O SUPERFLEX nasceu em 1993, concebido como um coletivo alargado que trabalha com pessoas de diversas áreas — de jardineiros a engenheiros. Composto por Jakob Fenger, Bjørnstjerne Christiansen e Rasmus Rosengren Nielsen, o grupo debruça-se sobre soluções de design e modelos alternativos de organização social e económica. A sua ampla prática criativa tem assumido formas variadas: sistemas energéticos, bebidas, filmes, esculturas, sessões de hipnose, infraestruturas, viveiros de plantas, contratos e intervenções no espaço público. Os projetos envolvem frequentemente o público e baseiam-se num processo de design social que integra comunidades locais, equipas técnicas, crianças, e até outras espécies. Através dessa inclusão de participantes não-humanos, a prática urbana crítica do SUPERFLEX desenvolve uma poética especulativa e exploratória, que aponta a formas mais conscientes de vivência interespécies.
Margarida Mendes: O que motivou a criação do SUPERFLEX enquanto coletivo, e como tem evoluído a vossa prática ao longo dos anos?
SUPERFLEX: Os três partilhávamos críticas ao individualismo, afastando-nos da ideia do artista como génio isolado. Daí, tornou-se evidente a necessidade de formar um grupo, um coletivo, que nos permitisse trabalhar em conjunto. Como abordávamos a arte a partir de uma perspetiva concetual, criámos uma personagem que representasse o nosso coletivo — e assim nasceu o SUPERFLEX.
Não conseguimos fazer nada sozinhos, enquanto indivíduos. Dependemos sempre de outras pessoas e de outros seres. A mente coletiva é poderosa, capaz de mover montanhas, como diz o provérbio. Mais recentemente, começámos a descrever a nossa prática como um coletivo expandido. É essencial ultrapassar a divisão entre “eles” e “nós” e começar a imaginar um “nós” coletivo mais amplo, que inclua o maior número possível de pessoas e espécies.
MM: O vosso projeto Fish Cube, desenvolvido com o KWY.studio para a Bienal INDEX, avança a possibilidade de um design pós-antropocêntrico — orientado para uma vivência interespécies. Podem falar-nos mais sobre este projeto?
SUPERFLEX: Os seres humanos dependem dos ecossistemas oceânicos, mas nem sempre se sentem próximos da água. Nos últimos anos, muito do nosso trabalho tem tentado aproximar as pessoas do oceano, ao mesmo tempo que construímos infraestruturas que consideram as necessidades e preferências da vida marinha. Gostamos de dizer que fazemos arte para humanos e habitação para peixes.
O Fish Cube é uma das obras que resultam da investigação contínua sobre estes temas. O seu princípio é maximizar a área de superfície de um cubo, sem desperdício material. O cubo é dividido em quatro partes iguais que, ao serem desmontadas, oferecem uma maior área de superfície habitável para a vida marinha. Estas partes podem ser dispostas em inúmeras configurações, criando infraestruturas esculturais.
Fish Cube, 2024, por SUPERFLEX em colaboração com KWY.studio. Foto Adriano Ferreira Borges/INDEX.
MM: Como é que a sensibilidade à ergonomia não-humana influenciou o vosso processo criativo?
SUPERFLEX: Quando falamos de um coletivo alargado, pressupomos a necessidade de descentralizar o ser humano. Temos de nos tentar alinhar com os outros — com outros humanos, noutras partes do mundo, com formas de pensar que talvez não compreendamos, mas também com outros seres. Somos só uma espécie entre muitas. É por isso que grande parte do nosso trabalho recente procura formas de descentralizar o humano, de promover uma mudança de perspetiva que é, para nós, fundamental.
MM: A coluna de água tem sido uma fonte recorrente de inspiração para os vossos trabalhos mais recentes. Também têm desenvolvido investigação em torno da mineração em mar profundo, por exemplo. Como é que esta dimensão planetária potencia novas dinâmicas espaciais e possibilidades de design na vossa prática?
SUPERFLEX: Como referimos, estamos a criar obras de arte a partir das perspetivas de outras espécies. Estas considerações transformam a forma e a função das peças, abrem novas formas de imaginar o espaço e as infraestruturas. No nosso Manifesto Arquitetónico Interespécies, dizemos que “O Ângulo Certo é o Ângulo Errado”, porque não existem na natureza estruturas baseadas em ângulos retos; e que “evitar ângulos de 90 graus interrompe os movimentos humanos no espaço, incentiva-nos a abrandar”. Outro ponto impele-nos a “Dizer Não à Gravidade”: os humanos caminham sobre superfícies, mas outras espécies deslocam-se de formas diferentes — mergulham, flutuam, rastejam, voam. Ao projetar infraestruturas, devemos considerar também essas formas de locomoção.
Fotos de Fábio Cunha. Copyright SUPERFLEX+KWY.studio. Cortesia MAC/CCB.
MM: Podem partilhar algumas das ideias que estiveram na origem do projeto Deep Sea Minding?
SUPERFLEX: O Deep Sea Minding foi um projeto de investigação encomendado pela TBA21-Academy e desenvolvido ao longo de três anos. Realizámos várias expedições ao Pacífico Sul, juntamente com cientistas e outros colaboradores. A experiência dessas viagens levou-nos a uma mudança de perspetiva, obrigou-nos a considerar as necessidades e preferências de outras espécies, especialmente as espécies marinhas. Durante um mergulho em águas negras no Mar de Coral, por exemplo, conhecemos os sifonóforos — criaturas extraordinárias que vivem em coletivo e sobem à superfície do mar todas as noites. A sua perspetiva inspirou o nosso filme Vertical Migration.
MM: De certo modo, a vossa prática multidisciplinar redefine a nossa relação com as infraestruturas, abrindo novas possibilidades e questionando as noções de circularidade e cocriação. Como é que a vossa abordagem se transformou numa nova forma de crítica às infraestruturas?
SUPERFLEX: Falamos muitas vezes de “arte como infraestrutura”. Com isso, queremos dizer que a arte pode — e deve — integrar o planeamento urbano, a arquitetura e o desenho do espaço público. Mais do que uma crítica, é uma proposta: pensar as infraestruturas de forma diferente, reimaginar a utilização do espaço público e reconhecer as outras espécies como iguais no plano ecológico.
MM: E como é que esse processo exponencia a cocriação com agentes interespécies? Podem dar alguns exemplos?
SUPERFLEX: Na verdade, não usamos o termo “cocriação”. A nossa prática é mais sobre escutar e aprender com outras espécies. Gostamos de falar na importância de abrandar, de ouvir as outras espécies e de estar atentos às suas necessidades. As nossas colaborações e conversas com cientistas ajudaram-nos nessa investigação. Um exemplo: usamos frequentemente a cor rosa, porque está comprovado que atrai os pólipos de coral, os arquitetos do oceano. Ao utilizar essa cor, estamos a preparar a obra para um futuro em que poderá estar submersa. Hoje, funciona como arte para humanos; um dia, poderá servir de abrigo para a vida marinha.
MM: Estão atualmente em residência no Centro de Arquitetura MAC/CCB, num atelier adjacente à exposição Interspecies, com curadoria de Mariana Pestana e do Interspecies Research Studio. Que projetos estão a desenvolver?
S: O Fish Cube Studio é uma colaboração com o KWY.studio que dá continuidade ao nosso conceito do Fish Cube, criando um estúdio temporário aberto ao público. O espaço inclui uma prateleira expositiva que apresenta diferentes fases dos nossos trabalhos em prol da biodiversidade marinha — desde o Deep Sea Minding, o nosso projeto anterior, até hoje. Os visitantes podem levar para casa o nosso Manifesto Arquitetónico Interespécies, disponível em português e inglês, e está também em exibição contínua o filme All Is Water, com uma narração gerada por IA que reflete sobre os mistérios da consciência dos peixes.
Mais importante ainda, há uma mesa no centro da sala com cerca de vinte pequenas versões do Fish Cube em mármore rosa, que as pessoas podem usar para desenhar estruturas. Esperamos que isto inspire discussões sobre o potencial do Fish Cube enquanto escultura, e as suas possíveis aplicações subaquáticas.
Paralelamente, estamos a desenvolver novos Fish Cubes em diferentes materiais, que serão apresentados no estúdio ao longo da residência. Em junho, instalámos um grande cubo no exterior, nos jardins do MAC/CCB.
MM: Quais são, atualmente, os desafios de desenvolver uma prática crítica de Geo-Design?
S: O SUPERFLEX é um estúdio de arte, por isso partimos de uma perspetiva artística. O KWY.studio traz a sua experiência na construção de estruturas, tanto acima como abaixo da superfície. Em conjunto, partilhamos o interesse em tentar ver através da perspetiva de outras espécies. Nos dias de hoje, colaborações como esta, entre as artes e outros campos, são essenciais para imaginar formas de vivência interespécies.
As Close As We Get, 2021, por SUPERFLEX. Foto por Malle Madsen. Cortesia Nils Stærk.