Em O Paradoxo dos Gémeos na Appleton Square, a exposição mais recente de João Marçal, as duas pinturas, #1/2 -"Optima 400 e Sem Título aparecem diante uma da outra, com escalas e formatos semelhantes e o chão do cubo branco a separá-las. Nessas condições, introduzem um feixe de forças, um espaço de vibrações e intensidades que poderiam dispensar a presença do espectador. Vemo-las num diálogo solitário ou, se se preferir, numa espécie de transe silencioso ao qual o exterior só traria a redundância do ruído.
Não se trata de uma relação de espelhamento, de duplicação. São distintas enquanto corpos e imagens, mas algo as separa. Os acasos, as circunstâncias, os seus processos? Neste último caso, nem tanto. Sabemos que João Marçal trabalha a partir de imagens preexistentes, na sua grande maioria de carácter decorativo e gráfico (proveniente, em grande parte, de duas origens: estofos de bancos de autocarros e recortes de imagens de logótipos comerciais (por exemplo, de marcas de rolos fotográficos).
O fazer do artista tem sido recorrente e repetido, obedecendo a uma dialética no qual o pulsional e o racional se encontram: replica pictorialmente, com o cuidado e atenção da mão, padrões preexistentes, imagens que existiam no mundo antes de iniciar os seus próprios gestos. Não se pode dizer que as reproduz ou refaz, ou simplesmente que as eleva por meio da pintura. Antes, faz delas um exercício de acuidade visual, de paciência que, iniciado pela pintura, as suspende e transfigura. João Marçal é, claramente, um artista do seu tempo que pinta. E que pinta as coisas do seu tempo, não para as repintar ou salvar. Mas, se quisermos, para lhes dar outro tempo e espaço.
O título O Paradoxo dos Gémeos provém de uma hipótese do campo da física e prevista pela teoria da relatividade: em poucas palavras, argumenta que um gémeo que parta numa viagem pelo espaço, à velocidade da luz ou próxima, ao regressar à terra anos mais tarde, apresentar-se-á fisicamente mais jovem do que o seu irmão gémeo terrestre. Isto é, continuarão genética e biologicamente gémeos, mas diferentes. Uma relação com o tempo do pensar e do fazer depreende-se das histórias das pinturas. 1/2 - "Optima 400 é uma pintura que João Marçal pensara realizar em 2007, mas que só este ano concluiu. Numa leitura sob o peso dos ditames modernistas, dir-se-ia que os reflecte, mediante a geometria das linhas, com a sugestão ténue de duas grelhas, a alusão à composição monocromática dos quadrados. Uma ideia de ritmo que a pintura, nas suas modulações, aventa poderia ser pertinente enquanto chave de leitura. Mas o que vemos pode ser também uma ampliação e recombinação proveniente das caixas de rolos que se completa numa superfície pictórica. O artista deixa-nos nesse intervalo. O que vemos? Na verdade, pode ser uma pintura abstracta feita de diferentes segmentos horizontais e cromáticos que tanto podiam estar na companhia do minimalismo (sem os seus volumes), como do construtivismo ou do expressionismo abstracto (ainda que com a presença contida, quase invisível da mão).
E, no entanto, para lá destas remissões, pelo título somos transportados ao rolo da fotografia. Chegaremos lá, não sem atalhos, pois a imagem original nasce de cortes e das ausências que estes produzem: o artista ao recortar, ao retirar, produziu uma pintura sem a totalidade dos indícios originais (deixados na imagem da caixa). Poderíamos dizer que se trata de pintura, de colagem e corte, que, no fim, o artista deixa-nos cientes da permanência, das condições de possibilidade da pintura. Tanto que, abstracta, ela, pelas suas cores, e pela faixa de cor metálica que a atravessa, podia ser uma imagem produzida digitalmente ou um elemento decorativo de um brinquedo de ficção científica. A aproximação do nosso corpo à pintura desvela a ilusão, aquieta as associações, faz da sedução das linhas e das cores um jogo. Ao mesmo tempo que, das imagens reprodutíveis, nos devolve a presença de uma qualquer aura ou da sua imaginável aparição.
A outra pintura, na parede em frente, fará algo semelhante. A origem, como noutros trabalhos, noutras exposições, nasce de um padrão de um banco de um autocarro. Aqui, também, estamos diante de uma pintura, mas algo se parece animar nas superfícies. Os padrões têm uma força mais cinética que, dir-se-ia, revolve o olhar e entorpece o corpo. O profano transforma-se numa experiência interior que é hipodérmica, visual e musical. Todos os nossos sentidos se acendem diante da pintura, ao ponto de esta nos pedir que nos aproximemos para fazermos da nossa visão um sentido quase háptico. Dito de outro modo, num passo de dança incontornável, tocamos neles com os nossos olhos.
Da cultural vernacular, mais obsolescente ou invisível, João Marçal faz pintura, integrando-se numa tradição heterógena, não reduzível a um conjunto coerente de artistas e práticas. Se algo fica desse cultura — um sopro, um eco, um vislumbre — o fim da sua pintura meticulosa e cuidada encontra-se com palavras tais como visibilidade, invisibilidade, tempo, metamorfose. Portanto, num espaço de experiências de carácter também metafísico.
Imagem de Capa
João Marçal, O Paradoxo dos Gémeos. Vista da exposição na Appleton Square, Lisboa, 2026. Foto: João Marçal. Cortesia do artista.