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    Crítica

    Sara Graça: Boa Good Sorte Luck

    M Vulfson

    por M Vulfson
    Sara Graça e a performance dos materiais


    O enigmático trabalho de Sara Graça resiste a uma definição clara sem, no entanto, se tornar pretensioso. Vagueando pelas salas da sua exposição Boa Good Sorte Luck na Culturgest, em Lisboa, com curadoria de Bruno Marchand, percorrendo entre o meio-dia e as três na Solar — Galeria de Arte Cinemática, em Vila do Conde, e revisitando a documentação das suas exposições da última década, sou atraída para um cenário de brincadeira ou de clowning. Não porque as suas obras sejam divertidas (embora por vezes o sejam, como no caso das esculturas Ratazanas de 20201), mas pela forma como interagem com o espetador — por meio de uma fricção, uma tentativa de atração-repulsão entre a artista, os materiais e o público. Permitam-me que explique com a ajuda das palavras de uma artista de circo, que uma vez me confidenciou:

    “Na arte do clown, experimenta-se algo, algo que já está preparado, e depois observa-se a reação das pessoas. Quando descobrimos o que as faz rir, puxamos esse fio, tentando ver se se consegue intensificar essa emoção. Se o público não reage, não há espetáculo. Tudo se resume a esta fricção, a esta dinâmica de atração e repulsão entre o artista e o público.”2

    No trabalho de Sara, encontro este mesmo tipo de performance, seja nos materiais que empurram e puxam as obras, constritos pela sua materialidade e pelo espaço onde são exibidos ou guardados, seja pelas circunstâncias de vida da artista e pelas ideias que encontra. As suas ideias funcionam como objetos encontrados, que criam as obras e voltam novamente à condição de objetos encontrados, são unidos pelo momento da exposição e pelas particularidades do espaço expositivo. Enquanto espetadores, entramos neste puxa-empurra/atração-repulsão quase inconscientemente, sem ter a certeza do nosso lugar, sem saber onde nos podemos encaixar no meio destas peças dinâmicas. Um exemplo paradigmático é a peça central de Boa Good Sorte Luck, Leave Soon (vídeo em loop de 10', 2025). Filmada no South Bank em Londres com uma câmara rotativa, Leave Soon mostra uma pessoa a saltar de lado em câmara lenta ao longo do passeio. A rotação é fluida, de modo que a figura e as linhas horizontais da ponte e do rio rodam como um relógio de alta velocidade, criando um efeito extremamente nauseante, tão forte que é quase impossível olhar por mais que uma dúzia de segundos para a peça.

    O resto da exposição estende-se por dois corredores, com três salas laterais àquela onde Leave Soon está exposta, repleta de referências a ser-se engolido e cuspido, como se toda a exposição fosse um sistema digestivo. A analogia à ideia de se ser engolido pelo "sistema", surge inconscientemente pelas pistas subtis e referências às condições indignas e sobrelotadas de habitação onde lutamos para permanecer à tona, que se encontram espalhadas pela exposição. A exposição cria momentos de suposta leveza, num deles encontramos a referência a O Principezinho em desenhos a grafite como «... is it like a fake clock?» (2025) onde vemos dois esqueletos sentados dentro de uma serpente a apontar para o símbolo da paz a pingar — WTF está naquela parede? É um relógio falso?—, lê-se num balão de fala. (Risos).

    Ao falar com Sara, encontro-a à procura de palavras para definir a sua prática. “Não trabalho de uma forma muito linear: há processos materiais e processos metafóricos a acontecer, e tento brincar com tudo ao mesmo tempo.”3 Para Boa Good Sorte Luck, a resposta inicial foi a distribuição física do espaço: “nestas seis salas que se encontram nas laterais do espaço audiovisual, os pisos não estão nivelados. A primeira coisa que quis fazer foi eliminar os degraus entre as salas com uma escultura que existe em mais do que uma sala ao mesmo tempo?”, explica-me.4 Acabou por reciclar as placas das paredes que estavam em processo de demolição para albergar a exposição de Alexandra Bircken, que é apresentada em simultâneo na Culturgest, e da Expoload, uma empresa subcontratada para montar a exposição, que tinha em armazém placas de aglomerado, laminado, MDF e superpan destinados à construção de palcos. Sara trabalhou com essa empresa na construção das rampas, que se encontram entre salas, de forma imprevista, embora mantendo todas as condições de segurança, — esta aparente falta de organização poderia ter sido um desafio para uma equipa habituada à construção metódica e irrepreensível de espaços de exposição. A interpretação estrutural da equipa, à proposta de Sara, produziu, através das placas numeradas, uma estranha continuidade entre os espaços. Esta forma de explorar os materiais é uma das principais preocupações da artista: garantir que não está a criar obras no vazio, mas em espaços que detêm a sua própria história material, com pessoas que entendem as suas especificidades, e com as dinâmicas sociais que ambas implicam.

    A intervenção inicial de Sara levou-a a pensar em fluxo, obstrução, movimento e estrutura. O simples facto de pendurar uma prateleira encontrada numa das paredes levou à obstrução parcial da entrada de uma das salas; “chamei-lhe uma irritação na passagem. Isto fez-me pensar em engolir algo difícil de engolir”, explica. Então, e se esta ideia de engolir for uma forma de pensar o próprio espaço? E se entrar num espaço significar confiar nele para nos deixar engolir? Partilhando o seu processo de criação da exposição, Sara revela como a sua metodologia consiste num lento desvendar (ou desenrolar) dos fios que tecem as suas ideias à medida que são moldados pelas circunstâncias. Subitamente, o resto da exposição parece crescer naturalmente, como um jardim que se vai desenvolvendo a partir de uma única planta. No final da nossa conversa sobre a exposição da Culturgest, conclui: “Estava a pensar em ligar estas ideias de fluxo e obstrução, no espaço e no corpo, entendendo estas oscilações e instabilidades como uma analogia a uma vida cheia alternâncias e transformações.”5

    Sara Graça, Boa Sorte. Vista de exposição na Culturgest, Lisboa, 2025. Fotos: Elisa Azevedo e António Jorge Silva. Cortesia Culturgest.

    Num trabalho de 2020, as esculturas Ratazanas criadas para a exposição individual Ratazanas e Calendários no Sismógrafo, Porto, encontramos uma abordagem semelhante à materialidade dos objectos. Na altura, Sara vivia numa casa partilhada com onze pessoas e ficou fascinada com a reação dessa pequena comunidade a uma família de ratos que também se tinha mudado para o espaço. Apesar de diferenças marcantes nas suas personalidades, a reação dos colegas de casa ao ratos era exatamente a mesma. Como resposta às limitações materiais de viver em Londres, sem muito espaço de armazenamento, enquanto fazia uma exposição no Porto, Sara decidiu criar peças dobráveis a partir de folhas A0 de mount board, preto de um lado e branco do outro. Dobrando, cortando e encaixando-as umas nas outras, recortou ratos com quatro metros de comprimento e cerca de um metro de altura quando montados, e que cabiam numa pasta de desenho quando dobrados. Espalhou lixívia no lado preto, que depois cobriu com uma cera de chão que tinha no estúdio, corroendo a cor para obter um castanho-esbranquiçado, enquanto no lado branco serigrafou padrões azuis com verde e branco e fez desenhos com uma caneta esferográfica — ambos em contraste com o chão vermelho do espaço expositivo. As peças tornaram-se assim uma escultura performativa, sendo o movimento do público o ativador da performance: quando entrávamos na sala, as peças eram pretas-e-castanhas, e quando nos virávamos para sair, eram azuis-e-brancas.6

    Esta abordagem improvisada e lúdica, resultante do próprio espaço, é também visível na primeira exposição individual de Sara em Lisboa, B Blossoms (2022), na Mala. A artista conta-me que o ponto de partida foi a particularidade do espaço — uma ampla janela que se assemelhava a uma loja. “Desde o início, quis fazer algo relacionado com a ideia de loja ou de uma loja falsa”, explica Sara. Devido a uma desilusão amorosa na sua vida pessoal, e noites de insónia, Sara pensava em estados de desconfiança. Isto ligou-se às superfícies metálicas (“Não percebo muito de metais, por isso estou sempre a questionar a origem do metal, ou de qualquer material brilhante que serve de base a esta ou aquela superfície”7). Ao reunir estes fios, aparentemente dispersos, de montras, falsidade, desconfiança, insónia e superfícies metálicas — quase como se estivesse a criar uma exposição baseada em objetos encontrados —, Sara começa a desenvolver a história e a transformá-la em algo concreto — formulado através de “pensamentos práticos, formais e emocionais, talvez poéticos, e depois através da resolução de problemas e navegação numa realidade muito material.”8

    Em B Blossoms, a realidade material, que se fundia com o fio condutor vermelho, transformou-se numa florista falsa, decorada com persianas recortadas em vinil verde colado no vidro, baldes, tábuas, esculturas antigas usadas como material encontrado, flores secas e uma placa de loja vazia. As persianas claramente não funcionavam, como se a loja estivesse fechada ou nunca tivesse aberto; nem o letreiro indicava o nome da loja. Em vez disso, o letreiro de contraplacado estava pintado com uma mistura de produto barato para limpeza de chão de azulejos com grafite, dando-lhe um aspeto metálico, e com um borrão de tinta branca como se um pássaro tivesse nele defecado. Nesta loja disfuncional, há esculturas, em pasta de modelar, cobertas com o mesmo produto de chão e pó de grafite, polidas até brilharem, fazendo-as parecer — ou performar como — chumbo9. Nada é o que parece, algo que talvez se sinta ainda mais agudamente durante noites de insónia, e é exatamente isso que as esculturas mostram, pessoas deitadas em camas com pensamentos delirantes a soltarem-se das suas cabeças. Uma imagética de delírio criada através de uma performance ilusória: que deleite!

    Mais do que se comprometer com uma disciplina ou criar uma linguagem material específica, a prática de Sara distingue-se pela sua abordagem única ao espaço, aos materiais e à metafísica. O inter-relacional em detrimento do resultado. É isso que torna interessante a peça em exposição na Solar em Vila do Conde, entre o meio-dia e as três, criada durante uma residência de cinco dias no espaço, trata-se de um vídeo projetado num ecrã com quatro stills impressos. O vídeo mostra três pares de amigos, jovens (18-22 anos) que responderam ao anúncio, dos cartazes colocados na rua pela artista, que convocava participantes para o seu projeto. Uma peça mundana e anti-heróica que brinca com o clichê “sentar na praia e falar de coisas profundas, olhando para o horizonte do mar”10. Os jovens falam dos seus sonhos para o futuro (que, por acaso, são bastante normativos — ter uma casa, um parceiro, um trabalho, alguns filhos — revelando inadvertidamente as inseguranças sociais mais básicas) e realizam exercícios de confiança mútua, como cair nos braços uns dos outros, ou desenhar no ar com as mãos.

    A praia como experiência social também aparece em Clube-Estrada-Praia, um projeto individual, de 2021, no espaço Spirit Shop, de Pedro Barateiro. O desenvolvimento desta exposição fala claramente da sua forma de interagir com as circunstâncias para inspirar as suas ações. Li sobre a exposição pela primeira vez no intrigante artigo de Alberta Romano sobre uma visita ao estúdio de Sara (sem a artista alguma vez aparecer, substituída pela sua assistente de estúdio, Iva Lorena — que, ao que parece, era imaginária). No artigo, Alberta e Iva falam da próxima "exposição" que consistia na distribuição de um horário para quem quisesse ir à praia com Sara se inscrever.11 A minha curiosidade, naturalmente, questionou-a sobre essa exposição. “Naquele verão, a minha mãe deu-me o (Citroën) Picasso dela”, diz, começando por explicar que associou a imagem de conduzir um Picasso às viagens para a praia. E, assim, surgiu a ideia de levar pessoas à praia. “A exposição eram as viagens de ida e volta, eu a conduzir pessoas até à praia. Conversávamos, íamos ao mar, ouvíamos música.”12 Naquela época, receosos de quem poderia aparecer, se isto fosse divulgado na rua, Sara e Pedro anunciaram-no como uma exposição de arte. Posteriormente, algumas das pessoas que participaram tornaram-se suas amigas.

     Em ambas as experiências sociais/obras de arte, na e com a praia, encontramos Sara a brincar com estímulos, a ver quem aparece e como aparece. Esta mesma prática ressurge na sua interação com a equipa de montagem da Expoload na Culturgest, uma espécie de jogo de confiança na experimentação, onde as obras são cocriadas, quase como peças anti-arte. Na verdade, o seu trabalho, evoca continuamente a visão contemporânea da filosofia anti-arte do grupo Fluxus, com as suas peças lúdicas que forçavam os limites dos materiais e das dinâmicas sociais. Entrelaçando o material com o pessoal, confiando no fluxo das experiências, o trabalho de Sara é revigorante, surpreendente e inesperadamente leve, apesar da aguda consciência da escuridão em que existe.

    Sara Graça, Boa Sorte. Vista de exposição na Culturgest, Lisboa, 2025. Foto: António Jorge Silva. Cortesia Culturgest.

    Sara Graça: entre o meio-dia e as três. Vistas da exposição na Solar – Galeria de Arte Cinemática, Vila do Conde. Fotos: ® João Brites. Cortesia Solar – Galeria de Arte Cinemática.

    Tradução de Marta Espiridião, revista e editada pela editora.

    M Vulfson é uma autora/escritora de artes e cultura apaixonada pelo poder da arte e o seu impacto no mundo em que vivemos. Os seus textos e pesquisas centram-se na interculturalidade radical e na resistência colonial, bem como em temas relacionados: a ecologia e a teoria queer.

    Notas de Rodapé
    1. Ratazanas refere-se às esculturas de figuras recortadas em cartão, da exposição individual de Sara Graça Ratazanas e calendários no Sismógrafo (Porto), em 2020.
    2. Conversa com amigo anónimo, 2018.
    3. Ibid.
    4. Ibid.
    5. Ibid.
    6. Ibid.
    7. Ver mais em saragraca.info/ratazanas-e-calendarios/
    8. Conversa com Sara Graça, 30 de dezembro de 2025.
    9. O chumbo é particularmente interessante aqui, por não só ser um material valioso mas também tóxico.
    10. Conversa com Sara Graça, 22 de dezembro de 2025.
    11. Alberta Romano, “It’s a date. Episode #6: (Assistant of) Sara Graça,Contemporânea 04–05–06 (2021): contemporanea.pt/en/editions/04-05-06-2021/its-date-sara-graca.
    12. Conversa com Sara Graça, 30 de dezembro de 2025.