“Se o tempo é infinito, em qualquer instante estamos no centro do tempo.”
Continuar a ouvir. O dia está por um fio. Ainda não é o momento de abandonar. Não é certo que durante a vida os acontecimentos nos agarrem e deles estoire o que quer que seja. Esperar. Talvez não, excepto se nos recordarmos que lá longe estará alguém. Os problemas continuam, sempre os mesmos, sem resultados, apenas fraquezas. Subimos e descemos, o que é o mesmo. Fugimos para não ouvir nada, de olhos fechados para nada ver. Antes de sermos empurrados. Acreditar na vida extraterrestre. Sempre aquela medida extra-moral para apurar a espécie. O fascismo gesticula. Dramático. Sem sobriedade. Enfático e repressivo. Assim se tece a psicopatia da imortalidade. O controle esgota-se na fiel apologética do refinamento da culpa. A fome esquiva-se à agitação do luxo num mundo que mistura o desespero com folhetins reconciliadores. Entre Trogloditas e Homero. Como Marco Flamínio Rufo, tropeçamos no rio, bebemos a água dos Imortais, perdemos o idioma e contemplamos a eternidade. Nada de mais, nada de menos. Apenas ontem. Como sempre. Amanhã talvez só o intenso cansaço e as palavras que multiplicam falhas e imitações. Milhões de anos difundem ruídos. O primeiro dia foi tentar não cair no buraco. Curvados ao fardo das respostas que assinalam o abismo. Nenhuma imagem cristalina para deixar a respiração parar tempo demais. Deixar-se enganar. A violência, os privilégios, a desigualdade. A linguagem que constrói o nosso espaço de controle e violência, de força social e autonomia. Território de fuga e conflito — a clandestinidade. A escrita e o imaginário, palavra a palavra, selvajaria prodigiosa, movimento e risco. O ideal que se agita na representação colectiva, sempre singular, sempre ponto de partida. Nada será como antes, diz o revolucionário enquanto convoca a ruína do sistema. A tentativa e a subversão. A rua e a soberania. Não importa o mundo se nele reina o terror que, perante cada um de nós, é devolvido na forma da mistificação ideológica. Crer ou não crer, o imortal sem nome. Apenas assim. Continuar. O fim da vida, o fim da história, o fim da revolução. O fim. A radicalidade do mistério. Nada a assinalar no longo silêncio que regressa sempre que as vozes se afastam. Não há razão para falar, para calar. Talvez ouvir já baste. Continuamos como podemos, sem muita esperança, sem apaixonado medo. Assim-assim. Prisioneiros do bem-estar, dos mestres, do escuro, da tristeza, dos outros, de cada um, de tudo o que ficou para trás, de tudo o que está por descobrir. Ninguém sabe onde estão os que já partiram e quem serão os que ainda estão por vir:
Tornamo-nos os homens que somos quando descobrimos, não sei quando nem como, que teríamos que morrer; que os nossos parentes, que as pessoas que amamos, haveriam de morrer. Na semana dos mortos, entremos, hoje, nos nossos cemitérios. Noto que até certo ponto se parecem com cidades, com as suas ruas, as suas praças, avenidas, os seus imóveis de família [...] com os seus bairros para ricos e os seus bairros de pobres. Metrópole, necrópole.1
Tudo pretende significar, tudo aspira ao sentido — o excesso forçado, demasiadas coisas, o mesmo e o último que monotonamente se repetem. A voz de Beckett que não desaparece. Um tagarela a sorrir, fechado num cérebro qualquer. A sombra no texto enuncia um outro lugar, revela o movimento próprio da ficção. As luzes tombam na humanidade que acolhe a pertença, como um jardim que se abre ao desatino, uma força que se disfarça na tensão do desejo. Na aparente imobilidade da desordem abre-se a inquietação do mundo de Salpêtrière. O Mesmo e o Outro. Michel Foucault e as figuras da finitude. Tudo se aproxima da vontade de transgressão. Olhar de frente, entre a animalidade e a domesticação, a distância e a proximidade, a verdade e a cura — recomeçar a partir do instante em que o Logos se torna um estranho caminho vulnerável e através do qual se acede à incerteza, ao desaparecimento. A metafísica ocidental dilui-se na espessura da velha interioridade e da significação desalojada. A morte torna-se contestação e memória, um espaço comum para a fadiga. Lucrécio, que recusava a imortalidade da alma, já admitia que se perdemos o infinito passado, não deixamos também de perder o infinito futuro. A natureza das coisas. Escreveu singularmente Borges, assim invocando o carácter persuasivo e inútil que da imortalidade se oferece:
(I) Ser imortal é insignificante; com excepção do homem, todas as criaturas o são, pois ignoram a morte; o divino, o terrível, o incompreensível é saber-se imortal.2
Retomemos sem saber porquê o pensamento que vagueia. Não é que isso conte, mas sempre nos impede algum peso na consciência e de encontrar o que procuramos exactamente. Não que queiramos acabar com todos os demónios ou ameaças às nossas vidas. Apenas motivados por uma espécie de crença. Nada mais. Todos nos oferecem a possibilidade de salvar alguns dias da acentuada solidão. Alguns esforços, mas sempre abandonados neste acampamento do infortúnio e de moribundos a que chamamos mundo. Nada de diferente. Tudo como habitualmente. Em todo o caso, podemos continuar a perguntar-nos o que será que devemos ambicionar, sem entusiasmo. Há sempre uma parte de nós que aguarda que algo aconteça. Chegamos tarde, continuamos a chegar tarde. Sem história. Apenas quimeras. A aura benjaminiana que acena nos amores ausentes ou defuntos, a celebração do tempo na nossa memória. Como em Mãe e Filho, de Sokurov, durante o dia somos carregados ao colo, voltamos a casa e depois morremos. Sozinhos. Uma vida que corre na imanência da morte. A separação. Sobre o que haveria a vida de nos falar? A perda. Não há outra coisa. A vida como forma de matar o tempo. O esquecimento e o sintoma de negação nostálgica, diria Theodor Adorno. A tristeza. O tempo da morte, o sentido do real, uma perturbação. O nosso duplo. Um resto de tempo, um resto de luto, a ruína:
A ruína não sobrevive como um acidente de um monumento ontem intacto. No começo existe a ruína. Ruína é o que chega aqui à imagem desde o primeiro olhar. (...) A ruína não é perante nós, nem um espectáculo nem um objecto de amor. Ela é a própria experiência: nem o fragmento abandonado mas ainda monumental de uma totalidade, nem apenas, como pensava Benjamin, um tema da cultura barroca.3
Aguardamos os recomeços. É isto! Uma exclamação, diria novamente Roland Barthes. O tempo como fundamento último da passagem. Mudamos com a luz, mudamos com o sol. A morte como a grande humanização do tempo que abala qualquer ontologia. O presente que passa dando lugar a um novo presente ou a imortalidade em cada nova existência — a forma da solidariedade constitutiva. Espírito de equipa, assim lhe chamam. Present continuous tense, enquanto vivemos: “Não é a chegada da morte, é a partida da vida o que apavora. Não é sobre a morte a atacar a vida; é a vida a resistir injuriosamente à morte.”4 Os acontecimentos sucedem-se, tudo se imobiliza. Repetições infinitas, fortes, insistentes. A ilusão enfraquece e confirma-se em múltiplos sinais, mais uma vez, no final de tudo, ainda. Não sabemos o que fazer para não perder a cabeça. Um dia. Aproveitamos as contrapartidas que julgamos servir para pôr fim ao aborrecimento, à mentira, à imundície. Nem tudo é mau pois a vida transforma-nos num grande fóssil. Dentes e esqueletos convivem com outros animais e vegetais, conchas, folhas, troncos, ovos, restos e marcas que não aspiram à totalidade. Desenham a condição sine qua non do universo. A paleontologia devolve-nos o que sempre existiu, a deterioração e a biodiversidade sem intervalo, tempo enterrado, à vista de todos. Tanto trabalho para alguma coisa, para nos confundir. O mínimo é o despenhadeiro imortal que nos puseram no caminho. Nada vai acabar, as boas maneiras e os suspeitos interesses usam os mesmos códigos, prolongam-se sem qualquer convulsão, basta não perder a esperança. Mais cedo ou mais tarde aqueles apelos caridosos fazem notar que devemos negociar em nome da estabilidade — os pobres continuam no estado rudimentar dos direitos e na obrigação eterna dos deveres. A fome não é possibilidade de escolha, tornou-se um fiasco da democracia. Sobreviver é a palavra de ordem. Não vale a pena culpar ou procurar salvação. As relações sociais incluem a representação espectacular debordiana, a igreja perpetua a dependência psicológica e a arte é cúmplice dos sistemas de exploração. O entretenimento convertido em laissez faire laissez passer. Tudo funciona para a eficácia do regime. O cinismo, a cretinice e o oportunismo associam-se para melhor servir o encarceramento das nossas vidas. O veneno do dragão-de-komodo não faria melhor. Diz-se que o habitat destes animais está em perigo, ao contrário dos cínicos, cretinos e oportunistas que se reproduzem, dizemos nós. Comportamentos organizados e regulados objectivam as relações de sujeição. A rede de interesses interpessoais configura um autêntico programa de investimentos. A mortalidade pode assumir híbridas formas apesar de persistirmos em fixar o sentido e convertê-lo em taxonomia. Afastamo-nos de onde estamos, não mudamos, de lugar, de tom, de vida. Também podemos dizer que de tempos em tempos escapamos do que nos cansa, como quem se reduz ao silêncio para se convencer de que em breve será declarada a extinção da espécie. Perderemos o fim do mundo. Seremos muitos. Quantos mais, melhor. Por agora somos suficientes. Adormecemos. O que conta é a pálida humanidade muda, penitente, reconciliada. Que importa o que se deseja se a absolvição é o caminho? Viajamos nos lugares do medo durante vários dias repetindo as estranhas ocupações sem consolo. A indiferença. O abandono. Funcionamos como um corpo ligado à máquina, apanhado a morrer todos os dias e, com ele, o mundo inteiro. Rapidamente é declarada a vontade de ser Moken, nómada do mar, viver da fauna e flora marítimas, sem pressa, apenas habitando o mar. Dele se afastam durante as chuvas mas regressam sempre às mesmas ilhas. Diz-se que não reivindicam direitos de propriedade porque maioritariamente acreditam que a terra e a água devem ser partilhadas por muitas pessoas. Regredimos até nos tornarmos incompreensíveis para os outros. Entre a vida e a morte, aguardamos poder escrever sem condescender, dizer com outras palavras, antes de nos fecharmos na protecção do desaparecimento. Arrebatados pela última vez, construímos um outro guião sem esperar que diante de nós um barco vazio nos transporte na noite, maior que as palavras, determinado como o mar. Já não nos chamam de repente. A grandeza do desconhecido ainda não chegou, imprevisível e raro. Alguns séculos decorreram. As pessoas morrem e as suas vidas continuam depois da morte. O que pensaram, fizeram, destruíram, amaram. Avançar na mesma direcção mas através de outro rio. Marco Flamínio Rufo transformado no antiquário Joseph Cartaphilus. Volta a beber água de outro rio. O único em cada coisa. A mão fere-se no espinho. O sangue volta e escorre. Anos depois morre, deixando a sua história num manuscrito dentro de uma grande e envelhecida enciclopédia. A mortalidade:
(II) Tudo, entre os mortais, tem o calor do irrecuperável e do fortuito. Entre os Imortais, ao contrário, cada acto (e cada pensamento) é o eco de outros que no passado o antecederam, sem princípio visível, ou o fiel presságio de outros que no futuro o repetirão até à vertigem. Não há coisa que não esteja como que perdida entre infatigáveis espelhos. Nada pode ocorrer uma só vez, nada é preciosamente precário. O elegíaco, o grave, o cerimonioso, não vigoram para os Imortais.5
O duplo e o mecanismo ilusório da imortalidade. Eliminar o duplo — regressar à finitude, à mortalidade. O reencontro do sujeito consigo mesmo. Não o desdobramento do Um mas, antes, a reduplicação do Outro. O duplo como desdobramento do sujeito — o seu Outro, aquele que cada um encontra em si mesmo, a libertação como medo do encontro. Cada um a différance do outro, sem oposição binária eu/duplo mas antes um suplemento acrescentado ao modelo. Um e outro sempre iminentes, continuamente inesperados. Repetição do Diferente. Sem projecção do interior. Duplos sem semelhança e não uma cópia que indique um outro verdadeiro, um possível outro e único — não há cópia ou réplica mas sim Duplo. A estrutura de ficção presente na verdade. Je est un autre. Lemos nos jornais que o fim do universo pode acontecer mais cedo que o esperado. A Terra poderá até extinguir-se muito antes. O mundo é uma armadilha. Escreveremos um memorandum, tudo começará e acabará com ele. Incluiremos acontecimentos raros, questões metafísicas a inventar — como são praticamente todas —, histórias oficiais e desmentidos, aforismos e enigmas, palavras e palavras, muitas, factos insignificantes resultantes de profundas investigações levadas a cabo na academia e, claro está, problemáticas especiais da moda, que consagrem todas as formas de prestígio transepistémico, impulsionadoras do psiquismo universal. A violência apagará a História. Sem qualquer horizonte político, valor ou compromisso. O controle permanente substitui a função crítica. Repetimos todas as experiências. Não saímos do mesmo lugar. Na Primavera, os jovens patos permanecem na água do lago e banham-se entre incontáveis nenúfares. Em carta enviada a Cézanne, Zola aconselhou o pintor de que este não devia acreditar numa admiração excessiva das suas paisagens e que, sobretudo, aí estaria o abismo — nunca apreciar um quadro por ter sido pintado depressa. É um imperativo afastar-se de um pintor comercial aquele que, nas palavras do escritor, pinta de manhã a pensar no pão da tarde. Vamos sobrevivendo às lembranças da fome, escapando ao que nos afunda. A arte é onde se pode envelhecer no maior abandono. Os anos passam e tomam conta do corpo que se recolhe. Admiramos a vida que não tivemos e graças à qual todos os dias refazemos o inferno. Chegam-nos os mortos, cativos da canção de embalar. Que podemos nós fazer, além de suspeitar que a imperfeição nos está reservada até aos ossos? Tudo igual. Casos típicos que se mostram repetidos. Dependemos do que importa, do que não importa, voltamos a errar. Próximos do fim que nunca chega, continuamos isolados entre rumores de suposições. Deixamos de acreditar que, em qualquer lado, as coisas mais importantes mudam. Nada acaba com a nossa existência rodeada de promessas, aqui e ali, para melhor fingirmos que desejamos vencer. A monotonia torna-se o ritmo que se inscreve no destino sem importância, uma prodigiosa extensão da imobilidade. Até ao último momento é um certo grau de terror vertiginoso que nos atravessa, como quem sai de um mau repertório. Levamos tempo a compreender que saber onde estamos não serve para nada. Apenas resistimos porque qualquer outro esforço nos obrigaria a uma pálida oportunidade de desencanto. Tempo demais, tempo perdido, de mão dada. Esperamos que aconteça sabe-se lá o quê. Como o narrador de Borges, descobriremos que não somos Marco Flamínio Rufo e em pouco tempo seremos Ninguém:
(III) Quando o fim se aproxima, já não restam imagens da lembrança; só restam palavras. Não é estranho que o tempo tenha confundido aquelas que alguma vez representaram com aquelas que foram símbolos da sorte de quem me acompanhou, por tantos séculos. Eu fui Homero; em breve serei Ninguém, como Ulisses; em breve serei todos: estarei morto.6
Abrimos os olhos e a narrativa fixa-nos em circunstâncias que a todos inclui. Estaremos mortos, como Ulisses. Ninguém e a perversão do tempo, o esquecimento da origem ou a interrogação genealógica. Tudo para construir e imortalizar. A literatura forma um discurso sem a protecção da verdade, túneis que desembocam na indefinição das palavras e na linguagem sem garantia, dissimulada — como os metafísicos de Tlon, criados por Borges, que procuram o assombro e projectam a metafísica no domínio da literatura fantástica. Não sabemos nada, apenas queremos ir até ao fim, efabulamos para não prolongar a impotência. Deve haver tempo suficiente para instaurar o brilho do herói. Um poema. A angústia da influência que impede o vórtice de tudo dizer. No texto sobressai a desordem atraída pela força que se inscreve no arquivo — depósitos e vestígios que modelam as condições de existência e o inconsciente histórico. Imagens que convocam singularidades que se reescrevem e inventam, territórios circunscritos e difusos, ódios e afectos, a lei e o poder, o devir. É sempre possível a sobrevivência e a exclusão. Momentos, anos, séculos que nos redimem do ciclo da vida e da morte, dos mistérios dos iniciados. Ecofeministas, anticapitalistas, activistas, pós e pré-humanistas, futurologistas, istas disto e daquilo que não perdem uma feira de arte. Uma verdadeira “enciclopédia chinesa” do art world, diria Borges. Distopia chic. Classificações e lugares comuns, a ordem dos saberes e Las Meninas. Entre Velásquez e Foucault, palavras e imagens, quadros e personagens, a soberania e o artifício. Vemos e somos vistos. O modelo e o pintor. A janela, dentro e fora da representação — o visível e o invisível. O mundo ao minuto. Vitorioso e débil. Entretanto, mendigamos o suficiente para continuar a ressurreição. Os ditadores aquecem e aspiram a figuras exemplares, inseguros no estilo e confiantes na sua raiva inarticulada. Modelos económicos, políticos e sociais, alinhados na ineficácia, estabelecem o ambiente comum para as massas. Há que esperar pelo sentido propagandístico, táctico e litúrgico. O happy end malabarista clama pelo ritual mágico, opressivo e obsoleto. O messianismo dramático sem antagonista e constituinte épico tem a sua dimensão expressiva na objectivação do conformismo e no monopólio da contradição que se joga entre a promessa de liberdade e a ilusão repressiva da acção heróica. Banqueiros e carreiras políticas, governos e negócios, capitalismo make-up e compulsivo. Recomeçamos sem apagar o que fomos. Debitamos narrativas que colapsam umas atrás das outras. As cinzas ardem e vagueiam. Desistimos. O eterno retorno que não termina. Continuamos a insistir. Sem saber porquê. Não há miragens. Os sentidos não se deixam enganar. Recompõem-se para não perder o juízo. Sabem lá eles desrespeitar o estado das coisas, a autoridade, o poder, a oportunidade, o sucesso. A multidão anuncia os brandos costumes. Adormece na trama falhada do espectáculo, confessa que já é tarde para uma saída. Para um lado e para o outro, no fio da navalha, à superfície da terra, cada vez mais fundo. É possível que não saiba quando começa o esquecimento. O médico lá estará para a condenar à superação. Os extraterrestres com artilharia futurista transformar-se-ão em anjos para nos fazer o check-out. A crença no progresso não desapareceu. Converteu-se numa plataforma ao serviço do avanço tecnológico. À nossa volta o mundo é cada vez mais inabitável, afundado em meditações que disparam salvação e vigilância para o corpo e para a alma. Tudo na mesma. O significado enrolado em teorias que nos garantem experiências pessoais autênticas, originais e elevadas. Manuais de boa vizinhança, da arte de bem viver, da gratidão, de cuidar e iluminar, declaram que as nossas fúrias não são mais que o desequilíbrio das emoções. Precisamos de libertação, paz, serenidade, de patrulhar a mente. A quietude. Procuramos a ficção que a tela nos oferece e graças à qual mobilizamos o devaneio entre o Real e o Simbólico — Mãe e Filho devolve-nos a hipnose e o sofrimento, a impossível verosimilhança e a morte:
Filho — Eu sei porque tens tanta pena de mim. Receias que eu fique sozinho. Não te preocupes, isso é uma tolice. Não vais morrer, eu estou contigo. Estamos juntos. Não, não vais morrer.
Mãe — Não é nada disso. Uma pessoa vive bem sozinha. Não é nenhuma tragédia, nenhum desastre. É tão triste. Ainda por cima tens que passar por tudo aquilo que eu sofri. É tão injusto.
Filho — Dorme um bocadinho Mãe, eu volto já.7
Conta-nos Herzog na sua autobiografia, que em Munique a sua mãe terá feito uma amiga que chegara do Leste da Turquia. Imortal é aprender turco nos últimos seis anos de vida.
Jorge Luis Borges — I. II. III. A Trindade. Imortal é a Eternidade. Que volta já.
Imagem Capa
Mother and Son, 1997, de Alexander Sokurov, Still
A autora escreve ao abrigo do antigo acordo ortográfico.
- SERRES, Michel (2005) – “Pequeñas crónicas del domingo en la noche”. Entrevista com Michel Polaco. In: Ciencias Sociales y Educación, 8 (15), Janeiro-Junho de 2019, p. 293.
- BORGES, Jorge Luis (1988) – “O Imortal”. In: O Aleph. Lisboa: Editorial Estampa, Colecção Ficções, p. 21.
- DERRIDA, Jacques (1990) – Mémoires d’aveugle. L’autoportrait et autres ruines. Paris: Éditions de la Réunion des Musées Nationaux, p. 72.
- MAETERLINCK, Maurice (1997) – A Morte. Alpiarça: Garrido, p. 25.
- BORGES, Jorge Luis (1988) – “O Imortal”. In: O Aleph. Lisboa: Editorial Estampa, Colecção Ficções, p. 23.
- BORGES, Jorge Luis (1988) – “O Imortal”. In: O Aleph. Lisboa: Editorial Estampa, Colecção Ficções, p. 26. Nesta mesma obra, no texto “Os Teólogos”, refere-se na página 41 a “passagem do Sétimo Livro, de Plínio, que pondera não haver no universo duas faces iguais. João de Panónia declarava que também não há duas almas iguais e que o pecador mais vil é tão precioso como o sangue que por ele derramou Jesus Cristo. (...) O tempo não refaz o que perdemos; a eternidade guarda-o para a glória e também para o fogo. O tratado era límpido, universal; não parecia escrito por uma determinada pessoa, mas por um homem qualquer ou, talvez, por todos os homens.”
- SOKUROV, Alexander (1996) – Mãe e Filho. Co-produção Rússia, Alemanha (filme 35mm, cor, 73’).