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    Conversa

    Conversa com Rudi Brito

    Carolina Pelletier Fontes

    por Carolina Pelletier Fontes
    Esta entrevista surge no contexto da exposição Alarme, de Rudi Brito, inaugurada na Appleton Box em Dezembro do ano passado e patente até 10 de Janeiro. Numa manhã chuvosa, conversei com o artista sobre o processo de trabalho que culminou nesta mostra.
    O espaço doméstico é um tema artístico recorrente, funcionando como refúgio, palco de intimidade e identidade e, em alguns casos, como extensão do atelier. Entre o habitável e a rotina, o vulnerável, a memória e o silêncio, é utilizado como conceito, meio de criação ou objeto de estudo, talvez por tocar numa pulsão profundamente humana — o domínio íntimo/ interior, entre o  inconsciente, memórias e desejos.
    Em Alarme, a representação do espaço interior, construída através das quatro pinturas que compõem a exposição, detém-se em pormenores e objectos reveladores: a colcha bordada, a natureza-morta do arranjo floral, as taças ornamentadas, a poltrona ampla e rígida, o papel de parede minucioso, ou ainda a pintura na parede que rasga a composição com um raio de cor intensa. Este interesse pelo espaço doméstico não se esgota nas telas, prolongando-se na própria box que serve de plataforma expositiva.


    Carolina Fontes (CF): Alarme, o título desta exposição, sugere desde logo um estado de vigilância. Sobre o que é que devemos estar em alerta?

    Rudi Brito (RB): Apesar de representar paisagens interiores, não habitadas, sítios inertes, tendo em conta a sua plasticidade acho que podem se afirmar como "alarme". É como se toda a matéria estivesse a gritar, apesar de não produzir som. Tenho uma base onde vou apontando palavras ou frases que ressoam. Aliás, é daí que nascem muitas vezes os títulos das minhas pinturas. Quando estava a preparar esta exposição, visitei várias, mas nenhuma delas estava a soar correta. Houve um momento em que vi esta palavra — alarme — e que ressoou de uma maneira mais forte. Também se pode justificar pelo facto de esta ter sido a exposição que mais horas de sono me tirou, por ter tido uma produção mais ambiciosa.

    CF: A nível de montagem, ou do próprio processo de trabalho?

    RB: Mais a nível de montagem e logística. Sinto que esta exposição relacionou-se comigo como um alarme, um despertador que não me largava a um nível muito profundo. Então decidi que faria todo o sentido utilizar este título. E também porque vivemos numa altura em que estamos em alarme constante.


    CF: Uma característica que me parece persistir no teu trabalho é a sensação de que cada pintura contém múltiplas camadas — tanto materiais como narrativas — que se vão revelando à medida que o olhar se torna mais atento. Que referências imagéticas ou visuais estão na origem desta construção? E até que ponto estas camadas são pensadas ou emergem durante o processo?

    RB: Algumas referências que se vêm nas pinturas dos quartos surgem a partir de fotografias de quartos reais. Nas outras duas pinturas [taças], é mais um processo que parte da colagem, onde eu vou buscar elementos florais que vêm de padrões têxteis, ou referências a uma imagem que encontrei de uma taça de prata..


    CF: Desta vez, há quase uma total ausência de cor. As imagens parecem evocar slides de contraste negativo/positivo. Como chegaste a este resultado?

    RB: Sim, esta família de trabalhos que estou agora a desenvolver explora uma técnica muito diferente, que funciona de uma maneira invertida àquela com que eu costumo trabalhar. Ou seja, aqui estou a escavar — tenho uma superfície branca sobre a qual faço uma pintura cuja imagem (e composição) vai surgindo no processo e sem visão prévia do seu todo. No resultado final, o branco corresponde tanto ao suporte como à luz. Isso obriga a uma certa frieza na forma como capto estas imagens, porque não há meios-tons — apenas preto e branco, com algumas cores pontuais adicionadas. Esse acaso introduz um fator surpresa. Este suporte é um contraplacado que é preparado com esmalte sintético, e depois pintado a acrílico por cima. Sendo que o acrílico não agarra ao esmalte, eles ficam sempre numa relação de fragilidade, em que é fácil separá-los. E é isso que utilizo para criar o contraste na pintura. É um processo de remoção e raramente adiciono qualquer coisa depois de retirar.


    CF: A ampliação dentro da própria pintura surge também como um elemento estruturante. As obras aproximam-se de pormenores do espaço interior, evocando o exercício do zoom ou recorte, muito comuns no universo digital e no nosso dia-a-dia. O que te interessa neste gesto de recusa da representação total do espaço?

    RB: Trata-se, antes de mais, de uma questão de perspetiva — mais próxima daquela que uma pessoa teria se estivesse fisicamente no espaço. Sinto que se tivesse de retratar este espaço com mais distância, seria transmitida simplesmente a ideia de um quarto pela sua própria definição. Neste caso, através desta proximidade e também pela própria elevação da tela — pela maneira como ela está posicionada — cria-se uma relação mais humana, mais real. Apesar de pequena, esta cama pode tornar-se verdadeira na perceção de quem olha. Se eu me posicionar no espaço, num certo ângulo, consigo ter uma relação mais real, mais íntima, com o objeto.


    CF: Ou seja, é uma forma de se relacionar automaticamente com o espaço.

    RB: Sim.


    CF: As estruturas em ferro que elevam as pinturas também contribuem para essa relação. Podemos dizer que despertam quase uma sensação de portal, de convite?

    RB: Sim, se for um convite, acho que é um convite meio nostálgico. Um convite para o passado, que por si só é um bocado anacrónico, porque um convite à partida é sempre para alguma coisa que ainda não aconteceu. Sinto que estas imagens, e a carga toda dos espaços interiores retratados desta forma, têm sempre alguma coisa de memória. Até pela maneira como são retratados, que não é completamente fiel. Fazem-me lembrar a ideia que uma pessoa tem de um espaço que não está a ver — como se fosse um retrato de memória.


    CF: Há, então, uma carga temporal muito presente.

    RB: Sim. Como qualquer quarto e qualquer casa: um sítio que foi habitado, e por qualquer motivo já não o é, torna-se um espaço que emana alguma carga. Queria falar sobre isso nestas pinturas. Muitas casas podem ter muita felicidade, mas também podem ter muita carga violenta através da sua história.


    CF: Voltando às estruturas de ferro…

    RB: Sempre que vinha ao espaço, para pensar no que ia fazer para esta exposição, e pelo facto de o espaço ser baixo e amplo, senti que a exposição precisava de escultura. Apesar de querer sempre mostrar pintura, porque é sem dúvida o meu medium, por algum motivo esta exposição despertou outros anseios. Talvez por ser baixo e achatado, tenho a sensação de que tudo é puxado para o centro. Sinto que se estivesse a trazer só pintura, estaria a enfatizar ainda mais essa percepção. Então, surge esta ideia de ter várias mutações. Por outro lado, nunca tive um convite com tanta antecipação como este, o que me deu mais de um ano para poder pensar nesta exposição e aprimorar as ideias até chegar aqui.


    CF: E essa antecipação é boa para os artistas.

    RB: Claro, dá para rasgar ideias e refiná-las.


    CF: E o trabalho transformou-se muito, desde a tua ideia inicial?

    RB: Acho que mudou bastante, mas todas as ideias que tive ao longo do tempo foram sendo absorvidas e houve algo que ficou no resultado final. Foi como um processo de polimento. Durante algum tempo, achei que ia fazer uma escultura no meio do espaço e algumas pinturas nas paredes. Depois tive uma revelação, cerca de três meses antes da exposição abrir, em que percebi como é que podia alterar o espaço fazendo este forro em madeira e transformando a pintura em escultura. Percebi que conseguia fazer das pinturas esculturas, e resolver, assim, o problema do espaço.


    CF: Ou seja, quiseste afastar-te de uma lógica unilateral e isso abriu novas possibilidades de criar?

    RB: Sim. Algumas pinturas já existiam antes de saber que iam ficar nestas estruturas. Já as fazia em madeira, mas ainda com a ideia que podiam ficar na parede. Quando tive a ideia de as ter em pares, em monólitos, decidi fazer estas estruturas com um certo peso, com profundidade e em metal. Decidi também incluir as partes de trás, e permitir que se pudesse ver entre as estruturas.

    CF: Portanto, cada estrutura torna-se, assim, um corpo de trabalho.

    RB: A maneira como as pinturas foram postas em pares tem uma razão. Quando instalei este trabalho, apercebi-me da problemática de haver sempre uma parte de trás que podia ser mais negligenciada. Eu não queria ter, por exemplo, AA e depois BB — não queria que fosse assim tão óbvio. E também me interessava essa dinâmica de haver duas taças e dois quartos, mas de nunca serem vistos ao mesmo tempo. E por isso, torna-se necessário recorrer à memória para perceber se as pinturas são exatamente iguais.

    CF: Essa ideia estende-se também ao espaço envolvente, com o revestimento do espaço a contrastar com as estruturas em ferro? 

    RB: Durante muito tempo (acho que foi na reta final da preparação desta exposição), estive a rever muitas fotografias da fase em que passei nove meses no Japão e onde tive a oportunidade de pintar num pequeno estúdio. Esse espaço era uma casa japonesa tradicional toda em madeira, incluindo chão e teto, que cria um sentimento de absorção total. Mas como era no Japão, era provavelmente um oitavo desta sala.

    CF: …mas onde havia espaço para tudo.

    RB: Sim, e chegava perfeitamente, as pessoas adaptam-se. E de repente, quando estava a ver as fotografias das pinturas que fiz nesse período, senti que o facto de estarem nesse ambiente (rodeadas de madeira) mudava muito a percepção que eu tinha sobre elas. Em vez de estarem numa espécie de "white cube", estão num ambiente com muito mais calor. E por isso, decidi fazer uma réplica desse espaço. E aqui, pelo facto de as tábuas de madeira serem em contraplacado, os nós tornam-se muito visíveis, e cada nó destes evidencia aquilo que em tempos foi um galho de uma planta. Para mim foi uma surpresa positiva ver como é que estas madeiras funcionam no espaço, porque sinto que atribui logo muito movimento e calor. É quase como se estivesse numa sala em chamas.

    CF: E sentes que vais dar continuidade a este corpo de trabalho?

    RB: Sinto que o meu trabalho se auto-informa. Está sempre um bocado de mãos dadas. Cada peça e cada ano está de mãos dadas com o ano seguinte. O facto de eu ter feito das pinturas esculturas é muito importante no meu percurso e é algo que vou continuar a explorar.

    CF: Existe algum elemento desta exposição que consideres central para compreender o teu percurso e a forma como o trabalho dialoga com outras dimensões da tua prática?

    RB: Há uma coisa que esteve sempre presente no meu trabalho e que é interessante mencionar. Eu sempre fiz pintura, desde criança, sempre foi a minha atividade preferida. Mas, entretanto, depois de acabar a minha licenciatura nas Caldas da Rainha, estive mais ligado à música durante algum tempo. E depois, quando a minha filha nasceu, tive de fazer uma escolha. Decidi então deixar a música de lado e dedicar-me inteiramente à pintura. No entanto, penso que há muita coisa na música que nunca saiu do meu trabalho. E nestas pinturas, especificamente na Alarm Clock, fui buscar um elemento de umas pinturas antigas (2019) que fiz logo depois desse período, em que a música ainda estava muito presente na minha vida. Este elemento a vermelho, veio de uns desenhos onde eu o usava para representar o som. Acho que era a Virgínia Woolf que dizia “cada arte tem o seu silêncio”. E a pintura, acho que acaba por ser das artes mais silenciosas. E quando a pintura é boa, eu sinto que há uma suspensão na sala. E muitas vezes, se a pintura causa silêncio, acredito que seja porque há alguma profundidade. Porque é preciso algum silêncio para assimilar. E a mim, também me interessa essa ideia de ter uma pintura com som. Que, neste caso, seja uma representação do som.

    Durante o processo desta pintura, também me falaram de um artista, Satch Hoyt, com um trabalho que achei incrível. Consiste numa pesquisa que tem como atividade principal visitar museus etnológicos, e mediante autorização dos mesmos, tocar os instrumentos que estão guardados há centenas de anos. O argumento dele é que esses instrumentos foram feitos para serem tocados e que, apesar de serem artefactos com milhares de anos, eles têm apenas essa função. Então, surge essa dicotomia — apesar de um instrumento estar dentro de um cubo de vidro, com alarmes e com um perímetro de segurança que o torna inacessível, não perde o seu propósito nem a sua potencialidade.

    CF: Este diálogo com o som e a função dos instrumentos antigos sugere uma reflexão sobre o propósito. É como se continuássemos a alimentar a sua função, como se possibilitássemos o prolongamento da sua vida, mas ao retirar-lhe isso, estamos a danificá-los ainda mais. Como é que esta lógica se relaciona com o teu trabalho?

    RB: Exactamente. E estaríamos a danificá-los por excesso de zelo. Ou seja, o que é que é um instrumento musical estridente dentro de um cubo de vidro? Continua a ser poderoso, porque apesar de não se poder tocar nele, continua a carregar um propósito. Acho que é interessante esse conceito, e paralelamente é um bocado aquilo que tento fazer com estas pinturas. Tento que elas sejam estridentes no seu vácuo.

    CF: Ainda refletindo sobre esta relação com a música e com o propósito, o material que reveste a parede também se pode aproximar deste conceito?

    RB: Sim, o facto da própria sala ser uma caixa, aproxima-se na utilização do material que é também utilizado para construir uma guitarra, um piano. Ou mesmo um soundsystem.

    CF: E atualmente, de que maneira a música continua a fazer parte da tua vida?

    RB: Fazia música com sintetizadores e cassetes, cheguei a lançar álbuns e a fazer digressões no Reino Unido. Não digo que nunca mais volte a tocar, mas [afastar-me da música] foi uma decisão que tive de tomar, e fico feliz. Deu-me a oportunidade de aprofundar muito mais a pintura, provavelmente de uma maneira mais investida do que se me tivesse dividido. Sei que posso sempre voltar a pegar na música mais tarde, e às vezes faço coisas com a [minha filha] Gloria, assim só por gosto.

    Rudi Brito, Alarme. Vistas da exposição na Appleton Box, Lisboa, 2025. Foto: tspt studio. Cortesia Appleton.

    Carolina Pelletier Fontes (1995, Lisboa) é curadora, gestora e produtora cultural. Mestre em Curadoria e Coleções pela Chelsea College of Arts (Londres), tem vindo a dedicar-se à produção de exposições, gestão de projetos e mediação cultural, particularmente no diálogo entre África e Europa através da arte contemporânea. Atualmente, desenvolve projetos para a FAS - Forward Art Stories, desde exposições internacionais a programas de residências artísticas. A sua experiência anterior inclui passagens pela Peggy Guggenheim Collection, em Veneza, e pela Galeria Filomena Soares, em Lisboa. Produziu exposições em colaboração com instituições como as Galerias Municipais de Lisboa e o Hangar - Centro de Investigação Artística, e publicou artigos na plataforma online Contemporânea.