Ir para o conteúdo

Contemporânea

  • Projetos

  • Sobre

  • pt / en

    Augustas Serapinas:
    Cultura do Corpo: Edição Porto

    Eduarda Neves

    por Eduarda Neves
    apenas os corpos alados ajudam a alma a voar
    Mira cómo el cuerpo amante,
    rendido a tanto tormento,
    siendo en lo demás cadáver,
    sólo en el sentir es cuerpo.
    Sor Juana Inés de la Cruz
     O que podem os nossos corpos? Quase tudo.
    Michel Serres

    Inscritos em sistemas de dominação simbólica que os converte em identidades produtivas, administradas e rentáveis, os corpos não deixam de ser enunciados através dos quais a história se escreve e reproduz. Treinados e regulados enquadram-se tanto no aparelho de produção como nos saberes oficiais. São aqueles que o artista lituano Augustas Serapinas convoca na exposição Cultura do Corpo: Edição Porto, com curadoria de João Laia e apresentada na Galeria Municipal do Porto. A funcionalidade da instalação — que se concretiza na forma de um ginásio — espelha o conformismo enquanto mecanismo de submissão e traduz os efeitos das relações de controlo imanentes a corpos reduzidos a modus operandi. Tomando como ponto de partida a sua experiência académica o artista escolhe da colecção do Museu Nacional Soares dos Reis — instituição que colabora neste projecto — algumas esculturas cuja autoria é, na sua totalidade, de homens. A partir daquelas obras constrói réplicas que assumem a função de pesos e halteres. Apenas duas são de figuras femininas. Tudo ajustado ao Zeitgeist e à clausura. Narrativas ocultas que aqui se espacializam manifestando o intolerável fardo das clássicas relações de poder. Entre a vida e a academia, a naturalização do trabalho social de construção do corpo está presente nos esquemas práticos da visão que historicamente perpetuam a força desta “sociodiceia” masculina, para falar como Pierre Bourdieu. A arbitrariedade, revestida de aparente objectividade, garante o princípio da ordem androcêntrica que o mundo da arte reproduz.

    A activação performativa das peças neste projecto expositivo — que ocorre através de sessões de desenho de cópia das esculturas ou do exercício físico — encontra no treino e na repetição um método de trabalho que obedece a um convencionado sistema rígido e define a “boa forma” e a “boa execução”. Se os aparelhos desenvolvem os músculos o desenho impõe a correcta representação do mundo. Convoquemos, a este propósito, Gilles Deleuze quando escreveu que o método serve apenas para evitar ir a um dado lugar ou, então, para nos dificultar a saída. Assegurando a potência e o treino da memória enquanto ferramentas que acumulam detalhes e pormenores a repetição contribui também para fixar a mimese, a paciência e a insistência, como condição do trabalho produtivo, da aceitação das regras e até de um certo espírito sacrificial. Confrontando-nos com um ginásio-atelier que faz significar corpos flexíveis e virtuosos, ou ainda com a imitação dos mestres como referências inquestionáveis, Serapinas coloca-nos na presença de corpos sem espaço para o imaginário e dos quais a dissonância, a turbulência ou a instabilidade estão ausentes. Recorda-nos Michel Serres que foi na Grécia antiga do século VI a.C. que da “imitação do corpo concreto nasceram simultaneamente a geometria abstrata das semelhanças, a astronomia, a mecânica e a geografia da Terra.”1 Imitamos o que é obra do tempo mas será necessário ir além da cópia e da máquina, das representações iconográficas ortodoxas e dos corpos empobrecidos. Já Nietzsche preconizava a acção da arte sobre os músculos e os sentidos, uma discreta mobilidade do corpo: “Toda a arte possui um efeito tónico, aumenta a força, ilumina a alegria (quer dizer, o sentimento da força), evoca todas as subtis recordações da embriaguez ”2 Não se trata da exaltação de um regime disciplinar ou do trabalho meticuloso produtor de corpos belos, saudáveis e socialmente integrados, nem, é claro, de uma qualquer definição social. Uma outra voz aqui se faz ouvir. Trata-se, antes, de deixar falar o corpo vivido que age através de forças complexas que sobre ele se exercem e o tornam afirmativo. O imponderável e a transmutação de todos os valores. Um lugar sem o imperativo moral do espírito do rebanho. O desconhecido opera na obra que exige um corpo subtraído à força técnica e à imagem acabada.

    O esquecimento pode ocupar um ginásio e atravessar um atelier para descobrir um território imperfeito. Autónomo e acidental. Insuficiente e sem mérito. No momento da sua morte Heitor suplicava a Aquiles para não ser mutilado. A violência da separação. Antes cadáver inteiro que corpo amputado. Recorda-nos Michel Foucault que podemos ter como certo o facto de ser possível considerar o corpo humano como agente principal de qualquer utopia:

    Afinal, uma das mais velhas utopias que os homens contaram para si mesmos não é o sonho de corpos imensos, desmesurados, que devorariam o espaço e dominariam o mundo? É a velha utopia dos gigantes, que encontramos no coração de tantas lendas, na Europa, na África, na Oceania, na Ásia, essa velha lenda que há tão longo tempo nutre a imaginação ocidental, de Prometeu a Gulliver.3

    Imaginamos que o corpo utópico — convocado naquele excerto — também é capaz de resistir à fome, à doença, à exploração, à desigualdade, à pobreza, ao fascismo, à insegurança, ao desemprego, à fragilidade, à tristeza, à solidão, à guerra e à dor. Também não sucumbe a poses codificadas e manuais de instruções. Esquiva-se de todo o modelo, da fadiga administrada. Neste esgotamento da humanidade é o corpo que vemos como desmesura ou ruína. Ao contrário de Julien Offray De La Mettrie nem tudo se explica com o apoio da anatomia: “O homem é uma máquina, e no universo há uma única substância diversamente modificada.” Esta tecnologia política do homem-máquina ao serviço da organização de “corpos dóceis” — que a análise foucaultiana tão singularmente problematizou — não deixou de encontrar, até hoje, na academia e em certas práticas artísticas e discursivas, alguns dos seus aparelhos de prescrição.

    Como reivindicou Nietzsche para a filosofia precisamos de corpos que sirvam para “afligir”, para contrariar, que não sirvam nenhum poder instituído e verdades eternas. Talvez possamos reclamar esta mesma condição para a arte — a de ser corpo, de fazer implicar todos os lugares do mundo, desdobramentos da alteridade radical como Levinas e Derrida criticamente equacionaram. Que outra coisa poderia ser? É assim que imaginamos os corpos dos atletas na pista de corrida de Augustas Serapinas. Nesta também as mulheres ocupam o lugar da multiplicidade sem caução a pagar. Cruzam os traços e as larguras, as cores, os limites e as curvas. Escolhem o atletismo artaudiano. Um ginásio-atelier no qual apenas os corpos alados ajudam a alma a voar.

    Eduarda Neves é professora, ensaísta e curadora independente. A sua actividade de investigação e de curadoria articula os domínios da arte, filosofia e política.

    A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.

    Notas de Rodapé
    1. Michel Serres — Variações sobre o Corpo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004, p. 95.
    2. Friedrich Nietzsche — La Volonté de Puissance. Paris: Librairie Générale Française, 1991, p. 401.
    3. Michel Foucault — O Corpo Utópico, as Heterotopias. São Paulo: n-1 Edições, 2013, p. 12.