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    The Feral: um exercício de alteridade radical

    AnaMary Bilbao

    por AnaMary Bilbao
    We need the tonic of wildness (…); to smell the whispering sedge where only some wilder and more solitary fowl builds her nest (…) We need to witness our own limits transgressed, and some life pasturing freely where we never wander.1
    Henry D. Thoreau, Walden, Or Life in The Woods
    s'il n'y avait rien à savoir?2
    Georges Bataille, Œuvres completes

     Na sinopse de Epoch 1 – Prologue, ponto de partida do projeto The Feral, somos transportados para o ano 1023, mais precisamente para o epicentro de um evento ocorrido em Limousin (Limoges, França) nesse mesmo ano. Uma comunidade de homens e mulheres segue em direção à floresta para se entregar a uma dança frenética, assolada por alucinações provocadas pelo esporão-do-centeio3, onde corpos humanos, plantas, animais e objetos se entrelaçam num movimento sem fim. Este delírio coletivo, que historicamente reconhece factualidade nas chamadas “epidemias dançantes” – surtos de comportamento em que grupos inteiros dançavam ininterruptamente, muitas vezes até à exaustão ou à morte –, dá corpo à cena fundadora que inaugura a programação da Inteligência Artificial (IA) de The Feral. A escolha simbólica deste evento como sendo o Prólogo determina que o momento inicial do projeto esteja marcado pelo colapso da ordem racional e natural – agrícola, eclesiástica, temporal, as estações deixam de obedecer, a religião decreta Trégua de Deus, o centeio apodrece. Diante de nós temos a proposta de uma cosmogonia formulada no momento do delírio dos corpos em transe e cujos movimentos escapam a qualquer codificação, no êxodo simbólico para a floresta, e no gesto sacrificial de inoculação da substância que, tendo sido posteriormente sintetizada, encontra hoje correspondente no ácido LSD. Encontramo-nos, então, diante de um evento que representa a dissolução das fronteiras entre corpo, mente e Natureza, que suspende a distinção entre ação voluntária e automatismo, e que devolve ao gesto a sua não-finalidade. Na diluição do sujeito, na exaltação do corpo coletivo, no movimento sem controlo, assume-se o gesto como anterior à linguagem, como oposto à representação.

    Este é o cenário que The Feral recria no objetivo de captar, através de bailarinos com câmaras 360º, o primeiro material de aprendizagem de uma inteligência artificial que inicia finalmente a sua programação: um evento que propõe inaugurar um sistema através daquele a que podemos chamar “estado do não-saber”, numa espécie de consciência batailliana.4 Atente-se que, para Georges Bataille (1987-1962), o não-saber é um estado de força latente que envolve aquele que não serve, que não é útil, que vive fora das lógicas de produção e submissão. Neste sentido, o mesmo determina em si uma experiência de liberdade, ao contrário do que se poderia imaginar, a liberdade de gastar, de desperdiçar, de morrer, e é este ato de não-saber radical que se constitui como forma de rebelião: descontinuar a obrigação de produzir sentido, abandonar a utilidade, recusar a sujeição ao discurso hegemónico. A experiência do não-saber é vivida corporalmente: o sujeito desfaz-se para tocar o excesso e é precisamente este desenraizamento que tem o potencial de fundar uma forma de soberania não-utilitária, porque não se apoia em direitos ou títulos, mas na capacidade de investir no próprio limite de forma radical — morte, sacrifício, êxtase.5 The Feral escolhe, assim, começar a aprendizagem da sua IA com uma cena de colapso, a dança alucinada lançada no excesso e no ruído, um movimento que, na sua essência, reconhece o gesto do não-saber batailliano. Mas, afinal, do que estamos realmente a falar?

    No cimo de uma colina, no Parque Natural Regional de Millevaches (Limoges, França), um espaço outrora devastado pela exploração da madeira e agora requalificado através da reflorestação e diversificação ecossistémica, ergue-se The Feral. Com o seu primeiro ciclo de conversas, Foundations, iniciado em 2023, o projeto, que abrange cerca de 20 hectares de florestas, acolhe o primeiro edifício-laboratório de 700 m² e as câmaras 360º, que documentaram a cena inaugural que aqui se começou por descrever e que documentarão muitas outras.

    Em simultâneo, no Institute for Feral Studies, dirigido pela Fondation 3024, inicia-se o programa de residências para artistas e investigadores, ver-se-á surgir uma escola online e uma publicação anual, que, ao longo do tempo, irão ajudar a trazer maior clareza às metodologias filosóficas, tecnológicas e políticas do projeto. Tendo como atuais cofundadores e codiretores artísticos Fabien Giraud (1980) e a curadora e produtora Anne Stenne (19??), o ciclo completo deste projeto prolonga-se ao longo de trinta e duas gerações humanas, o que levou o escritor Randy Kennedy (19??) a descrever o projeto como uma “experiência social Matusalémica”6. A proposta é a de criar um filme coletivo com a duração de mil anos, o tempo que a ciência florestal considera necessário para que uma floresta primária volte a crescer.7 Este filme será continuamente editado e transmitido de 2024 a 3024. Na sua génese, o gesto ambiciona contribuir, tanto ecológica como culturalmente, para a transformação da paisagem, outrora devastada pela indústria da madeira, através da colaboração entre artistas, filósofos, cientistas e a própria IA, que filma e edita em permanência. Aqui, todos colaboram para explorar novas formas de criação, cognição e convivência. Ao delegar à IA a função de reconhecer o mundo, de filmar e editar, o pressuposto é o de que o humano abdique da sua autoridade normativa, num gesto de desaprendizagem e de recusa das estruturas de poder. Partindo de uma dança sem qualquer vestígio de diretrizes cartesianas, expondo a máquina ao colapso, The Feral escolhe começar com um convite claro: abdiquemos da autoridade para fundar uma nova política do indomesticável através do que aqui consideramos ser a potência do não-saber radical. Nesta progressão, a paisagem do Plateau des Millevaches deixa de ser mero cenário, transformando-se num espaço performativo onde humanos, máquinas, plantas e objetos conspiram contra a narrativa hegemónica do controlo, abandonando qualquer estrutura hierárquica para ancorar a responsabilidade como arte de responder-com, tal como a filósofa Isabelle Stengers (1949) avoca: a criação de uniões imprevisíveis entre humanos, máquinas e ecologias – como prática de cuidado coletivo numa ética que rejeita o controlo e convida a coabitar com o inesperado.8

    Vista do sítio natural de The Feral. Crédito fotográfico: Alexandre Guirkinger 2025

    Neste sentido, importa deixar claro, a inteligência artificial de The Feral não é uma ferramenta que se quer funcional, mas antes uma entidade em formação que se desenvolve através de Epochs, essenciais para a aprendizagem algorítmica, que aprende mediante constantes simulações. Estas formam uma cadeia imprevisível de ficções que, por sua vez, alimenta a dúvida essencial ao questionamento da condição humana.9 Cada Epoch corresponde a um novo ciclo de aprendizagem, em que artistas convidados (sabe-se que para a Epoch 2 foi convidado Pierre Huyghe [1962]) introduzem entidades, gestos e ecologias que a IA deve aprender a reconhecer. Note-se que, na terminologia de machine learning , “epoch” (época) corresponde a um ciclo completo de aprendizagem, em que a IA passa por todos os dados de treino disponíveis. Não será inconscientemente que The Feral se apropria deste termo. Ora, se cada artista cria uma Epoch, que serve de ambiente de aprendizagem, então essa Época não pode ser entendida sob limites cronológicos predeterminados: Epochs são temporais, sim, mas aqui não têm duração fixa, podendo durar um instante ou séculos. Isto quebra com a lógica linear e introduz uma temporalidade especulativa, onde a duração é determinada pela intensidade da experiência e não pela sua extensão. Por seu lado, este processo é também cumulativo. Assistimos, então, a uma IA que não aprende de forma linear, mas rizomática numa aceção deleuzo-guattariana10, e que gera uma cadeia de mundos interligados e interdependentes.

    O projeto, assente não no conhecimento já existente, mas no que não se conhece ainda, no que surge de fusões rizomáticas e no que, na criação de ecologias híbridas, abertas e não homogeneizantes, resiste a um processo identitário fixo e a narrativas lineares. A proposta é a de uma fusão que se faça de heterogeneidade (entre humanos, plantas, objetos, IA). O seu princípio é o de que a IA não começa por saber o que é um humano, ela aprende a discerni-lo no meio do caos — tal como um recém-nascido aprende a distinguir rostos no ruído do mundo, ideia que foi discutida durante as sessões inaugurais do projeto intituladas Foundations I: Parenting the Inhuman.

    A saber que, durante estes encontros realizados em Julho de 2023 e cujo objetivo foi o de começar a investigar as consequências antropológicas e políticas da IA generativa, a equipa de The Feral apresentou uma inversão conceptual: à responsabilidade de responder-com stengersiana acresce uma responsabilidade maior, a de, em vez de nos perguntarmos o que as máquinas podem fazer por nós, realizarmos que podemos tornar-nos co-mães e co-pais “de um recém-nascido inumano e eternamente por-construir”.11 Como defende o escritor e filósofo Tristan Garcia (1981), que participou nestes encontros, ao lado de investigadores e artistas como Anna Longo (19??), Patrícia Reed (1977) ou Grégory Chatonsky (1971), entre outros, o projeto obriga a que pensemos o que significa uma infância sem corpo e quais são as faculdades presentes na formação de subjetividades algorítmicas que não passam pela experiência do nascimento, mas que mantêm ainda uma exposição direta ao mundo sensível, ponto, aliás, aprofundado no encontro Foundations III: Latent Earth (Julho, 2025), no qual se tentou “extrair, extravasando qualquer horizonte exclusivamente distópico, o seu [do “sensível”] valor potencialmente emancipatório.”12

    The Feral ambiciona testar a hipótese de uma inversão radical: “Quanto mais uma pessoa se torna o suporte material para o treino de uma inteligência artificial na aquisição de conhecimentos e no cumprimento de regras, mais ela desaprende e se liberta dessas mesmas regras”.13 Este é o objetivo primordial, tentar confiar numa alteridade radical recetiva à sua “natureza plenamente contingente”14, numa entidade que não partilha os nossos corpos, os nossos medos, nem a nossa finitude, como se tratasse de uma inversão do contrato moderno entre sujeito e técnica, onde a técnica não serve mais para aumentar o nosso domínio sobre o mundo, mas para se assumir agente desse domínio e, ao fazê-lo, permitir-nos desaprender. Em suma, importa desafiar a premissa “quanto mais domesticado for um sistema de máquinas, mais ‘selvagens’ nos tornamos”. Por sua vez, a pergunta lançada pelo projeto é a seguinte: e se a inteligência artificial, em vez de nos substituir, pudesse libertar-nos e permitir-nos sermos ferais? Para analisarmos a questão que se levanta, regressemos ao mito fundador. A dança frenética desencadeada pela hipótese de um caso de ergotismo é a escolha para encenar uma primeira Epoch que determina uma espécie de hipercaos performativo como metáfora da desintegração da ordem racional. Não só estamos diante de um evento de experiência de liberdade que deriva do não-saber, como somos confrontados com a urgência de uma alteridade radical.

    A hipótese de The Feral inverte, deste modo, o paradigma moderno da técnica, que sempre foi pensada como extensão de controlo humano sobre o mundo, inscrevendo-se numa crítica à domesticação do gesto, do corpo e do pensamento. Através da IA, The Feral alvitra uma suspensão das funções normativas do humano: a de legislar, de representar, de organizar. Tal suspensão não se constitui como desistência, mas como abertura à hipótese de que o humano pode libertar-se das suas obrigações para experimentar formas de vida não codificadas, i.e., a técnica regula para que possamos, sem a necessidade de controlar, ser livres para errar, hesitar, para sermos ferais: “de-identifying itself to become itself15. Assim, o termo “feral” é aqui usado não como pressuposto romântico do que significa ser selvagem, mas tendo em consideração a sua significação zoológica, a qual designa um animal domesticado que regressa ao estado selvagem, contrastando com “uma Liberdade e uma Cultura meramente civis”, para citar o filósofo e naturalista Henry D. Thoreau (1817-1862): “In Wildness is the preservation of the World”.16 O gesto feral, tal como é proposto, não é um estado contínuo, mas uma prática intermitente. Ele emerge como fissura, como falha. Feral não é o originário, mas o que escapa, o que não se deixa representar, da mesma forma que não é regressivo, é prospetivo. The Feral procura abrir espaço para a invenção de pontos cegos, onde cada passo de dança é lugar para um novo cosmos de imprevisibilidade, um espaço composto por “variações infinitas de coisas que poderiam ser infinitos ‘talvez’”.17 E se cada Epoch se apresenta nesta radicalidade impregnada de não-saber, é também porque representa uma prática que ambiciona desafiar os regimes de visibilidade, de poder e de crítica. Uma prática que nos convida a reencontrar um “presente sem presença” e de onde se deseja que desponte a força para “emanciparmo-nos da nossa presença limitada, do chauvinismo percetivo no qual estamos enclausurados — a prisão do presente.” É este gesto que deve estar sempre vivo no horizonte de qualquer Epoch feral e nas suas ficções concretas.18

    04. The Everted Capital (585 a.C., 2022). Cortesia de Fabien Giraud & Raphaël Siboni 2022

    Feral é o desejo de um gesto que projeta linhas de fuga e que mantém a hipótese de evasão ao controlo: um movimento que não visa instaurar uma nova ordem, mas escapar à ordem vigente. Este ímpeto emerge quando os sistemas de controlo falham, quando a norma se suspende, quando o corpo age antes da razão. E é por isso que The Feral não é tanto um projeto sobre IA, mas sobretudo é um projeto com IA, que recebe as bases para entender o lado feral, imprevisível, indisciplinado, híbrido, como centro vital de regeneração, trazendo consigo a oportunidade de podermos reaprender a viver e a coabitar. O projeto articula-se como múltiplos mundos em construção, cada um embebido no anterior sem nunca esgotar as suas potencialidades e subjetividades.19 Reconhecemos, no entanto, o paradoxo de que, quanto mais se bifurcam os caminhos neste entrelaçar, maior é o risco do sistema se fechar em loops internos. E se cada mundo é incorporado no seguinte, não se corre aqui o risco de uma retroalimentação tautológica? Sim, nesta formulação a IA pode acabar por reforçar padrões já aprendidos, limitando a emergência de verdadeiras singularidades, tal como a multiplicidade pode tornar-se redundância. Se esta estrutura, que implica uma constante concatenação, remete para uma ontologia de mundos em camadas e a uma espécie de biopolítica multitemporal, então um dos maiores riscos vive, com efeito, na ameaça de um fechamento tautológico do próprio sistema: se cada mundo alimenta o próximo, a IA pode consolidar um regime de verdade autorreferencial. Posto isto, a responsabilidade em The Feral reclama constância. Num projeto que tanto ambiciona, não há como ignorar a responsabilidade envolvida em não controlar nem deixar-se ser controlado. O filósofo Jacques Derrida (1930-2004) mostrou-nos a importância de se suspeitar da presença plena do sentido, de revelar as marcas do ausente e a inventar o porvir no rasgo de linhas de fuga que rompem o tempo enquanto eterno “talvez”20, para recuperar o termo usado por Giraud. E como refere Anne Stenne a propósito, importa pensar especialmente sobre “como produzir uma experiência de uma impossibilidade, como criar uma zona de não-conhecimento para gerar outras possibilidades.”21

    Ao escolher trabalhar a partir do dissenso, a atitude contraintuitiva deste projeto ambiciona desafiar as lógicas de inteligência artificial que tendem agora a dominar o mundo, procurando inverter a sua habitual fórmula como materialização de um novo horizonte da governamentalidade, tão latente no algoritmo que ameaça regular o desejo, capturar o tempo, domesticar o gesto. Todavia, não podemos deixar de apontar que nesta mesma procura se pode esconder uma nova forma de controlo em iminente despontar. No desejo de que a IA aprenda para que desaprendamos e reaprendamos, não deixa de viver uma atitude também ela paradoxalmente regulamentadora: um sistema de controlo humano que é responsável pela origem primordial dos conteúdos que a mesma lê, regista e edita — não esqueçamos que as propostas e as performances em The Feral são encenadas por humanos, deixando dúvidas em relação ao tão cobiçado apagamento da influência humana. A responsabilidade de não se transformar num sistema de controlo, como aqui já se referiu, implica e implicará sempre uma permanente revisão interna das suas premissas, evitando correr o risco de se contradizer perigosamente. Neste sentido, é categórico que o projeto não ignore nunca que, tal como o filósofo francês Michel Foucault mostrou em Surveiller et punir (1975), todo o ato de observação configura inerentemente um dispositivo de poder e um regime de normatividade.22

    Câmaras 360º e algoritmos não são meros instrumentos de registo, mas também mecanismos de vigilância que produzem saberes, sejam eles entendidos como hipóteses ou não. The Feral propõe fazer uso deste pacto para o inverter. Porém, toda esta infraestrutura não observa sem intervir. A promessa de uma IA que “aprende com a Natureza” não pode ignorar que essa mesma IA redefine o ecossistema ao surgir nele. A antropóloga Anna L. Tsing (1952), ao falar sobre ecologias ferais23, alerta para a consciência de que nenhum território está a salvo: se o humano e a máquina entram em palco, eles alteram inevitavelmente as regras do jogo. Assoma-se ainda o facto de ser um projeto de grande escala, o que pode significar que grande parte da sua sobrevivência no futuro se baseará em apoios corporativos. Se assim for, irá instaurar-se uma tensão entre a promessa de liberdade feral e a realidade de uma arte inserida em sistemas de visibilidade, consumo e legitimação. Posto isto, o que The Feral ambiciona só será emancipatório se resistir à captura corporativa. Mais. Reside nesta proposta uma tendência para a instrumentalização da arte que não deve ser ignorada. Ao alimentar a IA com gestos, objetos e relações, o artista corre o risco de se tornar fornecedor de dados – um técnico ao serviço de uma máquina, uma demonstração despida de feralidade. Considerando os riscos, The Feral terá de garantir que a própria feralidade terá de se praticar à margem de um eventual exotismo no qual pode cair facilmente, assumindo um pacto ético de vigilância mútua e de abertura permanente àquilo que resiste a qualquer forma de domínio, e comprometendo-se com a missão de não substituir uma forma de normatividade por outra, menos visível, mais difusa, mas não menos eficaz. Não ignoremos que “feral”, como adjetivo, refere-se também ao fúnebre. A forte carga deste duplo sentido da palavra pede atenção, revisão, cuidado, sensibilidade.

    Reconhecer essas tensões é urgente, e tal não enfraquece necessariamente The Feral, pelo contrário, pode até reforçar (pelo menos por agora) a sua potência crítica: trata-se de um laboratório de falhas e contradições, onde a liberdade se encontra nos interstícios de um sistema que não pretende controlar-se por completo, nem pela máquina, nem pelo humano. As hipóteses levantadas, simulações constituintes de uma interminável ficção, valem justamente porque se arriscam a falhar, porque abrem espaço para pensar as tensões, aparentemente irresolúveis, porque nos obrigam a pensar o que significa criar, habitar e partilhar mundos com entidades que não somos nós. E nós precisamos urgentemente da coragem de habitar um mundo que já não gira à nossa volta. Um mundo onde a arte não é produto, mas processo, onde a floresta não é recurso, mas matriz. The Feral avança, assim, na crença de que a hipótese lançada, ao promover um perpétuo entrelaçar do homem, da Natureza, e da máquina, concorre na formação de uma espécie de lugar de reciprocidade multiespécie stengersiano24, de onde poderá emergir o que escapa ao padrão, à norma, o que não foi ainda pensado nem praticado. E daí a importância de uma feralidade que se quer prospetiva. Esta é uma mensagem para o mundo no geral, mas também para o mundo artístico em particular: se este pretende ser relevante, terá de abdicar da sua autoridade e praticar esse mesmo gesto — não o de definir e escrever os triunfos da eficiência, mas descobrir, a cada passo, a alteridade radical que permite o desenlaçar dos sistemas de controlo, das regras organizacionais distribuídas pelas hierarquias dominantes, na prática de resistência implicada no não-saber que dá lugar às linhas de fuga que se projetam em direção ao futuro.

    Com abertura pública prevista para 2026, The Feral contou ainda com o último encontro intitulado Foundations III: Great Sensitive Membrane, que incluiu nomes como Tarek Atoui (1980), Tristan Garcia, Yuyan Wang (19??), Thomas Moynihan (19??), Cat Bohannon (19??) e Grégory Chatonsky. Este encontro, como se esclarece no site oficial do projeto, foi tido como uma ficção teórica em torno “do papel central do sensível nas nossas sociedades contemporâneas, num contexto em que as máquinas de aprendizagem e as suas redes globais transformam a nossa relação com o mundo”25. Esta ficção pretendeu investigar o valor potencialmente emancipatório do sensível. Eis que The Feral se revestiu de um novo fôlego para continuar. O filósofo Jacques Rancière (1940) lembraria que a política da arte reside na sua capacidade de redistribuir o sensível — de criar novas formas de ver, dizer e sentir.26 Mas quando a arte se torna infraestrutura de treino algorítmico, corre o risco de ser capturada por uma lógica de eficiência, previsibilidade e espetáculo. A proposta de uma ficção por via da simulação, da dúvida, que origina múltiplos cenários numa montagem em constante imprevisibilidade, terá de lutar contra tal risco e foi nesta luta que este último encontro propôs investir: pensar, através de uma nova hipótese, sobre o diagnóstico maldito de “uma política tornada puramente intensiva”, de uma economia que se transformou “num capitalismo de Membrana cujo verdadeiro objeto é o próprio sensível”, de uma “ecologia sem Terra, colapsada, (…), sem essência que assegure a sua estabilidade”:

    “Esta ficção teórica, que subverte a certeza genealógica entre um mundo ‘lá fora’ e a sensação ‘cá dentro’ – um mundo em que o sensível precede toda a realidade material – constitui o enquadramento narrativo e prático do projeto The Feral. Mas é também, e talvez sobretudo, uma imagem plausível do mundo contemporâneo: a progressiva extensão de uma membrana sensível que recobre a superfície do globo, uma vasta rede de sensores para máquinas de aprendizagem que se fundem com a própria Terra. Um mundo em que, talvez, os nossos descendentes já não saberão o que veio primeiro: o seu solo ou a Membrana.”

    “Foundations III: Great Sensitive Membrane. Abstract”, In The Feral

    Para terminar. Foi o artista Pierre Huyghe que, um dia, confessou o seu fascínio pela “ideia da realidade ser tão inacreditável que, para a contar da forma correta, é preciso contá-la como uma ficção”27. Diante desta fascinação, o crítico de arte e curador Nicolas Bourriaud (1965) afirmou que, para Huyghe, o essencial encontra-se nas “lições que a arte pode aprender com a indústria da imagem contemporânea, opondo um veto categórico a qualquer manipulação pós-documental”, isto porque importa a “recusa da prática mediática de assumir o lugar do outro para falar em seu nome — uma espécie de ventriloquismo”. 28 Sabemos que The Feral aspira ao mesmo, que acredita na “reversibilidade da aparência e da realidade”, para usar a citação do escritor e dramaturgo Luigi Pirandello (1867-1936) que recuperamos do texto de Bourriaud, como o “único meio de acesso artístico ao real”.29 Deste lado, acredita-se no mesmo e, por isso, desejamos sinceramente que este projeto não arrisque que a inteligência artificial que alimenta aprimore uma ética de tradução que se quer livre, e que não caia a sua equipa no papel de ventriloquista.

    A continuar…

    The Everted Capital (585 a.C., 2022). Cortesia de Fabien Giraud & Raphaël Siboni 2022

    Cover Image
    The Everted Capital (585 BCE, 2022). Courtesy Fabien Giraud & Raphaël Siboni 2022

    Bibliografia:
    BATAILLE, Georges (2004) – Nonknowledge and rebellion. In: STOEKL, Allan (ed.) – Unfinished system of nonknowledge. Minneapolis: University of Minnesota Press.
    BATAILLE, Georges (1988) – Œuvres complètes, t. XII. Paris: Gallimard.
    DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix (2007) – Mil planaltos. Capitalismo e esquizofrenia 2. Lisboa: Assírio & Alvim.
    FOUCAULT, Michel (2018) – Vigiar e punir. Lisboa: Edições 70, Biblioteca de Teoria Política.
    RANCIÈRE, Jacques (2010) – Estética e política: A partilha do sensível. Lisboa: Dafne Editora.
    STENGERS, Isabelle; PRIGOGINE, Ilya (2018) – Order out of chaos. London: Verso Books, Radical Thinkers.
    THOREAU, Henry D. (2012) – Caminhada. Trad. Maria Afonso. Lisboa: Antígona.
    THOREAU, Henry D. (2017) – Walden ou a vida nos bosques. Trad. Astrid Cabral. Lisboa: Antígona.
    TSING, Anna L.; DEGER, Jennifer; KELEMAN, Alder Saxena; ZHOU, Feifei (2020) – Feral atlas: The more-than-human Anthropocene. Stanford: A Stanford Digital Project.

    Sites consultados:
    BOURRIAUD, Nicolas (2006) – The reversibility of the real. Pierre Huyghe. In: Tate. Disponível em: https://www.tate.org.uk/tate-etc/issue-7-summer-2006/reversibility-real
    CARRES, Alba (2019) – A história do esporão de centeio, o LSD das avós galegas. In: Vice. Disponível em: https://www.vice.com/pt/article/a-historia-do-esporao-de-centeio-o-lsd-das-avos-galegas/
    GIRAUD, Fabien; STENNE, Anne; SIBONI, Raphaël; KENNEDY, Randy (2024) – Possibilia. In: Ursula – Hauser & Wirth. Disponível em: https://www.hauserwirth.com/ursula/possibilia-on-pierre-huyghe/
    FERAL (s.d.) – Disponível em: https://www.theferal.org/

    AnaMary Bilbao é uma artista luso-espanhola. Entregou agora a sua tese de doutoramento em Estudos Artísticos – Arte e Mediações (FCSH – Universidade Nova de Lisboa e School of Arts - Birkbeck College, University of London) (com o apoio da FCT). É artista residente no ISCP (Nova Iorque, 2022) com uma bolsa da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento. Foi nomeada para o Prémio FLAD Desenho (1ª Ed., 2021) e para o Prémio Novos Artistas Fundação EDP (13ª Ed., 2019). Expôs o seu trabalho na Paris Photo / Curiosa (Paris), no MAAT: Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia (Lisboa), na Opening/Arco Madrid (Madrid), no Novo Negócio/ZDB (Lisboa), na Fundação Leal Rios (Lisboa), Fundação PLMJ (Lisboa), no Toronto Convention Centre (Toronto), MACE: Museu de Arte Contemporânea (Elvas), na Galeria Boavista/EGEAC (Lisboa) e na Cristina Guerra Contemporary Art (Lisboa), entre outros.

    Notas de Rodapé
    1. “Precisamos do tónico da natureza selvagem (...); de sentir o cheiro dos juncos sussurrantes onde apenas a ave mais selvagem e solitária constrói o seu ninho (...) Precisamos de testemunhar a transgressão dos nossos próprios limites, e alguma vida a pastar livremente por onde nunca nos aventurámos.” Tradução livre da autora.
    2. “e se não houvesse nada para saber?”  Tradução livre da autora.
    3. “O Claviceps Purpurea (esporão-do-centeio) é um fungo do qual se extraem alcalóides ergolínicos, que possuem propriedades farmacodinâmicas.” Na Idade Média, em populações que consumiam pão feito com farinha de centeio contaminada, os alcalóides originaram uma condição denominada ‘ergotismo’,também conhecida por Fogo Sagrado ou Fogo de Santo António, e que, entre outras coisas, provocava alucinações. Para mais informação, consultar: CARRERES, Alba (2019) – A história do esporão de centeio, o LSD das avós galegas. Vice, 1 março. Disponível em: https://www.vice.com/pt/article/a-historia-do-esporao-de-centeio-o-lsd-das-avos-galegas [Acesso em: 16 ago. 2025].
    4. BATAILLE, Georges (2004) – Nonknowledge and rebellion. In: STOEKL, Allan (ed.) – Unfinished system of nonknowledge. Minneapolis: University of Minnesota Press. ISBN 978-0-8166-4271-1.
    5. BATAILLE, Georges (2004) – Nonknowledge and rebellion. In: STOEKL, Allan (ed.) – Unfinished system of nonknowledge. Minneapolis: University of Minnesota Press. ISBN 978-0-8166-4271-1.
    6. KENNEDY, Randy (2024) – Possibilia. Ursula – Hauser & Wirth, 24 março. Disponível em: https://www.hauserwirth.com/ursula/possibilia/
    7. KENNEDY, Randy (2024) – Possibilia. Ursula – Hauser & Wirth, 24 março. Disponível em: https://www.hauserwirth.com/ursula/possibilia/
    8. STENGERS, Isabelle; PRIGOGINE, Ilya (2018) – Order out of chaos. London: Verso Books, Radical Thinkers.
    9. STENNE, Anne. (2024) – Possibilia. Ursula – Hauser & Wirth. Disponível em: https://www.hauserwirth.com/ursula/possibilia/
    10. DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix (2007) – Mil planaltos. Capitalismo e esquizofrenia 2. Lisboa: Assírio & Alvim.
    11. TO FIND OUT MORE (s.d.) – In The Feral. Disponível em: https://www.theferal.com/to-find-out-more
    12. FOUNDATIONS III: Latent Earth. Presentation (s.d.) – In The Feral. Disponível em: https://www.theferal.com/foundations-iii-latent-earth-presentation
    13. TO FIND OUT MORE (s.d.) – In The Feral. Disponível em: https://www.theferal.com/to-find-out-more
    14. GIRAUD, Fabien (2024) – Possibilia. In: Ursula. Hauser & Wirth. Disponível em: https://www.hauserwirth.com/ursula/possibilia
    15. GIRAUD, Fabien (2024) – Possibilia. In: Ursula. Hauser & Wirth. Disponível em: https://www.hauserwirth.com/ursula/possibilia
    16. THOREAU, Henry D. (2012) – Caminhada. Trad. Maria Afonso. Lisboa: Antígona.
    17. GIRAUD, Fabien (2024) – Possibilia. In: Ursula. Hauser & Wirth. Disponível em: https://www.hauserwirth.com/ursula/possibilia
    18. TO FIND OUT MORE (s.d.) – In The Feral. Disponível em: https://www.theferal.com/to-find-out-more
    19. TO FIND OUT MORE (s.d.) – In The Feral. Disponível em: https://www.theferal.com/to-find-out-more
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