E é aqui que percebes. Como vai ser? O que vai acontecer? Primeiro vem o frio. Depois, a noite. Vai ser como esta noite, mas ainda mais profunda. E não vai ser só esta cama a desaparecer: vai ser a parede, os cortinados, o quarto, e também o jardim lá fora, as casas da povoação, a povoação toda. […] Tudo isto a desaparecer — e também tu, o centro deste mundo, a desaparecer.
Seguindo uma profecia, aproxima-se o dia em que o sol não irá voltar a iluminar a aldeia de Upper Saint-Martin. O invisível eixo magnético terrestre sucumbiu a forças físicas ininteligíveis, a terra saiu da sua órbita e dirige-se agora em direção ao sol. A temperatura vai aquecer de dia para dia. Trata-se evidentemente de uma notícia que ninguém quer assimilar. Por isso, as pessoas incrédulas fixam-se na paisagem vertiginosa que dá para um lago imóvel, imperturbável e impotente. O eclipse total do sol em 1919, experienciado por Charles Ramuz em Paris, terá inspirado a criação das ficções If the Sun were Never to Return e What if the Sun… que exploram as reações humanas a uma hipótese apocalíptica, neste caso, a extinção do sol.
O projecto de vídeo-instalação e investigação artística Acid Flamingo: A modern tale between the Tagus estuary and the Ebro delta (2024), de Nuno Cera e Julia Albani, explora as relações entre uma paisagem esculpida por actividades antrópicas e o mundo mais-que-humano a partir do estuário do Tejo, em Portugal, e o delta do Ebro, na Catalunha. Ali, acedemos a dois ecossistemas pantanosos, a dois lugares de reserva e refúgios de espécies, a um paraíso, ameaçados pelas promessas da sua desintegração, o seu próprio apocalipse (num contexto de emergência climática). A narrativa é contada a partir de uma perspectiva não-humana, a de um flamingo Phoenicopterus roseus, Acid Flamingo. A sua voz foi criada por Jeff Wood.
A lente de Nuno Cera isola um flamingo ou grupos de flamingos. O animal também se deixa ver através da água translúcida. A água reflecte cor-de-rosa. É tudo cor-de-rosa. Adicionam-se aviões, tractores agrícolas e pulverizadores, painéis solares, cabos de electricidade e construções em betão como os pés da ponte Vasco da Gama, expandindo a rede dinâmica e interdependente de componentes vivos e não vivos do mundo de Acid Flamingo.
O estuário do Tejo e o Delta do Ebro são retratados como matéria pós-natural, moldados por relações entre o geológico, o biológico e o humano. Porém, o seu metabolismo está assombrado pela ameaça da ocupação humana, na forma da indústria do turismo, e pela perturbação das alterações climáticas, através da subida do nível médio do mar. Estes lugares são revisitados em Acid Flamingo a partir do mundo-vida do flamingo, o qual roda em torno do mesmo sol que o nosso.
A entrevista que se segue, a Jeff Wood, explora a criação da voz de Acid Flamingo.
Joana Pestana: Em 2023, escreveu o texto para a voz do protagonista do projecto Acid Flamingo (2024), de Nuno Cera e Julia Albani – uma investigação artística sobre o contexto de crise climática entre o estuário do Tejo, em Portugal, e o delta do Ebro, na Catalunha. Qual era a sua relação com estes lugares?
Jeff Wood: Não tinha propriamente uma relação específica com qualquer desses lugares, para lá de já ter visitado em anos anteriores a região do Tejo com a parte portuguesa da minha família. Conhecia o estuário e a diversidade das aves, e já tinha passado por cá algumas vezes. E claro, a história da prospeção do aeroporto vem sendo falada há anos, pelo que, creio eu, já há algum tempo que fará parte da consciência geral da população, com todas as tensões e contradições que lhe subjazem. Uma das características mais peculiares do país — em parte devido à dimensão do território, e à amplitude da geodiversidade numa área relativamente pequena — é que tudo está íntima e evidentemente interligado: a cultura, a vida familiar, o espaço geográfico, o edificado… Sentimos todos estes elementos onde quer que estejamos, e sentimo-los a agitar-se uns aos outros, muito sensíveis a quaisquer perturbações ou mudanças. Até a ideia do aeroporto. É um assunto que corre a comunicação social, mas também (particularmente do ponto de vista de um americano que já viveu na Alemanha) acaba por posicionar Portugal e um lugar como o Estuário do Tejo na perigosa intersecção entre as forças políticas da direita neoliberal, que hoje vão crescendo desastrosamente; a possibilidade de um futuro de profunda distopia adquirir as características de um presente já de si distópico; e a justaposição também de uma presença e história local ainda de grande riqueza — uma história que ainda se pode salvaguardar do cinismo e da ameaça material (e financeira) que se verifica tanto no país como no estrangeiro.
Falo disto (infelizmente apenas generalizando aqui) porque esta perspetiva interna/externa influenciou consideravelmente a abordagem que assumi para com este projeto e a dita voz do flamingo. Foi a primeira vez que vi o Delta do Ebro, e foi uma descoberta maravilhosa para mim. Trata-se também de uma região e um bioma compostos por sistemas humanos e não humanos que se sobrepõem e influenciam uns aos outros numa relação de interdependência. A vida das aves de lá é extraordinária, e extraordinariamente acessível também, assim como o é a presença humana do ponto de vista social, industrial e agrícola. O Delta é uma zona inacreditavelmente dinâmica, e situa-se exatamente no intervalo entre o interior do território e um gigantesco corpo de água que se estende para lá do horizonte. Foi fantástico conhecer esta região naquele espaço de tempo — e, na verdade, para mim, e creio que para o Nuno Cera e a Julia Albani também, foi uma das várias teses poéticas, cinemáticas e dramatúrgicas deste projeto: o posicionamento direto e efetivo no próprio ambiente, não como cientistas ou especialistas em ética política mas como animais. Turistas, também, ou uma espécie de. Mas é este o propósito: onde é que coincidimos, enquanto informação poética, com todas estas presenças — porque o delta, o estuário, o rio, o mar, os olhos das aves, a objetiva da câmara, o olhar do texto são tudo objetivas.
Moro a norte do Estuário do Tejo, junto ao mar, e dá para sentir isso a toda a hora, a cada minuto — que somos o frágil cruzamento destas forças, assim como o são as próprias forças não humanas, sencientes ou não. Como que um algoritmo senciente total do olhar. Esta também é a perspetiva temporal radical do flamingo e dos seus coconspiradores (as cianobactérias, as artémias, as próprias estruturas salinas…).
E é esta matriz que é a voz do Acid Flamingo. Portanto, para mim, a questão não é tanto a forma como se cria a voz do flamingo, mas antes: como é que eu já sou não humano? E o que é essa voz?
JP: Em The Glacier: A Cinematic Novel (2015), você captou um mundo em estado de iminente transformação, uma situação de pré-apocalipse. O equilíbrio do estuário do Tejo e do delta do Ebro está sob pressão devido à intensificação da ocupação antrópica e aos efeitos das alterações climáticas. Como situa na sua prática o exercício de vocalizar um não-humano num ecossistema em perigo?
JW: Há de facto um risco iminente de mudança que certamente se aplica ao Delta do Ebro, que também está sujeito a um conjunto de mudanças radicais de origem humana e não humana. Diria que a produção daquela voz não humana é a própria prática artística, ou pelo menos a minha: um encontro com aquela entidade. E uma sensibilidade perpétua. Ela está entre nós, sempre. Nós próprios somo-la. Em The Glacier, especificamente, essa entidade, e a sua voz, era a transição radical para uma arquitetura suburbana, e o entendimento do conjunto geral de edificado como um acontecimento geológico: a forma arquitetónica do Antropoceno. Em relação de contiguidade, ou, aliás, ao centro, do ponto de vista narrativo, está a voz da Trinity, ou da bomba atómica, no âmago da força motriz da economia cultural americana — literalmente.
Agora — e com o Acid Flamingo — esta entidade não humana é omnipresente, e detém uma tal força algorítmica (autonómica) que quase se torna omnipotente enquanto animação humana ou não humana, a performance de uma senciência para-humana enquanto semelhança do real. É precisamente aqui que eu e o Flamingo coincidimos: enquanto aquilo que Timothy Morton poderia denominar como hiper-objetos em sobreposição — confrontamo-nos enquanto dimensões um do outro. As nossas escalas temporais coincidem, vivemos em ecossistemas comuns, e, neste caso, literalmente, partilhamos a existência de um clima planetário rico em oxigénio, o cor-de-rosa, a justaposição de campos simbólicos… É por isso que digo que dar voz àquela entidade não humana realmente não é o objeto nem o objetivo da prática artística; antes, é a própria prática artística. A própria obra de arte é literalmente essa voz não humana, essa senciência não humana.
JP: Em Acid Flamingo, é reconhecida a existência de mundos paralelos, capazes de se moverem juntos. O que conduziu a escolha do mundo específico do flamingo como portal para o sistema e universo partilhado existente nestes lugares do Tejo e do Ebro?
JW: Falei há pouco da posição primária do flamingo nos campos simbólicos que partilhamos. O Nuno e a Julia, que o encontraram nas suas viagens ao Delta do Ebro, acabaram por se apaixonar pelo flamingo, e desenvolveram uma grande afetividade e empatia por este animal. Tratam-se de criaturas particularmente estranhas, únicas, impressionantes — e, ainda assim, são-nos perfeitamente familiares. São de um carácter simultaneamente alienígena e familiar. Todas as aves mais ou menos têm esta característica. Aliás, já noutra ocasião disse que as aves são uma convergência de insetos e gatinhos bebés…
Mas os flamingos exprimem estas qualidades com particular intensidade. Têm muito e nada que ver connosco: não seguem padrões e rotas regulares na migração, mas voam incansavelmente para chegar aos sítios que julgam adequados. São uma espécie monogâmica, mas também vivem em colónias nas quais ajudam e dependem da ajuda dos pares para prestar cuidados às crias, diferenciando inclusivamente entre bebés e adolescentes… Mas também são quase literalmente dinossauros — têm uma das morfologias aviárias mais antigas que se conhecem; e estão especificamente adaptados para viver na letal salinidade de alguns dos mais duros habitats do planeta.
Mas ainda podemos ir mais longe. O cor-de-rosa vem do consumo de carotenoides que se encontram em cianobactérias e, consequentemente, nas artémias. Com efeito, foram estas mesmas cianobactérias que estiveram por trás da “revolução global do oxigénio” que tornou possível a vida na Terra tal como a conhecemos. Os flamingos, portanto, são viajantes do tempo. E, no momento do encontro — tanto com esta informação como com o próprio flamingo —, também eu viajo no tempo.
O flamingo é não humano, mas nem assim deixa de estar absolutamente presente no nosso campo simbólico. O que representa para nós o “flamingo”, por exemplo, na cultura pop ou comercial? Lazer, férias, prazer, um clima ideal, o paraíso… O paraíso. O flamingo é efetivamente uma representação deste paraíso, de uma Terra rica em oxigénio, no nosso espetro cromático, numa escala temporal cósmica. O flamingo é cósmico, tal como nós. O flamingo é em si uma espécie de epifania. E, tendo isto em conta, não é preciso gerar empatia para com esta voz. É uma coisa que simplesmente acontece por si. Como se fôssemos um astronauta no espaço, e tivéssemos aquela perspetiva do planeta que automaticamente produz empatia. E todos nós temos hoje essa capacidade através da internet. Nós aproveitamos essa oportunidade, mas o poder ainda não o faz.
E este encontro é a voz do Acid Flamingo. Não mais do que uma transcrição poética deste encontro poético. Eu — enquanto todos nós — enquanto o flamingo — enquanto cada um de nós.
JP: Como é que decorreu o processo de se aproximar, prestar atenção e ser uma espécie spokesperson de uma entidade não-humana? Será que pode revelar as pesquisas primária e secundária envolvidas nesse processo de aproximação e criação da voz do Acid Flamingo?
JW: A investigação primária foca-se em encontrar uma forma de me posicionar numa coordenada poética de sobreposição com o próprio flamingo, e tudo aquilo de que já falei. Para tal, é preciso recorrer à minha própria experiência, e em particular à minha experiência da fenomenologia humana contemporânea, incluindo, principalmente, a linguagem. Enquanto processo artístico, de certa forma, podemos dizer que se trata de um processo xamânico. Com isto, não quero apropriar ou convocar qualquer terminologia new-age — certamente não no sentido de promover qualquer processo mercantilizado (e falacioso) de regeneração — mas sim desenvolver um processo de orientação através do qual nos podemos confrontar com os campos simbólicos em que coincidem entidades humanas e não humanas, que logo são canalizados para destilar uma espécie de iconografia simbólica, no âmbito do fazer artístico. Trata-se, portanto, de uma performance de experiência, meditação, texto, vídeo, som e espetáculo enquanto experiência que simultaneamente orienta e desorienta. Como é óbvio, podemos dizer muito mais coisas sobre isto, mas esta prática — uma prática poética (e cinemática) — é a investigação primária.
A investigação secundária tem que ver com a forma de aceder à coordenada do flamingo que coincide com a nossa própria coordenada temporal (o aeroporto, o edificado, a internet, o arroz, o sal, o museu, o jardim zoológico, a ficção científica, a iconografia, seja o que for…). Para tal, procurei aprender tudo o que houvesse para saber sobre o flamingo e o ambiente que habita, dentro dos prazos que tínhamos. Li muito, e falámos com biólogos de campo tanto no Estuário do Tejo como no Delta do Ebra. O Nuno Cera e a Julia Albani também fizeram entrevista com alguns destes cientistas, que depois me foram apresentadas em versão traduzida.
Por exemplo, e para falar disto mais concretamente, em relação aos processos e à investigação primária e secundária: uma das dimensões, ou pontos de acesso, em que estava mais interessado relativamente à produção de uma “personagem” ou de uma voz (do Flamingo) tinha que ver com o problema que surge com este dar voz: a tensão entre o individual e o coletivo, ou as massas; e a interrogação sobre se sequer existe uma tal distinção. Trata-se de um problema com que nós próprios nos deparamos, tanto na forma como nos confrontamos uns com os outros e com os outros não humanos. E se, na verdade, formos todos a mesma pessoa? E, se assim for, como é que, ao mesmo tempo, também sou um indivíduo? E isto é uma questão fundamental na nossa conjuntura contemporânea, e no trabalho de olhar e representar algo (ou alguém) como um flamingo.
Como é que se explica que eu seja simultaneamente um indivíduo (humano) e toda a massa de humanos uns dentro dos outros? Ao mesmo tempo, sou indivíduo e humanidade em massa. E isto não é matéria de especulação — é algo que hoje podemos encontrar e experienciar diariamente enquanto espelhamento do streaming cibernético, enquanto edificado de nós próprios, enquanto globalização de nós próprios. Eu também sou o processo de todas as outras pessoas; sou indistinguível delas. E esta é uma ideia terrivelmente alienígena, e intolerável, mas também configura uma convergência de empatia, epifania e razão.
Quando falo, e particularmente quando falo de questões contemporâneas trans-individuais, falo enquanto ser humano, ou enquanto humanidade? E haverá forma de corroborar esta voz, ou será uma espécie de ficção científica? Porque é também através desta objetiva que olhamos os animais selvagens (ou não humanos). Qual é a diferença entre um flamingo e o flamingo? E como é que determinamos isso? No caso do Acid Flamingo, falam simultaneamente o flamingo individual e todos os flamingos de todos os tempos. A voz de um flamingo, e do flamingo total. A tensão não fica por resolver; antes, mantém-se — enquanto voz impossível.
É com este encontro que nos confrontamos agora… Ou pelo menos o que julgo ser revelador: o Acid Flamingo é a voz de todos nós a falarmos por cada um de nós, tanto coletiva como individualmente, por aquela tensão — por algo que se assemelha a uma minúscula transmissão cósmica, pintada a cor-de-rosa fluorescente, a serpentear pela escuridão do espaço, entre o estuário, o seu passado profundo e o futuro aeroporto.
Nós achamos que não somos selvagens nem alienígenas. Mas somos. Nós também achamos que não somos não humanos. Mas somos.
Portanto, esta voz também é lynchiana, tarkovskiana… A voz do Outro poético, a palpitar entre o humano e o não humano. Hoje, vivemos num mundo pós-lynchiano em que o Acid Flamingo é uma voz que surge em defesa do abstrato sincero, contestando o conteúdo das reproduções fraudulentas. Como o Acid Flamingo diz:
Quero falar sobre outras coisas, mas não há mais coisa nenhuma.
Acid Flamingo - Uma fábula moderna entre o estuário do Tejo e o delta do Ebro. Conceito: Julia Albani e Nuno Cera; texto: Jeff Wood; música: Tarzana: Aerofoils in heat © Jan Anderzen e Spencer Clark; pós-produção de áudio: Eduardo Vinhas; drone: Pedro Farto. 2024. Cortesia dos artistas.