Neste RoundUp é a casa e o espaço de intimismo que nos conduz.
As propostas expositivas são muitas, por vezes num quase “horror ao vazio” e à temporalidade da observação. Mark Fisher, no seu conhecido ensaio Capitalism Realism, is there no Alternative? (2009) argumentava que o capitalismo se tornou tão dominante que é percebido como inevitável e sem alternativa. Essa lógica infiltrar-se-ia nas instituições e na cultura, individualizando problemas sociais e produzindo uma sensação de estagnação, ao mesmo tempo que neutralizava a crítica, precisamente porque, acrescentamos, esta se insere, como nunca, num sistema complexo de produção e recepção artísticas, iniciado nos anos 90 com a globalização. Pouco tempo antes deste ensaio de Fisher, há precisamente 20 anos, Benjamin Buchloh afirmaria que o papel social do crítico estava acabado devido a este novo sistema que se terá instalado desde os anos 80, no qual cada coleccionador se converte num espectador competente, que não necessita de um intermediário que lhe assegure que «(…) sabe muito mais de arte do que ele». Cada fruidor seria, a seu ver, “auto-suficiente” (La crítica dialogada. Entrevistas sobre arte y pensamiento actual, 2000-2006, 2006). Na mesma linha, Marc Jimenez (La querelle de l’art contemporain, 2005) identificou, e bem, uma «(…) superabundância de experiências estéticas diversificadas (…) mais ainda do que a uma subjectivação do gosto, assiste-se hoje a uma forte individualização das atitudes relativas à arte e à cultura». No meio de uma aceleração expositiva, que acompanha a aceleração frenética do capitalismo, naturalmente, que se continuam — felizmente — a encontrar propostas válidas, que alimentam uma crítica que se vai reinventando e que, nesta reinveção, mais do que o que é “bom” ou “mau”, importa dar ao leitor — a quem a crítica se dirige — propostas de leitura e alguns códigos de acesso que contribuam, a seu modo, para a localização da obra de arte através do acto de comunicação que a escrita é. O RoundUp atingiu a sua maioridade (número 18) e faz cinco anos de existência, faremos, por agora, uma breve pausa nesta rubrica e em breve voltaremos com mais novidades.
Belas-Artes é um título da exposição-instalação, com possibilidade ampla e derivante, que Bruno Zhu (n. 1991) propõe no CAMJAP/FCG. Trata-se de uma casa-exposição-instalação composta por quatro espaços que se conectam por intermédio de portas e que em três deles, num propósito que tem vindo a ser incrementado pela instituição, se mostra e se dialoga com obras da colecção. Na verdade, o mais relevante aqui não são necessariamente as obras, embora a sua escolha seja coerente, acertada, provocatória e com ironia intrínseca — as esculturas estado-novistas de cabeças agora com laços são óptimas —, mas o modo como esta visualidade é construída. É uma surpresa que produz universo e que, portanto, torna esta proposta singular, ou seja, passível de ser recordada precisamente pelo valor e eficácia da sua sigularidade. Este é um barómetro importante para definir criticamente uma “boa” exposição. Vamos entrar.
As cores são fortes, contrastantes e até divertidas — vermelho, roxo, azul —, num exercício de design no qual as portas abrem para espaços, e tudo se liga na possibilidade livre de vários caminhos, precisamente como sucede com o fim da unidade das Belas-Artes, que se caracteriza pela disseminação das formas de criação a partir de linguagens, materiais, gramáticas estéticas, objectos, ou da imensa diversidade de fruição, na verdade, que se iniciou de modo irreversível a partir de meados do século XX e que marcaria um território de experimentalismo não mais abandonado. Esta dissolução é aqui sublinhada, por exemplo, pela introdução, por parte de Zhu, de manequins de lojas, dispostos como as Graças clássicas e classicistas. Mais do que nas obras, o centro desta instalação é precisamente o seu dispositivo, que funciona como um mise-en-abyme narrativo e visual. A desmaterialização das paredes através das entradas-saídas sem ordem imposta, quebram metaforicamente a tradição académica e hierárquica das Belas-Artes, ao mesmo tempo que a diversa proveniência de objectos propõe a dissolução entre cultura erudita e cultura popular, a qual, na verdade, tem a sua origem o contexto do movimento pós-moderno e das suas práticas fragmentadas, irónicas, citadoras e historicistas. Esta desagregação, hoje plenamente incorporada, esteve na origem do alegado “refugo” — é Jean-François Lyotard (A condição pós-moderna, 1979) quem o afirma — da arte pós-modernista.
De facto, esta relação à luz de Jean-François Lyotard, Belas Artes, de Bruno Zhu, pode ser entendida como uma encenação da condição pós-moderna: não a afirmação de uma narrativa, mas a sua fragmentação, onde obras, objectos e dispositivos expositivos coexistem sem hierarquia fixa ou determinista. Tal como primeiramente enunciado no ensaio de Lyotard, a legitimidade já não reside num discurso totalizante, mas numa multiplicidade de jogos de linguagem e de amplas possibilidades, exploradas por Zhu neste contexto expositivo. O resultado é uma experiência surpreendente, que articula, em si, arte e crítica, num sentido estético e problematizante. As portas abrem-se e fecham e voltam a abrir-se.
Foi há quase um ano que inaugurou o Pavilhão Julião Sarmento, com projecto de João Luís Carrilho da Graça, que alberga a relevante colecção de arte que Julião Sarmento (1948-2021) foi juntando ao longo da sua vida. O espaço, dedicado à arte contemporânea, possui uma escala humana e intimista, convidando o espectador a fazer parte deste universo, pontuado por obras de arte maioritariamente resultantes de afectos e de relações de amizade entre pares. Numa entrevista que nos concedeu em Janeiro de 2018 (Contemporânea), Julião Sarmento dizia que a primeira obra que adquiriu foi a Joaquim Rodrigo (1912-1997), na época em que era assistente do pintor. Fernando Calhau (1948-2002), um dos artistas presentes nesta exposição, curiosamente, também era assistente de Rodrigo e o seu percurso cruzar-se-ia sempre com o de Sarmento, por exemplo, e ainda por esses anos, pelo facto de terem trabalhado na Direcção-Geral da Acção Cultural, criada na sequência da Revolução de 1974 e da vontade imperiosa de construir um país novo. A proximidade entre Sarmento e Calhau passou pela arte, pela cultura e pela amizade. As suas gramáticas artísticas, embora absolutamente distintas e igualmente consistentes, tiveram como denominador comum um conceptualismo de fundo sofisticado e reconhecível.
Depois de Para Sempre reúne 33 obras da Colecção Julião Sarmento, com curadoria de Isabel Carlos, colocando precisamente em diálogo Fernando Calhau e Rui Chafes (n. 1966), de cuja peça exposta — possante e densa — parte o título poético e evocativo da exposição. A maioria das obras pertence efectivamente a Fernando Calhau, da mesma idade de Julião Sarmento, permitindo acompanhar o seu percurso com representatividade e consistência, atendendo aos suportes e ao leque temporal que abarcam. Entre os trabalhos mais antigos estão Marilyn estampada num envelope (Sem título/Untitled, Marilyn, 1970), ou a pintura viva de uma gravata sobre uma camisa branca, como se estivesse na montra da loja, passando por fotogravuras, pinturas e instalações. A obra de Fernando Calhau conecta-se com o movimento conceptualista, como já se afirmou, e assume vários suportes, tais como, pintura, filme, fotografia ou vídeo, verificando-se também uma ligação evocativa entre a imagem e a palavra. Calhau produziu pintura e gravura em séries monocromáticas e, sensivelmente a partir de 1987, começaria também a utilizar chapas de ferro já oxidadas. Esta exposição mostra o seu percurso de modo representativo, trazendo também, de algum modo, a presença de Julião Sarmento
A relação artística entre Fernando Calhau e Julião Sarmento inscreve-se num território de afinidades conceptuais e cumplicidades que marcaram a renovação da arte contemporânea portuguesa a partir do final dos anos 70. Ambos partilham uma linguagem depurada, onde a economia formal se cruza com uma densidade poética e reflexiva, explorando o vazio, a memória e a tensão entre presença e ausência. Se em Calhau predomina uma abordagem mais introspectiva e potencialmente melancólica, Sarmento desdobra essa contenção num universo narrativo fragmentado, frequentemente atravessado por referências literárias, cinematográficas e erotizantes. A proximidade entre os dois traduz-se sobretudo numa ressonância subtil, num diálogo implícito onde o silêncio, a acção mínima e a sugestão assumem um papel estruturante.
Nesta exposição, e na obra de Fernando Calhau em geral, o quadrado afirma-se como um elemento recorrente e catalisador numa geometrização depurada. Na simbologia da arte, o quadrado destaca-se como uma forma que representa estabilidade, ordem e racionalidade, directamente relacionada com a sua estrutura regular e equilibrada. Na verdade, numa associação ao mundo material e ao espaço construído, o quadrado representa o concreto, delimitado e humano, em contraste com formas mais fluidas ou infinitas, como o círculo, por exemplo. A sua relação com o número quatro — presente nos elementos, nas estações e nos pontos cardeais — reforça a noção de totalidade organizada. Ao mesmo tempo, na arte moderna, esta estabilidade pode ser racionalizada, como na conhceida séria de Kazimir Malevich, onde o quadrado se torna um símbolo de ruptura mas também de redução à essência da forma pictórica. Os quadrados vão pontuando o espaço expositivo nos seus diversos suportes, linguagens e escala, que vão aumentando, numa proposta de extrapolação para o transcendental, ou seja, depois de para sempre.
Sara & André
Diante do Tempo
@Appleton
A actividade artística de Sara (n. 1980) & André (n. 1979) articula-se num território onde objecto, imagem e reconhecimento visual convergem, reflectindo sobre um propósito de absorção e de questionamento da própria História da Arte. O ponto de partida — e de chegada — desta proposta expositiva é a célebre Cappella degli Scrovegni, também conhecida como Capela Arena, em Pádua, que alberga as pinturas mais reconhecidas de Giotto, aqui reproduzida de modo estilizado no seu exterior, constituindo uma das duas peças do conjunto. A que identificamos como a peça principal da exposição, de um modo original, manifesta a sua materialidade — tridimensional — reproduzindo o formato — bidimensional — do fresco de Giotto Anunciação a Sant’Ana. Aqui a casa está vazia, diferentemete do fresco habitado, mas tudo nos reporta para a solenidade do silêncio e da narrativa bíblica, destacando-se a única vela a iluminar, que iconograficamente simboliza a chama de Cristo. A casa revela-se de modo elegante nas suas cores opalinas, na suavidade da cortina, no silêncio do alpendre, na presença pressentida.
Do ponto de vista mais especulativo, Giotto foi o artista criticamente mais aclamado na Idade Média. Giovanni Boccaccio, em Decameron (c. 1353) tornaria célebre a frase «Giotto teve um engenho de tal excelência que não houve entre os modernos ninguém que mais se aproximasse da natureza… e foi ele quem tirou a arte da pintura do sepulcro, no qual havia estado enterrada por muitos séculos». Mas o texto crítico mais relevante da altura deveu-se a Cennino Cennini, que ficaria imortalizado pelo Il libro dell'arte, escrito por volta de 1398 e com primeira edição em 1437. É o primeiro tratado italiano consagrado às técnicas artísticas e escrito em língua vulgar — sem ser em latim —, no qual Cennini considerou Giotto o artista mais completo de sempre, devendo ser tomado como paradigma.
As peças organizam-se de modo intimista, com boa iluminação e espacialidade coerente, proporcionando ao espectador uma fruição que articula bonómios, tais como passado e presente; pintura e arquitectura; imagem e realidade; presença e evocação, etc. Inclusivamente, ponto de vista da arte contemporânea, não deixa de ser surpreendente, não apenas o dispositico, como já se referiu, mas o facto de a escolha para a construção do dispositivo em causa recair sobre um artitas possivelmente menos expectável: Giotto. Deixamos o espaço com a sensação de uma pequena viagem no tempo e na História da Arte, bem conseguida e original. E a arte é, também, feita disto.