O Baile dos Bugalhos e a valsa das instituições — o fazer colectivo dos Institution(ings)
Institution(ings) é um projecto colaborativo que une várias instituições a nível europeu, diversas em escala, escopo e meios de acção, para pensar em conjunto de que forma as “casas” da arte e da cultura podem ser mais presentes nos fluxos da vida colectiva, respondendo às múltiplas e sucessivas alterações sociais, políticas e tecnológicas que enformam novas fórmulas relacionais entre a humanidade e o mundo. Ligando a Universidade Católica Portuguesa, o HANGAR, o Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, a Jan van Eyck Academie, o Tensta Konsthall, o Museum of Impossible Forms, a Listening Academy, e a HDK-Valand, o projecto esbate as linhas (já ténues) entre academia e instituição cultural, explorando a permeabilidade entre espaços e intervenientes na procura de questionar e actualizar o papel que as instituições podem tomar na vida comum.
Liderado por Luísa Santos a partir da UCP, onde é professora, Institution(ings) tem a sua primeira iteração portuguesa em Baile dos Bugalhos / Gall Ball. Esta exposição individual de Francisco Trêpa, no CAM Gulbenkian, foi o mote para a conversa que tivemos na biblioteca pública do projecto, no mesmo espaço. Entretecendo percepções subjectivas — impressões, tanto sobre o projecto como sobre a conjectura actual da cultura e das artes (à qual o projecto é também acção-reacção) — com intervenções e citações da curadora Luísa Santos, este texto-conversa começa na raiz para entender a árvore, navegando pelos princípios e paradoxos de um projeto que se define como “uma experiência colaborativa, cumulativa e em curso”.
É a partir do CAM, em Lisboa, agora transformado em laboratório de práticas curatoriais, educativas e relacionais, que o projecto começa a questionar modelos institucionais hegemónicos, e que encontramos o primeiro nó de uma rede (institucional e conceptual) extensa. Como explica Luísa Santos, “é sobre especulação de futuros, como as instituições podem ser e como é que podem existir outros modelos diferentes daqueles que existem agora, mais baseados em partilha, em colaboração” — sempre com extrema consciência das diferenças no acesso às condições materiais e estruturais (como exemplo, a curadora refere os seus parceiros ucranianos e as suas reduzidas horas de acesso à luz eléctrica), mas também às próprias instituições e às suas linguagens.
A exposição Baile dos Bugalhos, de Francisco Trêpa, é uma proposta museológica curiosa e diferente, especialmente pela aproximação comunal e horizontal à curadoria, a cargo dos alunos de Luísa Santos no mestrado em Estudos de Cultura da Universidade Católica. O processo coletivo (e pedagógico) foi tão importante quanto o resultado: “começaram por pensar o que pode ser a curadoria de uma exposição, o que é um texto de parede, como é que se fazem as legendas, e como é que se pensa numa exposição em processo”, explica a curadora desdobrada em professora. O modelo que emergiu é o de uma “exposição em construção, quase uma coreografia”, onde as peças de cerâmica de Trêpa entram e saem do espaço conforme os estágios do seu acabamento: vão mudando e mutando ao longo do tempo, vão sendo lentamente cozidas, vidradas, cozidas de novo, vão elas mesmas se fazendo com cada viagem e cada visita. Não há legendas, no sentido convencional da museologia, mas pequenas ficções que os alunos-curadores escreveram a partir da perspectiva das figuras que habitam o salão de baile, “como se as peças tivessem uma voz”, diz Luísa. Nestes pequenos gestos colectivos dissolvem-se pré-concepções do que é a curadoria, e sou recordada da “condição curatorial” que Beatrice von Bismarck teorizou: uma forma de relacionalidade entre corpos, baseada nas dinâmicas fluidas da constelação, da transposição e da hospitalidade.
A escolha de Trêpa para iniciar o ciclo não foi casual, mas resulta de uma confluência de vontades de experimentar com outros formatos expositivos. O artista parte do bugalho — numa reacção do carvalho à picada de uma vespa, que deposita os seus ovos e algumas toxinas que alteram o código genético da árvore, forma-se uma pequena bola (o bugalho) que, contrariamente à bolota, não permite a propagação mas serve de ninho à larva da vespa, e posteriormente de refúgio para outros animais e organismos — para explorar (como refere numa entrevista com Mattia Tosti) a multiplicidade de uma relação que, “embora parasitária, e até violenta em certos aspetos, revela também uma dimensão de generosidade e de empatia biológica”[1]. E Luísa Santos traça o paralelo entre a exposição e o projecto: “o Institution(ings) é isso, uma reação a várias agressões externas, ao perceber que as instituições têm que se transformar. Mas que também podem ser lugar de refúgio para outras instituições mais pequenas e independentes”.
Esta forma de fazer curadoria, atenta na escuta e cuidada no detalhe, denota-se até na forma como o espaço está desenhado para receber a multiplicidade de activações que se desenrolarão nos próximos três anos. Falo da estrutura expositiva, criada por alunos de arquitectura da Universidade Autónoma, a partir de uma premissa aparentemente simples: “não podiam utilizar materiais novos, não podiam comprar nada, tinham que usar apenas materiais já existentes”. O resultado é uma estrutura modular flexível, construída com restos de exposições anteriores, onde se podem abrir e fechar espaços, permitindo até seis artistas em residência simultânea. Esta fluidez espacial permite acolher múltiplas atividades e formatos, da biblioteca à exposição, dos ateliers às oficinas educativas — uma forma generativa de pensar o museu, onde as paredes se transformam em estantes, a sala se desdobra em laboratórios, e tudo acontece paralelamente à coreografia das peças que saem e voltam a entrar, cada vez mais aprumadas para o baile.
O próprio espaço está aberto à crítica, e procura-a activamente em vozes diferenciadas, num processo contínuo de teste, erro, crítica e reformulação que será acompanhado pelos alunos arquitectos responsáveis. O colectivo A Avó Veio Trabalhar foi convidado a habitar e utilizar o espaço em 2027 — convite estendido ainda a comunidades com as quais o coletivo tem vindo a colaborar — para identificar possíveis falhas na sua acessibilidade real e na forma como respeita todos os seus visitantes. Ainda este ano, um laboratório de materiais com a Antecâmara (Alessia Alegri, Pedro Campos Costa, e Iván Prego) vai abrir o espaço à reflexão sobre o fim de vida das estruturas expositivas, a enorme pegada ecológica brutal das exposições, e de que formas as instituições podem ser mais conscientes nas escolhas e (re)utilizações de materiais.
Um recanto de sofás confortáveis é ladeado por uma pequena biblioteca coletiva, que vai crescendo com as sugestões de todos os que participam no projeto, e que cria um lugar de permanência cumulativa num espaço de fluxo. Nas paredes, fixam-se rastos e memórias das coisas que foram acontecendo – cartazes de workshops, mapas mentais, ou um vídeo dos Apparatus22, colectivo em residência durante o mês de Dezembro. O que vai ficando é eventualmente substituído por algo novo, por uma acção nova, mas tudo fica em arquivo: são editadas pequenas publicações para cada atividade (todas disponíveis no site do projecto), como a que acompanhará a exposição de Trêpa, e que incluirá ensaios dos alunos, uma entrevista e até alguns poemas que André Tecedeiro leu para as peças. O projecto será ainda complementado por um Glossário colectivo — construído a partir de uma open call para contribuições de textos, vídeos e tudo o que se queira submeter (desde que cumprindo o código de conduta) —, arquivo vivo e colaborativo de uma constelação conceptual construída nas malhas de uma rede crítica de partilha transeuropeia.
Paralelamente à exposição de Trêpa, outro grupo de alunos trabalha numa próxima exposição a partir da coleção do CAM, tentativamente um exercício de desconstrução crítica. Numa formulação pedagógica e consciente, Luísa Santos levou-os a questionar como os preconceitos se imiscuem nos actos de colecionar e de dar a ver, e como a curadoria lhes deve uma atenção profunda: “Como é que isso é feito? Porquê que é feito? É feito conscientemente ou inconscientemente? E se é inconscientemente, então o que é que se pode fazer para desaprender essa inconsciência?”. Tendo aterrado colectivamente no conceito de “fragilidade”, parte do processo curatorial passa também por ter em atenção a forma como se comunica a sensibilidade, com a proposta de convidar outros públicos diversos, incluindo crianças, a partilharem as suas leituras das obras e da exposição.
Passado o primeiro ano do projecto, o balanço é necessariamente complexo, e Luísa Santos afirma a necessidade de combater as dinâmicas desiguais de poder entre instituições de diferentes escalas (e alcançes, e meios) e gerir as assimetrias entre os pontos desta rede — assumindo as tensões como espaço fértil para questionar a forma cristalizada como muitas instituições estão estabelecidas. Institution(ings) quer ser um bugalho na enraizada árvore institucional: uma acção-reação, criativa e colectiva, às agressões externas (como crises ecológicas e legados coloniais) e internas (como a rigidez e a exclusão dos modelos institucionais), que (se) oferece como um espaço-tempo para experimentar outras formas de existência. Construído por múltiplas mãos, acumuladas no barro das peças, nas salas de trabalho, nas estantes e seus livros, é uma coreografia de gestos – curatoriais, pedagógicos, experimentais, artísticos – que tenta desenhar, no presente, o rascunho de uma instituição futura: sem paredes rígidas, atenta às suas próprias exclusões, refúgio e laboratório para os micro-organismos (artistas, curadores, arquitetos, públicos) cocriarem “um ecossistema mais justo, mais transparente, mais acolhedor”.
Francisco Trêpa, Baile dos Bugalhos. Vistas da exposição no Centro de Arte Moderna / Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2025. Fotos: Pedro Pina. Cortesia CAM/Fundação Calouste Gulbenkian.