O MANUAL ESTÁ EM FALTA2
TERÁS QUE CRIAR AS TUAS PRÓPRIAS REGRAS
NÃO CONFIES NOS TEUS INSTINTOS
CONFIA NAS VOZES DOS OUTROS
TALVEZ POSSAM SER MAIS IMPORTANTES QUE AS TUAS
Estas são as palavras que surgem no meu ecrã quando tento aceder a I CAN'T FOLLOW YOU ANYMORE [NÃO POSSO MAIS SEGUIR-TE], de Danielle Brathwaite-Shirley, uma obra de arte que se assemelha a um videojogo, em blacktransrevolution.com.
O jogo começa com uma pergunta:
SERIAS UM BOM LÍDER PARA A REVOLUÇÃO?
SIM / NÃO
Seria eu? E vocês, seriam? Não sei a resposta, nem o que esta poderia desencadear em seguida — mas tenho que decidir. Sem uma decisão não posso continuar.
Esta tensão entre decisão e consequências incertas é recorrente na obra de Danielle. A artista e arquivista cria obras de arte jogáveis que dependem do agenciamento do seu público. O trabalho da autora solicita algo de nós.
LIDERARÁS UMA REVOLUÇÃO
DEVERÁS DECIDIR PELO QUE LUTARÁS.
Em I CAN'T FOLLOW YOU ANYMORE, a personagem jogável é um deus transgénero negro que regressa para liderar uma revolução. Mas nem todas as obras da artista oferecem ao público a oportunidade de assumir o papel de outra pessoa.
Quando eu, enquanto autora cisgénero branca, visito o sítio blacktransarchive.com, não interpreto uma personagem — entro no arquivo na primeira pessoa. As instruções no início são claras: ESTE É UM ESPAÇO PARA PESSOAS TRANS NEGRAS — ESTE LUGAR FOI FEITO PARA NÓS.
UNCOMFORTABLE HONESTY, Danielle Brathwaite-Shirley, 2024. ©Danielle Brathwaite-Shirley
Segue-se uma pergunta:
COMO TE IDENTIFICAS?
1 IDENTIFICO-ME COMO NEGRO E TRANSGÉNERO 2 IDENTIFICO-ME COMO TRANSGÉNERO 3 IDENTIFICO-ME COMO CISGÉNERO
Dependendo da resposta, a nossa experiência no mundo dos jogos baseados no arquivo irá mudar. A artista não exclui ninguém, mas deixa claro o seguinte: este é um espaço que nos responde enquanto pessoas — tal como o mundo em que vivemos o faz. No entanto, os seus mundos são construídos a partir das vidas de pessoas transgénero negras e insistem em necessárias mudanças de perspetiva. As suas narrativas não simplificam nem nivelam identidades para agradar a qualquer pessoa, sobretudo não a norma cisgénero branca — uma construção que se apresenta como padrão.
A artista tem dito que os seus jogos são deliberadamente indelicados com o público, ou pelo menos não lhe facilita as coisas. Numa conversa na Art Basel, em 2024, referiu:
A razão pela qual utilizo motores de jogo é porque através deles podemos responder a uma pergunta realmente difícil de responder. [...] Os jogos podem oferecer-nos a possibilidade de fazer uma escolha que realmente nos deixa com um nó na garganta e com medo das repercussões que veremos mais tarde. Principalmente se estivermos num ambiente onde todos nos estão a observar.3
A tensão aumenta num espaço expositivo. Contrariamente à privacidade de um ecrã de computador portátil, onde posso jogar uma, duas, três vezes, explorar as suas possibilidades, refazer as minhas decisões e as suas consequências, algo muda quando o trabalho da artista é apresentado publicamente. De repente, já não somos meramente jogadores. Estamos visíveis. Talvez estejamos a ser julgados, talvez apenas pareça que sim — em ambos os casos as nossas decisões são reveladas. Os outros podem ver as nossas escolhas, como hesitamos e o que rejeitamos. Não estamos apenas a percorrer a lógica interna da obra, mas também a lidar com o olhar alheio, o que pode, de repente, fazer com que a nossa experiência pareça uma performance. Podemos querer vencer (se é que isso é possível), querer comportar-nos de um modo que consideramos ser "moralmente correto" ou querer permanecer fiéis a nós mesmos. Mas a artista não facilita necessariamente a conciliação de todos estes motivos. Ainda assim, precisamos de fazer as nossas escolhas, pois a obra não progride sem nós.
Apesar de os jogos poderem ser jogados individualmente, nunca me senti isolada enquanto jogava. Estes criam uma experiência profundamente social, destacando a interação entre o agenciamento individual e a responsabilidade coletiva, levando-me a refletir honestamente sobre o meu papel na união das duas. Como escreve McKenzie Wark em A Hacker Manifesto, "a gamificação das relações sociais mostra como os videojogos podem simular verdades ocultas na mentira da realidade".4 A artista agarra estas verdades e transforma-as em ferramentas de reflexão, resistência e reconstrução.
Este refazer não se inicia no presente; em vez disso, a artista e arquivista utiliza um passado recém-imaginado para criar espaços para as pessoas transgénero negras no presente e expandi-los para o futuro.
O ESPAÇO DO JOGO COMO ARQUIVO para uma esperança fugidia5
À medida que comecei a envolver-me com os aspetos arquivísticos da obra de Danielle Brathwaite-Shirley, pensei no valor das histórias — como estas moldam a nossa compreensão de quem somos e como a história dominante reduz uma multiplicidade de perspetivas a uma narrativa única e autoritária, escrita principalmente por homens brancos ocidentais. A história, como todas as histórias, é escrita a partir de um ponto de vista, e o ponto de vista dominante exclui as pessoas transgénero negras. No entanto, as histórias têm mais valor à medida que são contadas e recontadas porque nos ajudam a localizar-nos no mundo e em relação a este. Mostram-nos o que poderá ser possível, simplesmente porque já o foi para alguém como nós antes, e expandem a nossa imaginação para o quão longe poderemos ir. Mas se não formos incluídos nestas histórias, se a nossa identidade estiver ausente ou for mal representada, o mundo que elas refletem começa a estreitar-se. Torna-se um lugar onde as suas possibilidades são mais difíceis de nomear, onde o nosso futuro parece menos imaginável. A ausência não é apenas silêncio; é uma negação de presença, de precedente, de potencial. E sem histórias que nos reflitam, o ato de sonhar torna-se mais solitário e a sobrevivência mais precária.
Desde alguns dos seus primeiros trabalhos, a artista tem abordado a questão do que é recordado e do que, por sua vez, é omitido, ameaçando assim ser esquecido. Ao fazê-lo, reflete sobre o facto de que todo o arquivo — tal como os seus jogos artísticos — é composto por essas mesmas decisões. Quem é incluído? Quem está a contar a história? Em que condições? Estas questões permeiam tanto a lógica dos seus jogos como os princípios dos seus arquivos.
Os arquivos coloniais e ocidentais são locais de violência, incorporando histórias de roubo (i)material, desapropriação e desumanização. Em Resurrection Lands, a artista criou um arquivo que não é um lugar de preservação estática, mas um espaço gerador de possibilidades — para as pessoas transgénero negras se inserirem numa narrativa construída em proximidade relativamente às suas identidades, centralizando a sua negritude e transgeneridade, construindo sobre a sua essência e sentimentos humanos, deixando simultaneamente espaço para nuances individuais. Mantém-se vivo — não omnisciente, mas tangível e responsivo, abrindo assim possibilidades de cura à medida que nos acolhe, permitindo que nos tornemos parte dele. Permite que estejamos presentes na sua história. A artista inicia frequentemente tais histórias com um regresso: o de antepassados, deuses e memórias de pessoas transgénero negras. Nesta noção de retorno há uma persistência silenciosa mas que revela um imenso poder: eles estiveram aqui. Eles existiram.
CAN A WOMAN HAVE A VOICE THIS LOW, Danielle Brathwaite-Shirley, 2024. ©Danielle Brathwaite-Shirley
DEPOIS DE DESCOBRIRMOS A TECNOLOGIA PARA DIGITALIZAR A TERRA E TRAZER DE VOLTA AS VOSSAS MEMÓRIAS ENTERRADAS NA SUA HISTÓRIA
DECIDIMOS TRAZER-VOS DE VOLTA
PENSÁMOS COMO SERIA POSSÍVEL ARMAZENAR-VOS NUM MUNDO QUE OUTRORA VOS TINHA APAGADO
A ressurreição torna-se uma forma de resistência não só ao apagamento, mas à ideia de que a história se move numa única direção.
ENTÃO CONSTRUÍMOS ESTE LUGAR. AS TERRAS DA RESSURREIÇÃO.
UM ARQUIVO CONCEBIDO PARA VÓS POR OUTROS COMO VÓS
E, PASSADO UM TEMPO, AS VOSSAS MEMÓRIAS COMEÇARAM A FORMAR CORPOS E A FALAR
TRAZENDO-VOS DE VOLTA PARA NÓS
A memória não permanece incorpórea, forma antes uma nova presença.
O arquivo, portanto, não é apenas um registo, mas também um ato de reanimação. Uma recusa do esquecimento e uma reentrada na existência. As obras da artista insistem que estas memórias não são abstratas; em vez disso, são corpo, voz e movimento. Não repousam silenciosamente numa prateleira; regressam para falar. No entanto, este espaço em si não é poupado. Em Resurrection Lands, o turismo transgénero negro começa a disseminar-se, devorando o arquivo, comercializando as suas identidades. O que foi criado como um lugar de refúgio torna-se novamente vulnerável. Portanto, a questão desloca-se para mim, o "jogador”, aquele que tenta visitar esta terra: quem somos nós para nela entrar e quais são as nossas intenções?
No processo de desenvolvimento das artes jogáveis, a artista colabora frequentemente com uma equipa de programadores e criadores transgénero negros. Sendo muito reflexiva sobre a sua prática, explica que, uma vez que algo é feito e criado, tem que entrar na obra final. Isto reflete uma tensão central inerente ao arquivo: a impossibilidade de inclusão sem exclusão. Além disso, as suas obras desafiam a perfeição estética. O estilo é deliberadamente duro e não refinado, rejeitando a suavidade e a clareza dos jogos comerciais. A obra não existe para ser bela, mas para fazer algo por nós — e talvez transformar-nos. A obra, o arquivo, precisa de ter alma, como insiste a artista. Deve ter uma razão para existir.
À medida que o clima político em relação às pessoas transgénero se torna cada vez mais hostil, o trabalho da artista responde com ainda maior urgência, tornando-se mais público e mais firme nas suas exigências.
Em Trans & Conditions, criado em colaboração com a plataforma cultural CIRCA, o seu trabalho ganhou destaque no espaço público através de um painel publicitário digital colocado em Piccadilly Circus. Todas as noites, o glamour comercial habitual era interrompido por súbitos campos repletos de mensagens de erro ao estilo da antiga Microsoft Windows. Diziam:
AÇÃO NECESSÁRIA
USE A SUA VOZ PARA PROTEGER OS OUTROS
AÇÃO REQUERIDA
AJA AGORA
QUER MANIFESTAR-SE POR AQUELES QUE ESTÃO A PERDER OS SEUS
DIREITOS?
FALHA NO SISTEMA
AVISO
O SISTEMA FALHOU. USE A SUA VOZ PARA O REINICIAR!
…
IF I KEEP MY EYES CLOSED, Danielle Brathwaite-Shirley, 2025. ©Danielle Brathwaite-Shirley
Foi uma reação à decisão do Supremo Tribunal do Reino Unido, que definiu o termo "mulher" de uma forma que excluía as mulheres transgénero.
O trabalho continua online e acessível a todos. Em transandconditions.com, os visitantes são convidados a fornecer os seus nomes completos. É um gesto que pode parecer limitado, mas numa época em que o anonimato distante define as nossas vidas digitais, carrega um peso inesperado. Este ato de nomear liga a presença à responsabilidade, pois transforma a navegação passiva numa declaração ativa: Estou aqui e escolho agir. A partir daí somos direcionados através de uma série de perguntas. Embora estas pareçam simples tive de parar e tomar algum tempo para encontrar as palavras certas. O que estou disposta a fazer para proteger a vida das pessoas transgénero? Cada resposta torna-se parte de uma carta. Esta apresenta o meu nome e não é dirigida a uma instituição sem rosto, mas pode ser enviada ao vosso deputado se viverem no Reino Unido — e todas estas cartas são publicadas no sítio da internet, criando um arquivo público de solidariedade.
Danielle Brathwaite-Shirley dá continuidade a este compromisso com a capacidade de ação do público na sua exposição na Serpentine North, cuja peça central é um jogo desenvolvido ao longo de um ano em colaboração com mais de 60 artistas, tecnólogos e pensadores. O espaço expositivo torna-se, assim, um campo experimental dinâmico e um arquivo em constante evolução. Inspirado pelos jogos retro, pela exploração da democracia digital e pelas comunidades online, rejeita a mera condição de espectador e aprofunda a questão do que acontece quando a obra de arte não só recorda por nós, como também recorda connosco.
A prática arquivística da artista não visa completar a história, mas resistir às suas exclusões. Os seus mundos digitais contêm histórias não como registos, mas como forças vivas que solicitam a continuidade das ações. Especialmente agora, no momento em que o nosso consumo de redes sociais acarreta o perigo de a visibilidade se tornar um substituto para o envolvimento real, sublinha que não basta ser uma mera testemunha. As suas obras de arte jogáveis não são experiências passivas ou entretenimento; têm alma porque estão enraizadas nas realidades vividas pelas pessoas transgénero negras e moldadas pelas escolhas que todos fazemos repetidamente.
A artista afirma, assim, uma esperança fugidia, mas urgente. Não uma utopia, antes uma responsabilidade: a de expandir os mundos que constrói, dar-lhes espaço, para que a sobrevivência entre eles não exija fuga. Porque, por vezes, a questão mais urgente não é se uma história aparecerá num livro de História ou será confirmada como um facto, mas se poderá, de todo, ser contada — se poderá respirar, ser ouvida e tomada como verdadeira. Estes mundos, com as suas histórias, transportam não só as memórias do que foi, mas a possibilidade do que poderá voltar a ser.
Imagem de Capa
THE DELUSION, Danielle Brathwaite-Shirley, 2025. Comissionado e produzido por Serpentine Arts Technologies. © Danielle Brathwaite-Shirley. Foto: Hugo Glendinning.
Nota da autora: A “esperança fugidia”, tal como teorizada no feminismo transgénero negro, designa um modo de sobrevivência e futuridade que emerge precisamente de condições de abandono. Não se baseia na promessa de reconhecimento estatal ou de protecção institucional, mas antes no que Marquis Bey descreve como uma “recusa de nos resignarmos”, uma vontade de viver, imaginar e persistir mesmo quando todas as estruturas estão alinhadas contra essa possibilidade. Enraizada nas tradições negras radicais e transgénero fugidias, esta esperança não é redentora, não procura corrigir ou reparar o sistema, mas especulativa e insurgente, vislumbrando modos alternativos de relação, identidade e existência fora da legibilidade e do controlo. Definição de: Bey, Marquis (2022). Tradução livre.
- BEY, Marquis (2022), “Conclusion: Hope, Fugitive”, in Black Trans Feminism. Nova Iorque: Duke University Press, pp. 199–228. Tradução livre. https://doi.org/10.1515/9781478022428-009
- Tradução livre.
- ART BASEL (2025), “Building utopias: What do we dream of?”, disponível em: https://www.artbasel.com/stories/building-utopias-what-do-we-dream-of. Tradução livre.
- WARK, McKenzie (2004), A Hacker Manifesto, Cambridge: Harvard University Press. DOI: https://doi.org/10.2307/j.ctvjz82nr. Tradução livre.