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Contemporânea

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    Perfil:
    Andreia Santana

    Bernardo de Souza

    por Bernardo de Souza

    Corpos Liminais

    Corpos são espaços em construção, permanentemente a sofrer mudanças, quer no âmbito físico, quer no psíquico. Longe de uma suposta estabilidade normativa, constituem campos de batalha em si mesmos e respondem ao entorno político à medida em que são instados a reagir a fenômenos sociais, culturais e biológicos. Neste sentido, a plasticidade dos corpos é reveladora de sua natureza ambígua, em parte humana, afetiva e intelectual, em parte orgânica, perecível e mortal.

    A obra de Andreia Santana situa-se neste limiar, entre a volatilidade da vida e a concretude da matéria. Há anos a artista vem pensando o corpo — seja ele humano ou não — como esfera plástica, ou como plataforma histórica e política para refletir sobre as transformações que se processam no tecido social. Aliás, a própria ideia de corpo social parece funcionar como amálgama para o conjunto de forças que irrompem de suas esculturas, sempre a tensionar as fronteiras entre a esfera pública e a privada. Se, por um lado, suas obras se constroem amparadas em códigos linguísticos e tropos visuais, ou derivam de momentos situados no tempo e na história coletiva, por outro exacerbam derivas biográficas, sentimentos e percepções de foro íntimo ou pessoal.

    Afeita a dois materiais de qualidades essencialmente distintas — o metal e o vidro —, Santana encontra no interstício entre resiliência e fragilidade o fundamento plástico e conceitual de suas esculturas. Logo no início de sua trajetória artística, o ferro lhe servia para desenhar formas no espaço, espraiando-se no ar como se de sua volatilidade necessitasse para existir. Em Leaves of Absence, exposição realizada no âmbito do Prémio Novo Banco em 2016, no Museu de Arte Contemporânea de Serralves, a artista ergue murais de aço, cuja transparência é dada através dos vazamentos no metal feitos a partir de recortes de variados instrumentos de trabalho arqueológico: um machado, um ancinho, uma pá, entre outros. Já em The Outcast Manufacturers, primeira individual da artista na galeria Filomena Soares, em 2018, é apresentado um conjunto de trabalhos tridimensionais igualmente forjados em metal, embora dotados de uma leveza extraordinária: a depender da perspectiva do observador, as esculturas convertem-se em caligrafias aéreas, tão mutáveis quanto a percepção humana de um dado fenômeno atmosférico — em realidade, tratam-se de desenhos livres inspirados em artefatos não equacionados ou mesmo banidos. E seguindo esta mesma toada formal, sua série seguinte, Rumble Strip, exibida em Artworks em 2019, vai se amparar na invisibilidade de um fenômeno atmosférico — o som — para erguer os contornos de “partituras” em cobre, as quais ganham um polo de solidez na companhia de objetos sonoros, espécies de artefatos “arqueológicos” cuja função é aparentemente desconhecida.

    Embora noções de permeabilidade já estivessem presentes nas obras anteriores de Santana, possivelmente seja com a peça apresentada na Travessa da Ermida, em 2020, quando a artista passa a expandir questões relacionadas à fluidez e instabilidade, seja dos materiais, seja dos temas propostos por sua obra. A escultura pivotante Mist vai operar como um portal a separar dois recintos do espaço expositivo, mimetizando a própria arquitetura histórica e seus arcos. Feita em aço bi-cromatizado, cujas pátinas iridescentes conferem leveza às formas orgânicas no interior da moldura, esta peça site-specific sinaliza algo que, mais tarde, se tornaria recorrente em sua obra: a construção de espaços que se situam entre a realidade imediata e a abstração imaginativa. 

    Sobre o orgânico, a arqueologia e a transcendência

    A busca por uma forma, ainda que inacabada, bem como por vestígios de vida e história, constituem verdadeira obsessão à Andreia Santana. O projeto Soul Houses, levado a cabo no Hangar, em 2020, com a exposição The Skull of the Haunted Snail, é o primeiro dentre muitos que viriam a incorporar o vidro com matéria essencial ao desenvolvimento da linguagem plástica e poética da artista. De lá pra cá, metal e vidro passam a ser aliados constantes em esculturas que, a um só tempo, dão visibilidade e nublam nossa visão, estimulando outros sentidos. Extremamente táteis, essas esculturas (casas d’alma), inspiradas nos artefatos egípcios feitos de argila e postos junto às tumbas de pessoas humildes para que gozassem de abundância na vida eterna, ganham aqui os nomes de seus amigos mais próximos: Pedro, João, Vasco. Feitas de vidro, em diferentes formatos, tais peças ganham suportes e “pedestais” sinuosos, metálicos, cujo contraste com a transparência dos recipientes confere às obras uma qualidade ambígua, situada entre o terreno e o transcendente.

     E uma vez fascinada pelas possibilidades maleáveis do vidro ainda em estado líquido, Santana vai levar este material ao limite quando produz esculturas feitas dos despojos de instrumentos de laboratório previamente usados para pesquisa científica. Na instalação-performance Overlapses, Riddles and Spells, realizada em 2021 no CCB em um palco na penumbra, os artistas colaboradores Vânia Vaz, Antônio Poppe e João Polido vão manipular imensas máscaras rotatórias de cristal “contaminadas” com os resíduos de seus usos prévios, fossem fluidos humanos, fossem elementos químicos os mais diversos: os corpos dos performers seminus dançam com as peças escultóricas, detonando assim um novo processo de contágio a partir do seus próprios suor e saliva. Biologia, tecnologia e humanidade entram em colapso semântico, dissipando limites entre aquilo que se convencionou chamar de natureza ou cultura.

    Segundas peles, armaduras e adereços

    O corpo biológico e o corpo tecnológico coexistem desde a pré-história. Pele e segunda pele se tornariam, no futuro, esqueleto e exoesqueleto. Enquanto repteis e aracnídeos trocam de pele num processo chamado ecdise, os humanos trocam suas vestes com propósitos os mais diversos: peles para proteção contra o clima, armaduras como defesa bélica ou mesmo moda como escudo social.

    Em sua exposição para o Prêmio EDP para Jovens Artistas realizada no MAAT em 2022, Andreia Santana constrói um conjunto de edificações/abrigos feitos de vidro e metal, como se fossem uma sorte de iglu ou, então, crinolinas de vestidos femininos ou, ainda, carcaças de uma pele animal feita de escamas. Circundando essas obras penetráveis, estavam dispersas outras estruturas metálicas que suportavam delicadas peças de vidro, fosse na forma de uma ampulheta, de uma espécie de consolo ou mesmo como uma corrente de elos preenchidos com água — aliás, todas as esculturas em vidro possuíam água em seu interior ou um pequeno token de metal, como índice de um tempo ou de uma memória a ser preservada. Da virtual invisibilidade, transparência ou imaterialidade da instalação sobressai um sentimento de fragilidade e ambiguidade em relação às forças que operam sobre o corpo humano, sempre exposto ao conjunto de fenômenos sociais, culturais e políticos que ora o aprisionam, ora o libertam — violência e prazer convivem no mesmo corpo social. Desprovida da presença humana, esta instalação demanda do visitante uma relação háptica com o seu entorno. E malgrado uma primeira sensação de frieza, dados os materiais eleitos pela artista, resta o sentimento da profunda vulnerabilidade humana, quer na sua fisicalidade, quer na sua emotividade.

    Mas se os domos de Skin Echoes nos ajudam a pensar o corpo tanto de uma perspectiva externa quanto interna — por um lado proteção arquitetônica, por outro adereço fashion ou fast fashion, no francês pret-a-porter—, em ambos os casos Santana está tratando das sucessivas estruturas físicas e semióticas que vêm forjando o corpo humano desde tempo imemoriais.  Quais as esferas simbólicas e materiais coabitadas por nós humanos? E até que ponto podemos de alguma delas prescindir para dar sentido às nossas existências, quer no plano da transcendência afetiva, quer no âmbito da imanente mortalidade? 

    Totens do desejo

    Em Eros and Errors, individual da artista na Galeria das Índias, em 2024, novamente nos encontramos diante de um labirinto tácito, movendo-nos por estruturas-fantasma, atravessando limites diáfanos entre nossa fisicalidade e nosso desejo. Há algo de espinosiano na arte de Santana, uma vez que não deriva de dualismos entre corpo e mente (ou alma); muito ao contrário, requer uma fusão entre a mundanidade do corpo e o etéreo das emoções humanas — ambas compartindo um mesmo espaço ou atmosfera, uma engendrando a outra, sob o risco de anularem-se mutuamente caso queiramos escapar do holismo intrínseco à nossa existência.

    Vivendo parte do ano em Nova Iorque desde que recebeu a bolsa Fulbright em 2021, Santana pôs-se a investigar as estruturas metálicas dos andaimes que revestem os edifícios daquela cidade como se exoesqueletos fossem. Mas ao passo em que cobrem as fachadas, inadvertidamente acabam por criar um espaço de proteção para o contingente humano da metrópole. Contudo, entre a racionalidade do aparato civil, os meandros da engenhosidade humana e a latência de seus desejos, tais aparatos passam a ganhar renovados propósitos na vida quotidiana. Ao deambular por NY, a artista deu-se conta de que, para além da sua dura aparência, tal estrutura ou exoesqueleto oferecia guarida àqueles que, em meio às sombras noturnas, quisessem debaixo de seu grid metálico dar vazão a pulsões as mais mundanas, quais sejam, de encontros físicos, sensuais e sexuais com outros corpos.

    Mas quando a noite finalmente cede à luz do dia, nem todos os gatos são pardos.

    Assim, a instalação Eros and Errors se constrói a partir de portais feitos de metal e vidro, os quais escondem e revelam narrativas possivelmente forjadas na íntima memória dos visitantes. Como subsídio para tais fantasias, jazem pela galeria esculturas que emulam os despojos materiais a acompanhar a faina e a delinquência humanas: esculturas-chave, esculturas-consolo, esculturas-toys dispersas pelo espaço expositivo como um imenso “achados e perdidos” a emular poeticamente os objetos com os quais a artista se deparava debaixo dos andaimes em NY ao alvorecer do dia.

    Ao abandonar hierarquias entre corpos e arquitetura, a artista parece acalentar uma mirada reversa sobre humanos e obras de arte: quem estaria olhando para quem? Sob o escrutínio de suas esculturas, todos temos algo a esconder, mas também a revelar. O aparente jogo de esconde-esconde acaba por nos deixar nus, sem escudos a proteger-nos. O vidro translúcido, marcado por formas orgânicas difusas, dá pistas de uma história humana residual, em vias de migrar da esfera privada à coletiva. Somos um e somos muitos; um indivíduo, uma malta, uma mesma humanidade, em que pesem as sobradas diferenças sociais, culturais e econômicas. Arrisco dizer que há algo de universal no trabalho de Andreia Santana, universalizante em sua sanha iconoclasta e fetichista, indistintamente.

    Perspectivas e pontos de fuga

    Ao ser convidada para um período de residência na Oakville Galleries, situada nas imediações de Toronto, no Canadá, em 2025, Santana levaria adiante sua pesquisa sobre visibilidade e invisibilidade partindo de novos arranjos fenomenológicos. Desta feita, ao invés de ocupar o espaço institucional com obras desenvolvidas a priori, a própria arquitetura da instituição — a saber, uma mansão com amplas e abundantes janelas que dão vista ao lago Ontário — forneceria o marco formal e conceitual para seu novo projeto. Em íntima relação com as salas de estar e as bay windows da casa convertida em espaço expositivo, a instalação site-specific proposta pela artista promove uma deriva perceptiva mise-en-abîme, uma vez mais lançando o espectador num labiríntico jogo de espelhos: aberturas e seus marcos são repetidos no interior da mansão abrindo novas passagens do interior arquitetônico à paisagem exterior e de lá, na contramão, de volta ao visitante e seu corpo. Num procedimento que evoca o pensamento de Merleau-Ponty, apenas em movimento somos capazes de perceber a natureza dinâmica da obra instalativa da artista, bem como do mundo ao seu redor. Segundo o autor, “O mundo não é aquilo que eu penso, mas aquilo que eu vivo; eu estou aberto ao mundo, comunico-me indubitavelmente com ele, mas não o possuo, ele é inexaurível.”1

    Ao suspender esquadrias de alumínio revestidas com tela para proteção contra mosquitos em diferentes pontos dos cômodos, como se janelas de fato fossem, Santana cria brechas, abre passagens e perspectivas que reconfiguram a arquitetura original com o intuito de romper os limites de suas mudas paredes brancas e mesmo do enquadramento arbitrário da paisagem exterior. As telas, entretanto, ganham desenhos próprios, vazados sobre sua superfície com formas geométricas, cujos contornos em bronze e alumínio são preenchidos com vidro, porém desprovido da transparência que garantiria ao espectador visibilidade absoluta. Conforme a posição adotada pelo espectador, sobrepostas camadas de arte e arquitetura  corrompem a paisagem e criam pontos de fuga do mundo interior ao exterior, e vice-versa. Já os motivos dos desenhos sobre as telas foram inspirados no trabalho do artista Ron Baird, artista e arquiteto local responsável pela criação dos portões do Centennial Building em Oakville. Este procedimento reitera o gesto apropriacionista da artista tanto em relação ao espaço expositivo, quanto ao seu entorno cultural, pois nos trabalhos de Santana, experiência e materialidade convivem num mesmo patamar semântico e artístico.

    Andreia Santana, A Door Handle, A Handshake. Vista de exposição no Gairloch Gardens, Oakville Galleries, Canada, 2025. Curadoria: Séamus Kealy, Foto: Jimmy Limit.

    O corpo imediato: a moda transparente

    Em seus projeto mais recentes, Brix na Galeria Filomena Soares e Cosmocópula, no CAV em Portugal, ambos em 2025, Andreia Santana volta a incorporar a tela como elemento articulador de suas obras. Se anteriormente haviam servido como malha têxtil capaz de nublar as condições de visibilidade sobre a paisagem, agora ela utiliza a trama metálica para propor justamente o inverso: ao construir peças de vestuário com tal material, enquadradas em molduras de alumínio, a artista rompe com uma das qualidades primordiais das vestimentas humanas, qual seja, a de ocultar o corpo. Entretanto, a invés de desnudá-lo por debaixo da tela transparente, as obras vão propor algo de outra natureza: desvelar os códigos implícitos ao vestuário em seus contextos socioculturais. Assim, deparamo-nos com paletós, meias-calças, corseletes e roupas íntimas, ou seja, itens que ao largo da história serviram para reforçar percepções de gênero, ou mesmo para eliminá-las, como é o caso dos jeans, por exemplo.

    A série de esculturas de parede que estilizam e simplificam as formas de determinadas roupas vai funcionar como um exercício taxonômico da moda ocidental e de seu afã normativo na distinção entre os gêneros feminino e masculino. Todavia, este expediente vai complicar-se à medida em que tais peças não representam o indivíduo que as leva no corpo — e ao suprimir a identidade de quem veste as roupas, as obras de Santana reforçam o caráter arbitrário da moda. Ao burlar tais distinções de gênero, somos defrontados com a abstração dos conceitos de normatividade impostos pelas indumentárias, o que acaba por tornar os trabalhos de parede exercícios abstratos de construção de imagem — algo que se vê reforçado pelos autorretratos nus da artista, as únicas obras a apresentar o corpo humano, embora este esteja algo velado pela trama das telas que se interpõem como espécies de filtros para as imagens.  

    Ainda, em uma outra chave discursiva, Santana vai “esconder” pequenas guloseimas feitas de vidro colorido — num expediente apropriacionista que referencia o trabalho do artista Félix González-Torres — dentro dos bolsos de algumas das roupas desenhadas com as telas metálicas. Ao fazer alusão às obras do artista gay cubano, que exibiam montanhas de balinhas coloridas como medida alegórica do número de vidas ceifadas pela epidemia da AIDS nos anos de 1980, ela reforça o caráter politico da mostra, dedicada a repropor a ideia de gênero consolidada no seio das culturas sobretudo ocidentais. Neste sentido, o corpo de um indivíduo e suas práticas sexuais se converte num dado de ordem pessoal e biográfica, em contraposição à noção de que a vida íntima deva estar submetida ao escrutínio público. A guloseima, portanto, funciona como pedra de toque para que tanto as fantasias quanto as memórias de uma dada pessoa possam ser mantidas intactas, protegidas da esfera pública que acossa os cidadãos sempre quando insiste em tornar objeto de inquisição pública aquilo que pertence à esfera privada.

    No corpo de trabalho de Andreia Santana, não raro as obras se insinuam como artefatos de proteção, estruturas de abrigo ou mesmo esconderijos tanto para o humano quanto para suas pulsões e fantasias mais íntimas. Ao criar esculturas que transitam entre os recônditos da imaginação e a hipervisibilidade do mundo material, a artista nos indaga sobre noções de liberdade e aprisionamento, de prazer e violência, de realidade e ficção. Sempre quando acreditamos ter acesso a determinada coisa, seja ela um objeto ou uma imagem, Santana parece situá-la num outro lugar, mais além de nossa compreensão e alcance imediatos. É como se a visibilidade absoluta possuísse o condão de a todos cegar-nos.

    Imagem de Capa
    Andreia Santana, Cosmocópula. Vista da exposição no CAV; Centro de Artes Visuais, Coimbra 2025. Curadoria: Miguel von Hafe Pérez, Foto: Photodocumenta.

    Bernardo de Souza é curador, investigador e crítico de arte brasileiro. Atualmente trabalha como curador independente desde Madrid. Foi Diretor Artístico da Fundação Iberê Camargo (Porto Alegre, Brasil, 2017/2019), Integrou as equipes curatoriais do 19o Bienal de Arte Contemporânea SESC_Videobrasil (São Paulo, 2015) e da 9a Bienal do Mercosul (Porto Alegre, 2013). Os seus projetos têm vindo a debruçar-se nas relações entre tempo e espaço, cultura e natureza, articulando frequentemente a prática artística contemporânea com o debate político e filosófico, inspirado na literatura, no cinema e na ficção científica, entre outras áreas. 

    O texto foi escrito em português do Brasil.

    Notas de Rodapé
    1. MERLEAU-PONTY, M. Fenomenologia da percepção. Tradução de Carlos Alberto Ribeiro de Moura. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2011. p. 14.