O corpo de trabalho de René Tavares (1983, São Tomé e Príncipe) situa‑se num lugar onde ficção, oralidade e memória se entrecruzam. Não como mero dispositivo narrativo, mas como ferramenta crítica para pensar, com ironia e humor, os modos como a História se fixa, se transmite e se legitima. No centro da sua prática não está apenas aquilo que recordamos, mas as formas pelas quais aprendemos a (re)conhecer algo como História, cultura ou património.
O título da exposição — Luso‑portugueses — introduz desde logo um desvio semântico. O prefixo “luso” aparece, regra geral, associado a termos que indicam deslocamento, sobreposição de origens, sejam elas mais abstratas, como “descendente”, ou mais concretas, como “angolano”, “brasileiro”, “moçambicano”. Nessa sobreposição, inscreve-se ainda uma hierarquia: “luso” ocupa o primeiro lugar, e o “outro”, sempre em segundo. A junção desses elementos indica uma identidade que não é inteiramente “lusa” nem totalmente “outra”, mas algo que transita entre mundos. Em luso-portugueses, no entanto, prefixo e radical coincidem na mesma origem: “luso” e “português” apontam para o mesmo lugar. A redundância, visível à primeira vista, revela-se também uma tensão conceptual, um jogo linguístico que nos obriga a pensar sobre categorias, fronteiras e hierarquias de identidade. Afinal, e como perguntam os curadores (Kunsthalle Lissabon) na folha de sala: “Quem pode ser chamado de luso? Quem pode carregar esse prefixo? E o que revela esta distribuição desigual de nomes, categorias e sotaques?1”
É nesse gesto questionador e aparentemente simples que o trabalho de René Tavares se inscreve. Ao desestabilizar categorias herdadas, convenções e expressões linguísticas naturalizadas, o artista propõe outras possibilidades de leitura do passado não como narrativa fechada, mas como campo em disputa e, a partir daí, ensaia modos alternativos de imaginar aquilo que ainda está por vir.
A identidade, a diáspora, a memória, e o património, mas também a linguagem, têm sido objetos de estudo no trabalho de René Tavares precisamente para compreender os processos de (re)estruturação e (re)contextualização de grandes narrativas e dos legados coloniais a partir da interseção de histórias, tempos e lugares. Lembremos, por exemplo, a Carruagem Lusa (2022), que apresentou no Prémio Novos Artistas da Fundação EDP, composta por uma estrutura de madeira reminiscente de um autocarro ou comboio. Ao longo da estrutura, suspendiam-se (ou transportavam-se, como corpos), telas pintadas em vários tons de pele com palavras como “preto”; “mulato”; “negrão”; “de cor”; “pardo”; e “cabeludo”. Se quisermos traduzir esta abordagem para o campo da teoria pós‑colonial, encontramos eco na noção de hybridity (hibridismo) formulada por Homi K. Bhabha em The Location of Culture, segundo a qual identidades culturais emergem em espaços intersticiais, desafiando identidades fixas e monolíticas2. Se pensarmos nesta ideia de hibridismo, percebemos como categorias aparentemente estáveis de “luso” ou “português” são, na verdade, construções e produtos de relações de poder e diferenças históricas.
Na Kunsthalle Lissabon, Luso-portugueses é composto exclusivamente por novos trabalhos que expandem estes objetos de investigação. Na “Pessoa” por trás do véu (2025), 24 rostos, dos quais 16 aparecem sobrepostos por um véu translúcido com o Brasão de Armas de Portugal, confrontam-nos como que a interrogar-nos. Mais do que um simples emblema, o brasão convoca-nos a questionar quem tem direito a possuí-lo e o que significa verdadeiramente carregá-lo, revelando não apenas quem nele se inclui e quem dele se exclui, mas também as marcas profundas de herança, poder e reconhecimento (ou da sua ausência) que se inscrevem nesse símbolo. Perante “Pessoa” por trás do véu é inevitável não lembrar uma obra anterior de René Tavares, Piá mú / olha para mim (2022), um conjunto de tábuas de madeira usadas tradicionalmente para pisar malaguetas em São Tomé e Príncipe tornadas suporte para retratos de pessoas da comunidade angolar do sul da ilha, uma comunidade piscatória que resistiu ao colonialismo. Estes suportes aparecem colados a moldes de espelhos que facilmente associamos à classe média alta de um país Ocidental realçando, por um lado, a impossibilidade de nos circunscrevermos unicamente a um contexto geográfico e, por outro lado, os regimes de pertença e de exclusão.
René Tavares, “Pessoa” por detrás do véu, 2025. Pigmento natural, acrílico, stencil, carvão s/tela. Foto: Bruno Lopes. Cortesia Kunsthalle Lissabon.
O brasão reaparece em The next future (2025), nas costas de uma cadeira de madeira com o assento de veludo verde. A referência é à “cadeira dos leões” presente no Gabinete Oficial do Presidente da República Portuguesa. Tal como “Pessoa” por trás do véu, leva-nos às ideias e sentimentos de poder e de exclusão. Enquanto The next future apresenta um lugar vazio (para o preenchermos, teremos de usar a imaginação ou ocupá-lo fisicamente), do outro lado da sala, na pintura My place of reflection (2025) a mesma cadeira surge ocupada por uma mulher sentada numa postura demonstrativa de segurança e de poder. Neste diálogo, cria-se um jogo entre poder e representação: afinal o lugar da mulher, e em particular da mulher racializada, apesar das diferenças contextuais de cada sociedade, é um lugar muito mais associado ao silêncio, à invisibilidade e à subserviência do que ao lugar do mais alto representante de Estado. Em última instância, ao propor para este lugar um corpo que tradicionalmente foi (e continua a ser) negado posições de autoridade, René Tavares convida-nos a imaginar um futuro no qual atores marginalizados reclamam o seu lugar de agentes, protagonistas, que contam narrativas a partir das suas próprias experiências e desejos.
Em Uma família bem portuguesa (2025), uma família posa no interior de uma casa com objetos icónicos do imaginário português, como porcelanas azuis e brancas da Vista Alegre. Estes tipos de objetos funcionam como símbolos de prestígio e pertencimento social: afinal, não são objetos acessíveis a todas as pessoas, de todas as camadas socioeconómicas. Pelo contrário, são acessíveis às camadas mais privilegiadas, e vistas como objetos de desejo por muitos dos que não as podem comprar. Também aqui se percebe como coleções, formas materiais e imagens são parte das lutas simbólicas de legitimidade e distinção.
Junto ao retrato de família, o tríptico O espelho da minha história (2025) mostra ramos de algodão em vasos de porcelana azul e branca. Se, à primeira vista, estas imagens podem parecer apenas naturezas mortas, numa leitura mais atenta, somos remetidos para as histórias do comércio colonial e da violência do trabalho escravizado que sustentou a economia algodoeira. A justaposição de elementos domésticos, aparentemente suaves e decorativos, com histórias coloniais, de uma violência inimaginável, demonstram aqui como as narrativas oficiais, que chegam aos livros como História (regra geral, glorificada e romantizada) de uma ou de outra nação, ocultam e suavizam legados de violência, injustiça e extrativismo.
O trabalho de René Tavares convida-nos precisamente a repensar como aquilo que (re)conhecemos como História, memória e identidade são fruto de construções e disputas. Através de símbolos, objetos e imagens, desafia narrativas hegemónicas e torna assim visíveis relações de poder e exclusão que normalmente permanecem ocultas, ignoradas e silenciadas. Ao articular questões de identidade e memória, o corpo de trabalho de René Tavares traduz visual e simultaneamente, a noção dos “lugares de memória” de Pierre Nora3 - estruturas simbólicas onde a memória coletiva se cristaliza e se negoceia - e o conceito de hibridismo de Homi K. Bhabha4, que desafia identidades estáticas, mostrando a complexidade de formas culturais em contato. Movendo-se para lá das críticas ao passado, a prática de René Tavares propõe reconfigurações do olhar e da arte como lugar de memória crítica. Ao fazê‑lo, na exposição Luso‑portugueses, revela não apenas muito do que foi sistematicamente ignorado e deliberadamente apagado, mas aquilo que pode ser um futuro no qual corpos, narrativas e lugares‑memória marginalizados ocupam os papéis e os espaços que escolhem.
René Tavares, Luso-portugueses, 2025. Vistas de exposição na Kunsthalle Lissabon. Fotos: Bruno Lopes. Cortesia Kunsthalle Lissabon.
- Kunsthalle Lissabon, René Tavares: Luso-portugueses. Folha de Sala, 2026.https://www.kunsthalle-lissabon.org/exposicoes/rene-tavares-inverno
- Bhabha, Homi K. The Location of Culture. London: Routledge, 1994
- Nora, Pierre (dir.). Les Lieux de Mémoire. Paris: Gallimard, 1984–1992.
- Bhabha, Homi K. The Location of Culture. London: Routledge, 1994.