Testimonium é uma instalação sonora multicanal materializada num ecrã que atrai o nosso olhar de modo centrípeto e encantatório. A peça é da autoria do artista visual e sonoro Jacob Kirkegaard (n. 1975, Dinamarca) e insere-se num programa mais vasto de arte sonora — (De)Composição —, com curadoria de Raquel Castro, e que pretende, como o nome indica, chamar a atenção e procurar uma resposta artística perante o fenómeno incontornável e expressivo do lixo que produzimos e que a nós, inevitavelmente, retorna de vários modos, inclusivamente, na possibilidade de sublimação artística. É neste ponto que situamos este bem conseguido trabalho que, contudo, num ecrã de ainda maior dimensão funcionaria de modo ainda mais envolvente na relação visual e sonora que propõe com o espectador.
A arte contemporânea deslocou o seu centro de gravidade do objecto para o processo, da forma estável para a experiência localizada. Neste movimento, a arte sonora ocupa um lugar particularmente incisivo, pois trabalha com o que é simultaneamente material — a vibração física — e imaterial — a propagação efémera do som no espaço e no tempo. Se a tradição estética ocidental privilegiou a visão como sentido dominante, a arte sonora reinscreve a escuta — mais do que simplesmente ouvir – como gesto crítico e como prática. É neste enquadramento que o lixo, tanto material como simbólico, deixa de ser apenas um resto para se tornar num campo vibrátil, assim como possibilidade de inscrição de uma economia fundada na produção contínua do excesso. As notícias mostram-no quotidianamente. Vivemos num capitalismo musculado no qual, como se sabe, a produção e o consumo são os eixos definidores.
O lixo, na contemporaneidade, não se limita apenas ao que foi rejeitado; é a sedimentação visível de um regime de consumo acelerado e de uma temporalidade orientada para a substituição permanente. Ele condensa a lógica da obsolescência, a invisibilidade dos circuitos produtivos e a externalização dos danos ambientais. Ao entrar no território da arte, o lixo deixa de ser apenas objecto encontrado ou gesto provocatório; torna-se vestígio persistente de processos históricos e económicos que não se dissipam no acto do descarte. Neste contexto, recordamos um dos principais ensaios de Jean Baudrillard, A Sociedade de Consumo (1970) que desenvolve uma análise radical da cultura contemporânea enquanto sistema estruturado pelo consumo, pelos signos e, naturalmente, pela produção de necessidades. Na verdade, na óptica de Baudrillard, o consumo não se reduz à satisfação de necessidades materiais; ele opera como forma de linguagem. Os objectos não são adquiridos apenas pelo seu valor de uso (utilidade) nem apenas pelo seu valor de troca (preço), mas sobretudo pelo seu valor-signo: aquilo que comunicam socialmente. Consumir é comunicar posição, estatuto, pertença e o objecto torna-se num elemento de código. Mas, curiosamente, pode ser também um código estético e sonoro.
Cortesia do artista e CAM — Fundação Calouste Gulbenkian.
Do ponto de vista sonoro, o resíduo não é silencioso. Pensemos, a título de exemplo, em estruturas industriais abandonadas que reverberam o vento, ou nos dispositivos electrónicos descartados que podem emitir zumbidos intermitentes. O lixo murmura e vibra. A arte sonora radicaliza esta percepção ao tratar o som não como linguagem organizada segundo princípios harmónicos tradicionais, mas como campo expandido de frequências, intensidades e ressonâncias. Desde as rupturas operadas por John Cage, para quem o silêncio revelou ser pleno de acontecimentos acústicos, a escuta passou a implicar um descentramento do sujeito. Escutar é reconhecer que o mundo sonoro antecede a intenção humana e excede qualquer enquadramento formal. Neste sentido, integrar o lixo na prática sonora não constitui mero recurso estético, mas gesto ético: trata-se de conceder atenção ao que foi relegado para a periferia perceptiva.
A obra de Jacob Kirkegaard inscreve-se com rigor neste horizonte, deslocando-o para territórios limítrofes. O artista investiga ambientes extremos e espaços marcados pelo abandono, pela catástrofe — Chernobyl, por exemplo — ou pela invisibilidade estrutural. Ao gravar as ressonâncias de salas desocupadas em zonas evacuadas, ao captar vibrações internas do corpo humano ou ao amplificar frequências quase inaudíveis, Kirkegaard transforma esta recolha em corpo acústico e vibrante, revelando camadas e complexidades sonoras-matéricas.
A arte sonora que trabalha com resíduos não os redime nem os estetiza de forma complacente, pelo contrário, expõe a sua persistência e capacidade de afectar. Ao amplificar ruídos de estruturas corroídas ou ao tornar audíveis frequências que escapam à percepção comum, o artista desloca o espectador para uma posição de responsabilidade perceptiva. Escutar converte-se num acto de reconhecimento do que foi descartado. Na verdade, não se trata de representar a crise ambiental, mas de produzir uma experiência em que o próprio corpo do ouvinte é atravessado por vibrações que remetem para o excesso contemporâneo. A arte sonora opera, assim, como uma fenomenologia do resíduo: faz sentir a densidade temporal daquilo que persiste. Se a sociedade de consumo tende a apagar os seus rastos, a escuta proposta por Kirkegaard reinscreve-os no domínio do sensível.
E, no final, surge a beleza artística do que sabemos não ser belo na realidade que nos circunda. Deste modo, arte sonora, arte contemporânea e lixo convergem numa problemática comum: a da permanência do que se tenta excluir. O som — difuso, envolvente, incontrolável — revela que nada desaparece sem deixar marca. Vibrar é continuar a existir. E talvez uma das tarefas mais urgentes da arte contemporânea seja precisamente a de cultivar uma escuta capaz de reconhecer aquilo que, mesmo relegado à condição de resto, continua a ressoar e a reclamar uma existência. O dia foi caindo e a memória subtil dos cristais e dos metais a tocarem-se e a movimentarem-se vêm connosco.
Cortesia do artista e CAM — Fundação Calouste Gulbenkian.