Avenida 211: o colectivo como sistema social-planetário
“não tivemos especulação
mas tínhamos adivinhação
tínhamos política que é a ciência da distribuição
um sistema social-planetário”
Esta citação do Manifesto Antropofágico (1928) de Oswald de Andrade ocupa o primeiro plano do filme “where to sit at the dinner table” de Isadora Neves Marques — e vista no contexto aproximado da sua criação, no cerne do Avenida 211, quase parece premonitória do que veio a ser o maior berço de experimentação artística e imaginação colectiva na cidade de Lisboa.
Avenida 211: Um espaço de artistas em Lisboa é, possivelmente, uma das exposições mais importantes e necessárias dos últimos anos — especialmente para quem, como eu, nunca chegou a vivenciar esse mítico espaço onde tanta coisa começou, e outra tanta terminou. Através desta exposição, que mostra uma profunda investigação curatorial aliada aos arquivos dos participantes e às recordações de quem construiu este lugar comunal, tento reunir pistas, nos testemunhos de artistas residentes e críticos visitantes, para reconstituir a aura deste espaço onde “cada artista recebia uma chave e indicações sobre regras de convivência”, a par de um atelier de trabalho e de uma comunidade aberta.
Tudo começa em 2006 com António Bolota, reconhecido artista e engenheiro civil, com quem a família Espírito Santo faz um “acordo tácito (…) numa iniciativa de mecenato discreto” para a cedência do prédio com o número 211 da famosa Avenida da Liberdade, onde poderia “criar um projeto sem paralelo em Lisboa, oferecendo uma solução para o problema da falta de estúdios para artistas e de espaços experimentais não institucionais”. Foi na avenida mais importante da capital, entre bancos, marcas de luxo e escritórios, que a abastada família mandou construir, em 1888, um prédio com uso de habitação privada e comércio no piso térreo. Tendo anteriormente servido como casa, escritório, e estabelecimento comercial, este seria agora ressignificado como atelier, inicialmente ocupado por Bolota e os seus primeiros convidados, Daniel Barroca, Virgínia Mota e Francisco Tropa (seu professor na Ar.Co).
Correspondendo às inclinações da sua época (e classe) de construção, os vários andares do edifício dividiam-se em inúmeras partições, salinhas e saletas, o que levou a que rapidamente o grupo original se expandisse para incluir mais e mais amigos, colegas, e até alunos, tornando o Avenida 211 num espaço de contacto entre artistas jovens e estabelecidos — mais do que contacto, de relacionalidade, de possibilidade de proximidade e abertura, de disponibilidade e aprendizagem. Muitas das exposições apresentadas nos seus vários espaços incluíam alunos da Faculdade de Belas-Artes, que encontravam ali professores, colegas, comunidade e eventualmente até um estúdio de trabalho. “No seu auge, mais de quarenta artistas tinham, em simultâneo, os seus estúdios na Avenida 211. (Não é possível determinar um número exato, uma vez que não havia contratos e tudo se baseava em acordos verbais e relações de confiança)”. O Avenida, como é comumente chamado, era um ecossistema construído por artistas, para artistas — muitas vezes sobrepondo ambas as funções, de quem constrói e quem habita —, onde se reconhecia a necessidade absolutamente peremptória de ter tempo e espaço para pensar na criação artística, na programação cultural, na produção de trabalho e de pensamento.
A referência ao artista e professor Pedro Morais, que se encontra num dos textos de parede da exposição, quase passa despercebida, mas é por demais importante: para além da sua presença enquanto artista residente no Avenida, Morais foi inspiração maior na formulação do pensamento sobre o que pode (ser) um espaço artístico. A fundação do Atelier Livre, activo entre 1979-94 na Escola Artística António Arroio, onde era docente, activou uma profunda reflexão sobre a estrutura pedagógica do ensino artístico no país, e influenciou (directa ou indirectamente) várias gerações de artistas, nas quais se insere, por exemplo, Francisco Tropa, seu aluno e posteriormente “vizinho” de atelier. Montado como um laboratório experimental, o Atelier Livre foi um “espaço de discussão aberta, livre e partilhada”, onde se espelhava a “recusa constante das lógicas do mercado e tendências da moda” omnipresente no trabalho artístico de Morais, abrindo um campo onde a conversa servia não para direccionar as criações dos alunos, mas para trazer novos pontos de partida para outras leituras da produção e fruição.
A exposição Avenida 211 - Um espaço de artistas em Lisboa, com curadoria de Nuria Enguita e Marta Mestre, é um reconhecimento de um projecto que “mudou o panorama da arte contemporânea em Lisboa e ajudou a reter alguns artistas que, de outra forma, poderiam ter deixado o país (entre 2011 e 2014, quase 500 mil pessoas emigraram, a maior taxa de emigração registada em Portugal em 50 anos).” Atestando às suas formas orgânicas de auto-organização, autossuficiência e comunidade, montou-se no CCB um “arquivo vivo” da “história desta ocupação simultaneamente vital e vulnerável”.
A exposição divide-se em cinco partes, de alguma forma correspondentes a diferentes funções/papéis do Avenida 211: “um espelho retrovisor” fala-nos de como o espaço e os seus intervenientes se relacionavam com o seu contexto sociopolítico-económico, e como o público se relacionava com o espaço; “um atelier só para si” destaca a possibilidade que o Avenida deu a inúmeros artistas de terem um espaço de trabalho no centro de Lisboa, com as condições e a dignidade merecidas; “uma caixa de ressonância” refere-se às múltiplas formas como o espaço acolhia, e inspirava, a produção artística que nele brotava; “um farol” mapeia o que confluía no Avenida, que outras iniciativas motivou e que outros programas acolheu; e “do-it-ourselves” sublinha as várias vertentes de programação do espaço — nas suas variados formas de concretização, e nos fluxos que co-constituíam a sua comunidade — como exercícios de autossuficiência colectiva.
Com um trabalho de investigação cuidadoso e incansável por Giorgia Casara e Sara de Chiara — algo que todos os antigos residentes com quem falei sublinharam —, intersectam-se nestes arquivos fotografias, obras, cartazes, notas, livros e levantamentos de programações, complementados por uma programação paralela com concertos e música da Filho Único, e performances e leituras pela reavivada The Barber Shop. A arquitectura de exposição esteve a cargo de André Maranha, também ele outrora residente no Avenida. A festa estava montada, e faltou apenas o grande João Queiroz, um dos mais antigos e mais activos membros do Avenida, que infelizmente faleceu pouco antes da inauguração da exposição, que acontece no dia do seu funeral.
(o Avenida, como ficaria conhecido) foi talvez um dos principais e mais peculiares espaços culturais que a cidade já conheceu, auto-organizado e comunitário em muito do fazer, permitiu criar instituições, projectos e partilhas artísticas que hoje se encontram espalhadas um pouco por toda a cidade.
Nesse momento, e sem uma forma fixa ou estável, poderíamos dizer que se tinha constituído, na Avenida da Liberdade, o que Lisboa teria de mais próximo a comunidade artística, no campo das artes visuais. Essa comunidade assentava a sua existência em dois pilares fundamentais: sociabilidade e solidariedade (…), elementos centrais na definição, manutenção e entendimento de uma rede de ligações entre artistas, ainda que muitas vezes sem proximidade estética ou ideológica. (João Mourão, Canal Caveira/Sala de Gessos).
Da (d)obra ao espaço
Podemos observar que muitas das obras expostas (fotografias, medidas, moldes, impressões), produzidas no contexto dos ateliers da Avenida 211, respondem ou remetem directamente a este lugar, e, arriscaria até, ao facto de saberem que o projecto tinha um fim programado. Como se quisessem fixar a sua memória do espaço para o futuro, para que não fosse esquecido pelo tempo, sucedem-se os retratos dos interiores-exteriores do número 211 da Avenida da Liberdade: do vão da porta, à sombra das janelas, às medidas das salas, ao abacateiro que crescia no saguão. Espaço enrolado por mãos engorduradas, obra singela e delicada de Armanda Duarte, é disso um perfeito exemplo: criados em 2012 para a exposição colectiva Logradouro (possivelmente mais uma referência ao espaço interior-exterior do edifício), os três pequenos novelos de linha embebida em óleo de linhaça representam o comprimento, largura e altura do espaço expositivo do 211. Recuando a 2008, uma grande peça de António Bolota (da qual podemos apenas ver a maquete), feita de vigas metálicas e reboco, pendurada no tecto do seu estúdio em direcções não ortogonais relativamente aos acessos às três salas que ocupava, é uma tradução material do movimento e dos circuitos que o corpo do artista desenhava dentro do seu atelier. Do mesmo ano, a peça Interior de Liene Bosquê trata-se de um molde de látex do interior das janelas do espaço, posteriormente exposta no exterior — trazendo o dentro para fora, ligando o 211 à Avenida e à vida que nela se desenrolava. O Avenida continuou a reverberar para lá do seu espaço concreto, como por exemplo em muitas obras de João Maria Gusmão e Pedro Paiva: após terem construído uma câmara escura em duas salas adjacentes do 211, a medida de 3,10 metros — a distância focal permitida pela arquitectura do espaço — tornou-se padrão nas obras que lá criaram, e em muitas outras que viriam a criar já depois de mudarem de atelier.
Esta leitura transversal é claramente tornada possível apenas no contexto da exposição: aqui se encontram, pela primeira vez no mesmo lugar, ideias e obras que atravessaram o mesmo espaço ao longo de um período de tempo alargado. Sendo possivelmente poucas as obras mostradas que terão habitado o Avenida 211 ao mesmo tempo, o que poderão elas ter para dizer umas às outras? Que outras leituras poderão surgir da compreensão destas obras, tão diversas e representativas de diferentes momentos e artistas, quando abarcadas num conjunto cuja base partilhada, mais do que espacial, é afectiva? Aqui reside, para mim, o verdadeiro interesse da exposição patente no MAC/CCB, que não se prende apenas com o exercício de rememória ou de inscrição arquivística de um acontecimento sui generis na cena artística portuguesa, mas com a possibilidade de comprimir o tempo para ler um espaço através das suas vivências cumulativas. É uma oportunidade de olhar a criação, o objecto, as relações, não como actos isolados e desconexos, mas como parte de um ciclo expandido de interrelacionalidade, sempre dependente dos (e respondente aos) fluxos do seu contexto. Olhar para a história do número 211 da Avenida da Liberdade hoje é pensar a cidade de dentro para fora, é inteirarmo-nos dos processos de destituição do direito à cidade, é sonhar com uma vida não regida pelas amarras da capitalização e acordar para um pesadelo onde a imaginação já quase não pode existir.
O Avenida foi, no fundo, uma resposta à incompreensão dos aparelhos estatais e municipais sobre o apoio necessário (e devido) à produção artística — um apoio que não se prende só com dinheiro (embora esse, claro, dê bastante jeito), mas com espaço, constância e c(omun)idade. Não consigo deixar de sentir como a abertura de uma instituição privada, e altamente capitalizada, à cedência de um espaço com condições para utilização e sem qualquer retorno financeiro é algo cada vez mais impensável. Tudo isto acontecia na Avenida da Liberdade, que, mesmo sendo uma zona classista semi-segregada da cidade, é também palco de protestos e manifestações colectivas (veja-se o 15 de Outubro de 2012, contemporâneo do Avenida, e data da maior manifestação da história portuguesa até à data). O seu tempo foi também excepcional, tendo acompanhado a transição para a globalização totalizante, a crise económica ocidental, e a presença da Troika em Portugal, com a austeridade severa que trouxe às nossas vidas e estruturas culturais, habitacionais e laborais.
Ao longo de um processo que culminou na atual “financeirização” das cidades, redefiniu-se a própria possibilidade de existência de comunidades artísticas no coração dos centros metropolitanos. Neste contexto adverso, a Avenida 211 foi como que uma dobra: um espaço onde se geraram novas formas de ação, conhecimento e experiência colectiva. Quando chegou ao fim, a cidade não era mais a mesma. (Marta Mestre e Núria Enguita)
Co-laboração: a arte de trabalhar em conjunto
Se lermos atentamente as legendas de diferentes obras, vamos encontrando várias pistas ao longo da exposição, que permitem reconstituir não apenas o espaço e as suas dinâmicas, mas também as dinâmicas desenvolvidas entre artistas que partilhavam esse mesmo espaço. O que se encontra é tão bonito quanto surpreendente: dentre situações divertidamente insólitas e sentimentos de afinidade, encontramos vários episódios, cada um deles emblemático do companheirismo, participação, diálogo e colaboração que sempre marcou o Avenida. Estas pistas mostram como o lugar, os seus intervenientes e a sua produção artística se coconstituem mutuamente enquanto ecossistema criativo e afectivo, marcado pela permeabilidade e trocas orgânicas (algures, uma pista indica-nos que, logo de início, foram retiradas todas as portas interiores que separavam as inúmeras salas de trabalho, para que não estancassem o fluxo criativo). Num ecrã projectam-se dezenas de fotografias de Susana Pomba, de inaugurações e momentos em que a comunidade se abre ao público, e onde vemos artistas, amigos e obras em interação constante. Não consigo evitar um sorriso, enquanto nelas revejo caras que me são queridas, de artistas que admiro e de pessoas que considero amigas, e deixa-me feliz ver como tantas das relações — afectivas ou criativas (como se pudesse haver distinção) — que se estabeleceram durante a vida deste lugar, ainda hoje se mantêm.
Partilho aqui um dos episódios que achei mais curiosos — e talvez mais representativos do espírito colaborativo do Avenida —, para quem possa ter tido menos tempo ou disponibilidade para atentar à cuidadosa recolha e descrição que acompanhava cada peça exposta. Numa das exposições colectivas de alunos das Belas-Artes, em 2007, a artista Joana Escoval apresenta várias oliveiras centenárias, trazidas de uma zona do Alentejo onde se começava a remover as árvores para implantar a agricultura intensiva. Escoval e os seus colegas carregaram-nas até ao primeiro piso do Avenida, onde estariam em exposição, e após o final da mostra entregaram-nas ao Jardim Botânico de Lisboa, onde ainda hoje estão plantadas. Do colaborativo ao participativo vai um pequeno salto, e as marcas que o Avenida deixou na cidade, ao participar activamente dela, deixaram raízes.
A potência colaborativa das expressões artísticas é visível não só nas relações entre artistas mas também na forma como operavam os próprios espaços-dentro-do-espaço. Desenvolvendo-se simbioticamente no Avenida 211, Parkour foi um espaço expositivo gerido por oito dos artistas residentes, de diferentes gerações, que trazia uma nova exposição a cada mês, sem financiamento mas com uma total disponibilidade dos organizadores (e dos seus saberes) para construir em conjunto, num lugar onde os artistas podiam trabalhar o mais livremente possível. Citando os seus responsáveis, “[n]em uma galeria nem uma instituição pode funcionar com esta base de sociabilidade, de eleições afetivas, de caprichos e devaneios, até certo ponto. O Parkour não tinha qualquer necessidade de viabilidade económica, e a única responsabilidade que tinha era para com o contexto que o vira nascer”. A forma colaborativa como se construíram tanto o Avenida, como inevitavelmente o Parkour, é visível até nos mais pequenos detalhes. Como na exposição Gótico, concebida por Ana Manso e Gonçalo Sena como extensão do seu atelier para o espaço expositivo: as peças feitas directamente no espaço do Parkour (mais uma vez, como se tentassem registá-lo) não apenas dialogavam entre si, mas materializavam um continuum — que aqui, curiosamente, tinha o comprimento exacto da parede do Parkour — entre os artistas, as obras e o lugar.
Outro episódio que destaco é a exposição Fazer Andar, de Bruno Cidra e Gonçalo Barreiros, no espaço Parkour em 2013. Colegas de atelier na cave do Avenida — sendo ambos escultores, não haveria necessidade de carregar pesos para andares superiores —, conceberam a exposição e todas as suas peças em conjunto e com autoria partilhada. Essa partilha, tanto da criação em si como do próprio momento criativo, é ela mesma uma força de expressão que impulsiona a procura artística — algo que sabiam bem no Avenida, e que cada vez mais parecemos ter esquecido. A continuidade do trabalho colaborativo de Cidra e Barreiros estendeu-se para lá do atelier-cave e do Parkou, chegando até ao pátio, onde construíram uma forja funcional para realizar as suas peças em ferro: “com a autorização de António Bolota, sempre aberto a experiências audazes, mesmo que isso contrariasse a sua regra de ‘não atear fogos’, a forja não só produziu a exposição do Parkour como também encheu todo o edifício de fumo”. Com tempo, disponibilidade e liberdade, tudo pode ser motivo para experimentar algo novo.
“A Avenida, para este grupo de artistas mais novos, era o espaço onde se podia experimentar - e até falhar - sem consequências, pois não existia a pressão do circuito comercial. Trata-se de um espaço que, quando do seu encerramento, deixou um grande vazio, quer pela situação do mercado imobiliário, quer ao nível simbólico, pelo facto de albergar alguns dos artistas mais representativos da arte portuguesa dos últimos vinte anos.”
o passado no presente para o futuro
Não se limitando apenas à criação no domínio das artes visuais, o Avenida era local de encontro entre práticas e disciplinas artísticas diferenciadas, como música, moda, curadoria ou programação. Desde o início da sua programação pública em 2007, e até ao final, a editora Filho Único habitou a Cave 211, onde se focou na experimentação musical — entre o acústico e o electrónico, havia espaço ao improviso e à formação de ensembles inusitados. Mesmo após o fim do Avenida, a Filho Único continua ainda a fazer programação musical em espaços artísticos e museológicos, como é o caso das “noites de verão” que organiza anualmente em Lisboa, acolhidas (entre outros) pelos jardins da Galeria Quadrum e do Museu Nacional de Arte Contemporânea.
Como outros ecossistemas, também o Avenida 211 foi lugar fértil para o crescimento, não só criativo e artístico dos seus residentes, mas de outras estruturas e formulações pré-institucionais (digo pré- por algumas delas terem efectivamente vindo mais tarde a tornar-se instituições por si), como foi o caso da Kunsthalle Lissabon (fundada por João Mourão e Luís Silva), ou do já extinto The Barber Shop (fundado por Margarida Mendes). Este último é um caso interessante, não só pela sua missão fundacional, nem só pelo interesse inegável da programação visionária que desenvolveu durante o seu tempo de vida, mas por ter ainda subsistido nomadicamente, após o fim do Avenida 211, noutras colectividades “não-artísticas” (desafiando uma certa norma de que estes tipos de programação pertencem apenas a certos tipos de lugares já “consecrados”) como o Sport Club Intendente ou a Associação Amigos do Minho, espaços entretanto extintos. O que temos é o caso de uma estrutura de criação e partilha de pensamento que acompanhou — e viveu, como todos os habitantes da capital— o desaparecimento dos espaços colectivos, artísticos e não só, na cidade hiper-individualizada e capitalizada que é a Lisboa do séc. XXI.
Com uma estruturação que parecia responder directamente ao desejo comunal do seu “berço”, The Barber Shop não se deixava fixar num formato fixo ou em qualquer linha de programação autoimposta. Estabelecido na antiga barbearia no nível térreo como um “espaço transdisciplinar de escuta e encontro”, a direcção programática era colaborativa e partilhada por vários agentes culturais (como exemplo, Mariana Silva e Isadora Neves Marques, artistas residentes do Avenida e co-curadoras do projecto a partir de 2011), e “cartas brancas” eram estendidas a curadores e programadores para que fizessem parte da construção de uma programação tão plural quanto possível. Entre conversas, performances, palestras, escolas de verão ou grupos de leitura, o escopo de acção da Barber Shop parece não se intimidar por questões de interdisciplinaridade, autoria ou institucionalidade, operando tangencial mas diferentemente de outras estruturas culturais da altura. A efemeridade dos projectos permitia a (im)permanência de agentes e discursos de diferentes contextos e lugares, num espaço que era tido como um “tubo de ensaio para a experimentação”, e que a curadora-criadora define como “uma resposta óbvia a uma insatisfação generalizada devido às lacunas vividas no contexto crítico e artístico local, para o qual o termo ‘periferia' surge muitas vezes como desculpa.”
Sobre a criação da Kunsthalle Lissabon, o testemunho de João Mourão e Luís Silva fala-nos de possibilidades que hoje parecem quimeras. Em 2009, António Bolota dá aos dois curadores um espaço no piso térreo, anteriormente uma loja da Telecel, e aí se inicia esta que agora é uma instituição estabelecida em nome próprio, e continuamente uma das mais relevantes no panorama da cidade e do país. A constância da sua missão — desde a loja térrea, ao 1º piso para onde depois se mudou, e até aos espaços que ocupa hoje em dia —dá-lhe ainda hoje força para se manter actual e impactante na cena artística: apoiando artistas jovens, e outros mais estabelecidos mas ausentes do contexto português, alterna entre a mostra da criação artística nacional e internacional enquanto continua a reflectir sobre o papel das instituições na cultura, e sobre modelos relacionais de criação e exposição.
O que podemos ver no CCB é a (re)construção da memória de um espaço-tempo que agora se aflora impossibilidade. E desengane-se quem ache que é mero saudosismo, ou uma lamentação pelos tempos que foram: o Avenida 211 foi, e ainda é hoje, luto (e luta) por tudo o que o capitalismo extrai sem retorno; ainda é memória e cicatriz do fim do futuro possível; ainda é eco de tudo o que sonhámos que a cidade, e a cultura, poderiam (nunca) vir a ser. Por aqui fico com emoções contraditórias, como em tudo o que é mais humano: feliz por ter acontecido, triste por ter acabado, desesperada por saber que é irrepetível. Voltando ao vídeo de Isadora Neves Marques com que começo este texto, e em referência ao modo comunitário e de partilha dos indígenas Tupi de Pindorama, dele chega-nos uma voz que reflecte sobre “um modo de ser onde é a troca, e não a identidade, o valor fundamental a ser afirmado”. Não precisamos de um edifício de cinco andares na avenida da liberdade, mas precisamos da nossa cidade, da nossa comunidade, de espaço e tempo para transcender a nossa individualidade, e de uma qualquer esperança que nos desperte do torpor dos nossos tempos.
* Todas as citações foram recolhidas nos vários materiais presentes na exposição, e quando conhecidos, os seus autores foram identificados. Quando não há referência autoral, trata-se de textos de parede/legendas.