“O fim do mundo é um tema aparentemente interminável — pelo menos, é claro, até que ele aconteça.”
Vivemos um tempo que subsiste a diversos fins dos tempos. Em que o imaginário e a historicidade têm se entrelaçado e, por vezes, se sobreposto. Desde a ficção científica até o panóptico global em curso do Vale do Silício1; do bug do milênio à ameaça nuclear ciclicamente reavivada; da interpretação errônea do calendário maia à incomplacente catástrofe climática; do fetichismo bélico às desumanizações coloniais — a esses, indeterminados outros fins hão de suceder-se, em uma sequência cujo único destino possível parece ser a chegada do fim derradeiro. Invariavelmente, narrar tem sido o ato através do qual a experiência e o sentido se conjugam, mas também o denominador comum que transforma tal sucessão de fins dos tempos passível de ser interpretada como uma característica intrínseca à nossa vida. Como se, na cronologia daquilo a que insistimos chamar “humanidade”, o fim pertencesse paradoxalmente ao passado, ao presente e ao futuro. Porque não sabemos se ele já aconteceu, está acontecendo ou ainda vai acontecer, devotamo-nos a narrá-lo — ou talvez porque o ímpeto narrativo demonstra uma esparsa esperança em termos a capacidade de ludibriar essa presumida vocação para o fim.
Contudo, nesse tremulante horizonte, desponta um sentimento crescente de perda do mundo — uma conjunção cosmológica nefasta2, conforme pensada por Déborah Danowski e Eduardo Viveiros de Castro; A Intrusão de Gaia, como concebida por Isabelle Stengers; os “apocalipses” cíclicos presentes em diferentes cosmologias ameríndias3; ou a era nuclear e a humanidade sem mundo de Günther Anders (unworldliness4), para citar apenas algumas dentre as suas múltiplas expressões. A perscrutação do passado intui uma origem imemorial de tal sentimento, mas o presente denuncia a sua intensificação; como se a iminência do fim verdadeiro se tornasse cada vez mais tangível, à medida que as distopias mais sombrias uma vez imaginadas passam a pertencer mais à realidade do que à ficção. E, ainda que não seja razoável afirmar uma unanimidade, é inegável que a percepção dessa espécie de desmoronamento histórico já suplantou, há muito, os limites da subjetividade individual. De Gaza, de onde chegam notícias diárias de acontecimentos que são a plena expressão da dimensão do intolerável5, à crise das democracias liberais no Ocidente, passamos a viver, paulatinamente, as catástrofes nossas de cada dia.
Haveria, então, um caminho para remediar a iminência do nosso fim em termos absolutos, adiando a queda do céu6? Ou seria essa uma hipótese pertencente ao limite oposto do que vivemos hoje: à utopia? Ou, melhor dizendo, “às utopias”, uma vez que o termo suporta uma multiplicidade de visões de mundo, nem sempre conciliáveis entre si. Porém, ainda que coexistam inumeráveis percepções acerca do significado dessa ideia, que não caberiam em um texto de caráter introdutório como este, o que aguça verdadeiramente o pensamento é a inquirição daquilo que existe entre um limite e o outro. Quais fins da História são a expressão da catástrofe, e como dão origem à utopia? Como o registro mítico dialoga com ambas as idéias, concebendo cenários, por um lado, de fins e, por outro, de recomeços? De que maneira o presente articula os dois conceitos, dentro do campo do sensível? Poderia a estética continuar a ser o lugar para a disputa dos imaginários sobre a distopia e a utopia? E, talvez de modo mais premente para a presente edição: como a arte contemporânea articula esses questionamentos, sendo ela um campo não apenas de produção de sentido, mas também de atuação? Afinal, por maiores que sejam os esforços em situá-la como um fenômeno extraordinário, a arte não existe em seu próprio universo, à parte da sociedade, da história ou do tempo — até porque, conforme nos alerta Françoise Verges7, tudo indica que o universalismo ocidental está mais próximo de ser uma falácia perigosa, responsável pela ideia de um excepcionalismo da arte que esconde e sublima violências estruturais ainda perpetuadas pelo campo artístico.
É dentro desse contexto — imerso nas imbricações e contaminações das ideias de catástrofe e utopia — que On Hybridity and The Poetics of Resistance abre as próximas páginas com o generoso contributo de diferentes autores e artistas. O presente, enquanto um tempo permeado por instabilidades e abismos sociopolíticos, é dissecado no ensaio de Gabriela Vaz-Pinheiro. Já Eduarda Neves situa o tempo enquanto entidade que atravessa o pensamento filosófico e literário, resgatando o seu caráter híbrido através de uma poética continuidade escrita. Rompendo a linearidade temporal, Romulo Moraes elege, em seu ensaio, a música como anunciação e acalanto diante da ideia de fim — cujo “outro lado” revela ser, afinal, um início.
Da poesia como último refúgio de uma humanidade desencantada, surgem os pungentes versos de Shahd Wadi, igualmente embebidos em herança literária. Por sua vez, Kitty Furtado apresenta um vislumbre da longínqua pesquisa que desenvolve sobre o domínio da imagem enquanto campo para a disputa de imaginários em torno dos legados e experiências coloniais. A arte contemporânea surge como campo para reparações relacionadas à história colonial e ao direito à terra, no trabalho do coletivo Cercle d'Art des Travailleurs de Plantation Congolaise (CATPC), assunto que é abordado criticamente no ensaio de Ana Salazar Herrera. Em diálogo, o curador Raphael Fonseca e Kássia Borges, artista e membro do Movimento dos Artistas Huni Kuin (MAHKU), refletem sobre as potências da arte indígena, assim como sobre as perspectivas para o seu futuro no Brasil afora.
Nas inquietantes imbricações entre humano e mais-que-humano, a artista Diana Policarpo compõe fabulações imagéticas que encontram uma leitura aprofundada no ensaio de Sara de Chiara. Nas imagens híbridas presentes no filme Identical, da artista Emily Wardill, há um desafio à percepção que é interpretado por Sara Castelo Branco. Expandindo a noção de imagens híbridas, as realidades alternativas e os espaços seguros concebidos dentro do trabalho da artista Danielle Brathwaite-Shirley são visitados por Valerie Rath, que encontra um caminho sinuoso pelas palavras de ordem que os povoam. São também universos paralelos, dessa vez fabricados pela relação humano-inteligência artificial, que o projeto The Feral ambiciosamente inaugura — a proposta, atravessada pelo tempo e pela ficção especulativa, é o tema analisado por AnaMary Bilbao. Em um ensaio visual, as páginas desta edição passam a ser habitadas pelas desconcertantes figuras híbridas criadas no imaginário do artista Jonathan Uliel Saldanha.
As preocupações ecológicas surgem expressas em diferentes frentes. Na subjetividade animal criada pelo autor Jeff Wood para o projeto Acid Flamingo, que é explicada em uma entrevista conduzida por Joana Pestana; assim como na investigação, documentação e crítica que estruturam a produção artística de Territorial Agency, em que o Antropoceno surge como uma força geradora de novas realidades, questão explorada na conversa com a autora Maria Kruglyak; e também nos processos do coletivo SUPERFLEX, que são abordados em uma entrevista com a curadora Margarida Mendes.
No ensaio visual que se prolonga através das páginas desta publicação, a artista Sara Graça perscruta a materialidade vacilante e a ambiguidade suscitadas pela imagem fotográfica. E, expandindo o campo de atuação e aprofundando as inquietações e debates abrangidos por este projeto da Contemporânea, dois ensaios integram esta edição. Fluid Prospections, que nasce do ciclo de performances com curadoria de Alexandra Balona, e volta o olhar às mudanças ecológicas e epistêmicas do presente; e Carma Invertido, da exposição com curadoria de Susana Ventura e da dupla de artistas Mariana Caló e Francisco Queimadela, com os artistas convidados Mattia Denisse e Von Calhau!, a qual reúne um conjunto de reflexões poético-estéticas.
Imagem de Capa
film still, Pierre Huyghe,The Host and The Cloud. 2009–10. France. 122 min. Cortesia do artista.
- Nota da autora: A expressão faz referência à forma como a empresa Palantir Technologies, fundada por Peter Thiel e Alex Karp, tem sido frequentemente mencionada na mídia. A empresa de softwares, especializada em análise de grandes volumes de dados, tem seus produtos utilizados por agências governamentais em diversos países. A Palantir tem sido alvo de críticas devido à sua atuação em projetos de vigilância e à centralização de dados pessoais.
- DANOWSKI, Déborah; VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins. 2.ª edição, 2.ª reimpressão. São Paulo: Cultura e Barbárie / Instituto Socioambiental, 2022, p. 111.
- DANOWSKI, Déborah; VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins. 2.ª edição, 2.ª reimpressão. São Paulo: Cultura e Barbárie / Instituto Socioambiental, 2022, p. 107.
- BOLIN, Hunter. Unworldliness: A Pathology of Humankind (On Günther Anders's Negative Anthropology). e-flux Journal, nº 147, setembro de 2024. Disponível em: [https://www.e-flux.com/journal/147/625279/unworldliness-a-pathology-of-humankind-on-gunther-anders-s-negative-anthropology/].
- SAFATLE, Vladimir. Pensar após Gaza. Blog da Boitempo, 15 mai. 2024. Disponível em: [https://blogdaboitempo.com.br/2024/05/15/pensar-apos-gaza/].
- KOPENAWA, Davi; ALBERT, Bruce. A queda do céu: palavras de um xamã yanomami. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
- VERGÈS, Françoise. Decolonizar o museu: programa de desordem absoluta. Tradução de Pedro Elói Duarte. São Paulo: Ubu Editora, 2023.