que se pode verdadeiramente encontrar o entendimento.

    MafolofoIo, uma nova iteração da instalação apresentada em 2022 na documenta15, com curadoria do colectivo ruangrupa, traz até ao Hangar um espaço de contemplação e escuta, mas principalmente de luto e de luta, a partir do qual somos desafiados a pensar novas formas de recuperação e reparação. Com curadoria de Margarida Mendes, MADEYOULOOK cria um espaço onde (sobre)vive a história de uma terra e dos ciclos de deslocação e de retorno das suas organizações sociais ancestrais, para contar a história do racismo, extrativismo e despossessão, da perda do lugar do espírito — informando o entendimento das urgências da contemporaneidade em aprofundar e manter as relações com a terra que nos resta. 

    Numa investigação prolongada por sete anos na zona norte da África do Sul, Moiloa e Mokgotho viajaram até Mpumalanga para procurar a história ancestral das estruturas existentes no território: muros de pedra, terraços florestais, formulações habitacionais circulares e gravuras rupestres do povo Bakoni. Os Bakoni1 eram uma sociedade agrícola estabelecida antes do século XVI, e que desenvolveu sistemas de plantação intensiva, dos quais restam agora apenas ruínas e pouquíssimas referências escritas. Esta instalação conta a história quase apagada do povo Bakoni: uma história feita de fragmentos, lacunas e narrativas por vezes contraditórias, desenhada a partir de ruínas em pedra, relatos orais de memórias partilhadas, e uma pitada de especulação imaginativa. Uma história contada em sons e linhas de um mapa, onde se demarcam as aldeias e os rios, evidenciando a proximidade e interdependência entre paisagem e construção.

    Ocupando as paredes, o chão e os bancos do espaço, vemos mapeamentos especulativos dos movimentos de deslocação forçada dos Bakoni pela sua própria terra, no nordeste da África do Sul, durante o auge do imperialismo britânico nos séculos XIX e XX; mas também dos seus movimentos de reencontro e reconstrução. Aliás, o título Mafolofolo nomeia um dos lugares fundados pelo povo Bakoni em 1873, após a primeira expulsão das suas terras em 1820, onde começaram a reerguer a sua sociedade e a trabalhar a terra até uma nova deslocação violenta poucos anos mais tarde. A sua história acumularia ainda mais algumas deslocações forçadas e tentativas de reconstrução, e aos seus descendentes foi eventualmente devolvida uma parcela da sua terra originária — uma quinta que os colonos brancos não hesitaram em queimar antes de abandonar — numa primeira vaga de restituição que tentou reparar os danos inmensuráveis do Land Act de 1913, que restringia a posse de terras por pessoas negras a uns míseros 7% da totalidade do território da África do Sul. 

    Mas para lá dos desenhos, o mais impactante é a peça sonora, com cerca de vinte minutos, onde cantos, conversas e sons naturais são dispostos em sete canais, numa re-organização da instalação original, que responde agora ao espaço do Hangar. Estas gravações são um registo sonoro das relações históricas e contemporâneas com o território, e da vontade primal de o cuidar e preservar, de reclamar a ligação e a interdependência entre corpos e lugares — o que a curadora Margarida Mendes define como “contra-cartografia sónica”. Algumas questões assolam-me enquanto me sento, de olhos fechados, imersa neste oceano auditivo: com que sons se faz uma paisagem? Se a representação imagética da natureza nos separa dela, por evidenciar a distância, pode o som reaproximar-nos? Pode a oralidade — ou seja, a fala, e necessariamente a escuta  —trazer-nos de volta à comunidade e ao seu lugar partilhado? No embalo dos cânticos e das palavras, sou transportada para outros lugares, outros mundos, outras formas de imaginar futuros conscientes de outros passados.

    MADEYOULOOK acreditam no potencial do som para convidar à proximidade da escuta partilhada, mas também para conectar diferentes tempos históricos e geográficos, atravessando fronteiras e continentes para interligar experiências humanas de perda de terra, de ambientes e de formas de vida pré-capitalistas, cuja partilha pode ser um primeiro passo na procura de formas colectivas de resistência. E o som de Mafolofolo, intercalando conversas com trabalhadores da terra com excertos de cantos de resistência e liberação sul-africanos em zulu, sepedi, sotho e tswana  — alguns originários das lutas anti-coloniais e anti-apartheid, outros, mais antigos, hinos tradicionais do território — toma conta de toda a sala, e de toda a nossa atenção, sublinhando a tensão entre a aparente calma e neutralidade do tom cinzento-escuro e das linhas mapeadas nas superfícies, e a força ressoante do coro cujo crescendo faz tremer o chão. A imersão total na paisagem sonora, nas melodias telúricas que brotam da terra para reverberar na carne como o ribombar de um trovão, mostra como o próprio corpo pode saber e reconhecer o ímpeto da resistência, pode não esquecer a imensa força afectiva da ligação à terra. 

    Entretecendo memória histórica, tradições orais e relações com a terra e com existências mais-que-humanas, o colectivo faz-nos olhar de frente as hierarquias da criação e disseminação de conhecimento, para dissecar as relações sociais e espaciais em lugares sujeitos a prolongada violência colonial. São verdadeiros projectos de investigação, diálogo e escuta, com tempos longos e formulações colaborativas, cuja procura é por reparação, de todes nós e da terra que nos sustenta. Conhecendo, mesmo que superficialmente, a história da cartografia enquanto ferramenta de controlo colonial e de extrativismo capital, parece importante reforçar a posição contraditória e inquisitória dos MADEYOULOOK. Para o colectivo, o acto de mapear serve não exclusivamente para reclamar um território ou o seu total entendimento, mas a sua apropriação pode ajudar a compreender como a terra e a comunidade são interdependentes, mutuamente constitutivas e construtoras de narrativas inseparáveis. 

    Numa entrevista, MADEYOULOOK partilham uma visão muito bela do seu trabalho (que traduzo aqui): “A prática da procura não é só preencher as lacunas ou desfazer o que foi apagado, ou sequer reconstruir um passado idílico, mas também cuidar dos fragmentos (…). Desta forma, o acto de procurar não se prende com a clareza das verdades declaradas, nem com a finalização nem com o encontrar, mas sim com a conexão. Procurar é o trabalho de honrar tanto o que sabemos como o que foi perdido.”

    Com estas palavras, confirmo o que tenho andado a descobrir: que, no fundo, a procura é principalmente espiritual, pois o espírito reconhece o seu lugar. Uma das grandes referências para o colectivo foi Dineo Skosana, cuja investigação sobre a despossessão material das comunidades a implica numa perda intangível, que se prende, mais do que com a própria terra, com a pertença ancestral e espiritual. Skosana fala de “segurança espiritual”, por oposição a uma insegurança que se traduz na ansiedade trazida pelo distanciamento à nossa ancestralidade — algo que ainda pouco se fala no “ocidente”, mas que acredito em muito influenciar as suas tendências imperialistas e repressivamente seculares. 

    O direito à terra é uma necessidade absoluta para a independência de uma sociedade, para a sua auto-gestão e sobrevivência, e é também uma necessidade espiritual, de estar em contacto com o chão que se conhece, no lugar com que partilhamos uma vibração única. É a sensação da pertença, da segurança com que se caminha, na passada de quem passou antes de nós e de quem passará a seguir. Enquanto tantos povos estiverem vedados do acesso aos seus locais ancestrais, ao seu território original, à sua terra-mãe— como foi o caso dos Bakoni, e é o na Palestina, no Líbano, em Porto Rico, no Brasil, entre tantos, tantos outros lugares — o som da resistência continuará a trepidar nos corpos e nas raízes arrancadas. E os que nos fazem ver (o trocadilho é propositado) sabem que é preciso escutar para poder ecoar em resposta, em conjunto.

    Marta Espiridião é curadora, crítica, tradutora, e doutoranda em estudos artísticos com um projecto sobre vídeo, movimentos feministas e identidades queer.  Aliando a curadoria tanto à investigação como à programação, tenta trazer para os espaços artísticos outras formas de criação e conhecimento. Além destes temas, interessa-se profundamente por coisas como bruxaria, literatura, arquitectura e espaço público, condições sociais contemporâneas, ficção científica e jardinagem.

    Notas de Rodapé
    1. Para um relato mais aprofundado da história dos Bakoni, poderão visitar o blog de Isaac Samuel em https://www.africanhistoryextra.com/p/the-stone-ruins-of-bokoni-egalitarian