Formando um espaço sinestésico que se concretiza através da indeterminação e da desorientação, a instalação em vídeo Identical (2023), da artista Emily Wardill inicia sintomaticamente com a combinação de elementos enigmáticos que se movem indistintamente entre si. Através de um caminho que vai do abstracto à figuração e da figuração ao abstracto, a obra parece se basear na construção de um espaço desalinhado de “realidades” aparentemente contraditórias, que comprometem profundamente a imaginação. Por conseguinte, Identical é uma obra que desarticula a nossa percepção comum das relações entre as coisas e as situações. Trata-se, assim, de uma instalação em que a imaginação se produz a partir de uma continuada correspondência entre diferenças, e em que as dissemelhanças suscitam uma operação plural de contiguidade entre reunião e separação.
Identical tem uma estrutura desorientada de imagens que remetem a visualidades e estados emocionais díspares. Tais ordens de “realidade” diferentes, e até, por vezes, supostamente opostas, são combinadas por intermédio de sequências de imagens concertadas entre si através de cortes bruscos. Nesse sentido, a instalação combina uma variedade de imagens e de sons, que vão desde elementos visuais abstractos, lutas físicas ou momentos sexuais num quarto de hotel, sequências de acções de atletas profissionais, ou excertos de filmes e séries. A artista concilia, portanto, esses momentos diversos, em que a sua remontagem e expansão expressam uma tensão entre elementos imaginários e concretos. De tal modo, o questionamento das relações entre consciência e imaginário são centrais em Identical — uma obra feita das transitoriedades e descontinuidades dos seus fragmentos, bem como dos seus movimentos de perturbação e desordem.
Cruzando filme, desenho, fotografia, escultura e outras práticas artísticas, a obra de Emily Wardill implica, com frequência, algo que não é imediatamente compreensível, e, por consequência, experienciado como estranho, convocando “histórias mal recordadas ao lado dos sonhos e dos pesadelos da cultura popular, sequenciando cuidadosamente os fantasmas que assombram as experiências pessoais e moldam as relações sociais”1. Essa consistência e variedade de referências culturais, imagéticas e sonoras está na base de Identical, que sobrepõe narrativas em que, por exemplo, surge a imagem de valas comuns, sem identificação, de pessoas escravizadas, cobertas por um campo de minigolfe em Lagos, Portugal.
A dimensão fragmentária e simultânea de Identical é potenciada pelo facto de ser uma dupla projecção, fazendo com que haja uma circulação de imagens entre ecrãs que se repercutem, dividem e combinam entre si. De acordo com a artista, essa estrutura formal é alicerçada na concepção de cinema expandido. Tal compreensão expandida do cinema foi primeiro conceptualizada pelo teórico dos media Gene Youngblood, no livro Expanded Cinema (1970), embora a expressão que denomina essa obra tenha sido originalmente cunhada pelo artista Stan VanDerBeek, que integrou a expressão no seu manifesto Culture: Intercom and Expanded Cinema, a Proposal and Manifest (1965), no qual defendia a ideia de que os artistas da sua época deveriam inventar uma nova linguagem não-verbal, cuja ferramenta principal seriam as imagens em movimento. Essa hipótese artística propunha o desenvolvimento de novas máquinas e linguagens que poderiam viabilizar o que o autor denominava por Ethos-Cinema, uma experiência cinematográfica emocional. A expressão cinema expandido é, contudo, mais identificada com a obra de Youngblood, sendo utilizada por este para designar instalações imersivas dos anos 1960, nas quais se propunha uma espacialização da imagem em movimento num ambiente físico. Num entendimento convergente entre o cinema, a ciência e a tecnologia, Youngblood aborda a relevância da arte como veículo para o aperfeiçoamento e a expansão da percepção humana, estabelecendo, assim, uma segunda nomenclatura — o cinema sinestésico, que sai da mente e se transforma em visualidade, gerando sentidos além da visão: “Quando dizemos cinema expandido, na verdade queremos dizer consciência expandida. Cinema expandido não significa filmes de computador, fósforos de vídeo, luz atómica ou projecções esféricas. O cinema expandido não é um filme: como a vida, é um processo de transformação, o impulso histórico contínuo do homem para manifestar a sua consciência fora da sua mente, diante dos seus olhos”2.
A partir desse enquadramento, Identical envolve intrinsecamente um imaginário de "expansão" que evoca um alargamento de elementos formais da imagem e da própria condição activa do espectador. Por conseguinte, a forma e a estrutura entram aqui num diálogo directo com o espectador, num regime de desconstrução estrutural, emocional e sensorial. Wardill interroga-se, portanto, se o cinema expandido pode ser remodelado para atentar e confrontar as desorientações presentes na consciência social contemporânea. O cinema expandido reproduz também a vocação intrínseca das formas cinematográficas em tornarem-se continuamente outras, concebendo formas de experiência que parecem situar-se nos limites. A investigação da artista expande-se, assim, para uma série de relações sensoriais entre o que é visto, sentido, ouvido e deduzido. Por outro lado, a instalação aprofunda a investigação contínua da artista acerca da concepção de imagem imaginada, que se alista a uma abordagem aos seus significados, utilizações e vestígios. De acordo com a artista, a imagem imaginada pode ser definida como um “espaço do exemplo, do estudo de caso, da metáfora, da alucinação, do sonho, do estado-nação, da utopia ou do fantasma. O que é particular nesses espaços é a sua dependência de um material que nunca se concretiza. Esses espaços reflectem sobre o desejo, sobre a forma como as imagens comunicam e sobre a nossa relação com os materiais fictícios”3. Explorando as complexidades e as limitações da representação, Wardill afirma que algumas das particularidades desses espaços são o desejo, a forma como as imagens comunicam e a nossa relação com esses materiais fictícios.
Sob a influência da imagem imaginada, os segundos iniciais de Identical retratam elementarmente o carácter instável e volúvel da obra. Nas imagens presentes nos dois ecrãs, vemos uma substância vermelha, difícil de definir, a mover-se indefinidamente. Essa misteriosa sequência introdutória retorna pontualmente ao filme, intercalando-se com imagens envolvidas em camadas simultâneas de separação e de confluência entre matérias, intensidades e pulsões. Entre a alternância e a fusão, a instalação entrelaça polifonicamente o prazer com a dominação e a comédia com a tragédia. Tal espaço instável veicula lugares contrapostos que fazem diluir as aparentes fronteiras entre imagens e sons. O mesmo processo de montagem desorientativa assoma na parte sonora do filme, adaptada de diversas fontes de som, como uma peça mais melancólica, interpretada por um coro de oito elementos, ou remontagens a partir de excertos de músicas, como “Losing My Religion”, dos REM, ou “Tomorrow Never Knows”, dos The Beatles. A parte sonora da instalação consona, assim, com a mesma estrutura abrupta das imagens, onde um momento de suavidade melódica pode ser interrompido abruptamente por sons mais ferozes.
A partir desses processos de desconstrução, Emily Wardill usa narrativas e conteúdos estruturais que questionam os modos de construção da realidade. Em Identical, a processualidade desconstrutiva surge também por via do estranhamento e da desorientação, criando um distanciamento face à forma comum de perceber o mundo e um rompimento com a automatização da percepção. Desafiando os limites entre o normal e o anormal, o real e o imaginário, a instalação valoriza as diferenças, as relações, os choques e os conflitos presentes nas representações que nos circundam. Identical é, portanto, uma obra sobre a complexidade e o hibridismo que habitam uma experiência plural e fluída.
Imagem de Capa
Emily Wardill, Identical, KW Institute for Contemporary Art, Berlim 2023; Fotografia: Frank Sperling. Cortesia carlier | gebauer, Berlim/Madrid.
A autora escreve ao abrigo do antigo acordo ortográfico.
- WARDILL, Emily – Tradução livre para o português pela autora do original em inglês: “misremembered histories alongside popular culture’s dreams and nightmares, and carefully sequence the ghosts that haunt personal experiences and shape social relations”. Mis-remembered Bones: The Imagined Image. Disponível em: https://www.khm.lu.se/en/emily-wardill/publication/ac768b20-ebfa-46c5-a5f1-2960e0cbc1bb
- YOUNGBLOOD, Gene (1970) – Expanded Cinema. New York: P. Dutton & Co., p. 41.
- WARDILL, Emily – Tradução livre para o português pela autora do original em inglês: “the space of the example, the case study, the metaphor, the hallucination, the dream, the nation state, the utopia or the ghost. Particular to these spaces is their dependence on a material that doesn't ever materialize. These spaces reflect on desire, on how images communicate and our relationship to fictitious materials”. Disponível em: https://portal.research.lu.se/en/projects/mis-remembered-bones-the-imagined-image