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    Conversa

    Conversa com Isabel Carlos

    Catarina Rosendo

    por Catarina Rosendo

    Pavilhão Julião Sarmento: Ativar um legado

    Constituído a partir da vontade do artista Julião Sarmento (1948-2021) de disponibilizar ao público a sua coleção particular de obras de arte, o Pavilhão Julião Sarmento está instalado num antigo armazém na zona ribeirinha de Lisboa, reconvertido pelo arquiteto João Luís Carrilho da Graça a partir de um plano que foi acompanhado de perto, ainda em vida, pelo próprio artista. Integrando a rede de equipamentos da EGEAC-Lisboa Cultura, é o mais recente espaço municipal vocacionado para a contemporaneidade artística, e tem como sua primeira diretora Isabel Carlos, uma das mais internacionais curadoras do panorama português. À sua vasta experiência profissional, que alia a curadoria (das bienais de Sidney, em 2004, e de Sharjah, em 2009, para além da representação portuguesa à Bienal de Veneza em 2005), à participação em júris internacionais (Bienal de Veneza em 2003 e Turner Prize em 2010) e ao desempenho de cargos institucionais (foi subdiretora do Instituto de Arte Contemporânea, entre 1996 e 2001, e diretora do Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, entre 2009 e 2016), acrescenta-se agora o desafio de trabalhar o legado de Julião Sarmento. Tratando-se também ele de um dos artistas mais internacionais do contexto artístico português, a identidade do Pavilhão Julião Sarmento deseja construir-se a partir da sua obra multifacetada e da sua personalidade reconhecidamente gregária, ambas assumidas como heranças a partir das quais a multidisciplinariedade, a internacionalização, a criação de parcerias, a formação de públicos e a construção de comunidade formam os eixos norteadores da programação e das atividades previstas para os próximos anos.



    Catarina Rosendo: O Pavilhão Julião Sarmento abriu no ano passado, no dia 4 de junho, não tem ainda um ano. Tem a particularidade de acolher a coleção de Julião Sarmento, composta por obras de arte de outros artistas. Como caraterizas esse acervo e de que modo ele norteou o programa que está a ser desenvolvido neste espaço?

    Isabel Carlos: O Julião Sarmento criou um carimbo que dizia “Julião Sarmento coleccionador, collector, sammler e collectionneur”. Era alguém que desde muito jovem teve este desígnio de criar uma coleção e ser um colecionador. É uma coleção com cerca de mil e quinhentas peças e é muito interessante porque é a coleção de um artista. Por exemplo, há uma obra, que está agora na nossa primeira exposição Take One, da Adriana Varejão, que é um monocromo e nós conhecemos as obras dela como sendo cheias de cor, padrões, texturas, viscerais. A Adriana Varejão – confirmei isso com ela – propôs ao Julião outra obra, mas ele escolheu esta. Ou seja, é uma coleção atravessada pelo olhar do Julião Sarmento; é o seu gosto, se quisermos. E é uma coleção marcada por aquilo que era o Julião como artista, com uma matriz conceptual forte, representativa de obras a partir da década de 1970 até ao início do século XXI, até à sua morte. Tem algumas especificidades, como uma atenção à produção norte-americana. O Julião chegou a dizer (cito de memória) que noutra encarnação poderia ter sido americano. Ele tinha uma relação forte com os Estados Unidos, teve galerias em Los Angeles e em Nova Iorque, a Christopher Grimes e a Sean Kelly, e tinha uma intensa relação com os Estados Unidos da América e com a sua produção de arte contemporânea. A coleção reflete isso: Rita McBride, Richard Serra, Bruce Nauman, Robert Morris, que aliás está na coleção com uma das suas obras primas.

    CR: É uma das suas “Felt Pieces”.

    IC: Sim. E é também uma coleção de afetos, em várias dimensões. A primeira é que muitas destas obras entraram na coleção por via de trocas entre pares. Nem todas, a do Morris foi comprada, por exemplo. Mas é uma coleção de amigos, “eu dou-te uma minha, tu dás-me uma tua”. É curioso haver vários casais de artistas na coleção, mais uma vez a Rita McBride e o marido, Glen Rubsamen, o Juan Muñoz e a Cristina Iglesias, que foram um casal durante muitos anos, e outros. É uma coleção de afetos guiada, mais uma vez, pelo olhar muito certeiro do Julião. O Julião foi também curador, como sabemos, fez a exposição do Eduardo Batarda [em 2016, no Pavilhão Branco, Lisboa]. Ele tinha também uma grande paixão pela arquitetura, aliás chegou a pensar estudar arquitetura, mas como no seu ano de admissão o curso estava fechado, ele entrou na porta em frente [da Escola Superior de Belas-Artes]. Isto para dizer que as montagens das suas exposições refletem o domínio da dimensão espacial e um olhar próprio. Esta primeira exposição no Pavilhão, esta “primeira tomada”, resulta de outra grande paixão do Julião, o cinema, o que pode ser trabalhado de maneiras diversas.

    Levantando um pouco o véu do que será a programação próxima, faremos a exposição Depois de para sempre, com o núcleo de obras de Fernando Calhau na coleção. O Calhau foi o grande amigo do Julião, conheceram-se na Escola de Belas Artes e foram toda a vida, até à morte do Calhau, muito próximos. E a coleção permite quase fazer o percurso criativo do Fernando Calhau desde os primeiros registos figurativos e pop até às últimas esculturas minimalistas, em que a espacialidade era muito importante. Depois de para sempre é também um tributo ao que foi a última exposição do Calhau em vida, no Pavilhão Branco, com o Rui Chafes, que também está amplamente representado na coleção nomeadamente com a obra Depois de para sempre. É uma bela história: ele tinha ligado ao Rui Chafes, propondo-lhe fazerem junto uma exposição só de escultura, que foi essa no Pavilhão Branco. O Calhau tinha uma doença oncológica, sabia que não tinha muito tempo de vida, aliás morre ainda essa exposição está aberta. Esta é uma história de amizade e a exposição mostra que é também um encontro em termos artísticos entre estas duas pessoas.

    CR: E como vai ser essa exposição Depois de para sempre no Pavilhão?

    IC: Vamos mostrar desde os primeiros desenhos do Calhau até às esculturas da fase final em aço corten e néon, juntamente com três ou quatro obras do Rui Chafes, em que se percebem as afinidades criativas entre um e outro artista. Esta é uma maneira de trabalhar a coleção. Haverá outras: este ano, faremos a exposição Era uma vez na América.

    CR: Mais uma vez, uma referência ao cinema.

    IC: Sim. Há muitas obras do Julião inspiradas em filmes ou livros americanos e esta exposição incidirá nos artistas norte-americanos da coleção. Durante este primeiro ano deverá sobretudo mostrar-se a coleção, ativando-a como aconteceu com o João Onofre, quando se mostraram os vídeos da coleção mais três que não pertencem à coleção. Isso acontecerá ao longo dos próximos anos com outros artistas. A partir do Outono abriremos ao mundo, mantendo alguma da geografia de eleição do Julião que, para além dos Estados Unidos, é a Europa e África. África teve um papel importante na sua vida, a primeira mulher era sul-africana. A produção destes três continentes será também uma linha de programação. Para além disso, eu diria que o espaço em si é sempre um ponto de partida para uma programação e para uma exposição.

    CR: Este Pavilhão tem espaços muito diferenciados. O projeto é do arquiteto João Luís Carrilho da Graça e foi acompanhado desde o início pelo próprio artista, não foi?

    IC: O Julião acompanhou o projeto até morrer. Infelizmente já não viu a obra terminada, mas há aqui muito do Julião, que o Carrilho poderia esclarecer melhor. Eu entro neste projeto na reta final, três meses antes de abrirmos. Antes disso, o Julião tinha escolhido para diretor o Sérgio Mah, que esteve nalgumas reuniões de definição dos espaços e no programa. Temos a galeria do piso térreo, ampla, com mais de 300 metros quadrados, e temos uma galeria menor, no piso 2, e ainda outra, no piso -1, uma cave que não existia quando isto era um armazém de alimentos; foi feita de raiz. É aí que estão as reservas e aquilo a que eu chamo a nossa blackbox. O que não quer dizer que não possam aí haver exposições de outra natureza, mas como é uma sala cega, sem janelas, tem essa valência também. Aí vamos fazer um ciclo com a curadoria do Andy Rector, Movie Experiments in Los Angeles, sobre experimentar o cinema e a imagem animada em Los Angeles, durante seis semanas, uma sessão todas as quartas-feiras, e a ideia é reabilitar um pouco o espírito do cineclube, cada sessão terá entre uma hora e uma hora e meia. A sala está neste momento preparada para vídeo e foi também uma opção desde o início poder haver ou não cadeiras, que foram escolhidas pelo João Luís Carrilho da Graça, montam-se e desmontam-se muito facilmente, e são portuguesas, de uma fábrica de Leiria. Elas permitem esta polivalência do espaço, porque também a coleção é polivalente.

    Sendo um museu municipal, o Pavilhão tem, por causa da coleção que abriga, uma dimensão internacional que não é óbvia noutros equipamentos da EGEAC-Lisboa Cultura. Como tal, também fez sentido convidar curadores internacionais, como foi o caso da Sofía Hernández Chong Cuy, que fez a curadoria e o programa público de Art is a matter of consciousness, a exposição que encerrou agora em fevereiro. Depois de ter vivido a vida quase toda nos Estados Unidos, agora está em Roterdão e assim torna-se mais fácil trabalhar com ela. Ou também o Andy Rector, que agora vive em Lisboa, como aliás muitos cidadãos americanos. A cidade tornou-se muito mais cosmopolita do que era há quinze anos.

    CR: A partir dessa vocação internacional que o Pavilhão Julião Sarmento tem, quais são os principais eixos a implementar para pôr este espaço a dialogar com o contexto internacional?

    IC: Com a coleção pode-se trabalhar de diversas maneiras, sendo que a matriz conceptual é muito clara, tal como a matriz norte-americana e europeia. A coleção tem uma diversidade enorme. O próprio Julião Sarmento, embora tenha ficado sobretudo conhecido pelas “pinturas brancas”, fez filmes desde muito novo, vídeo, escultura, instalação. É um artista multidisciplinar, e a coleção também o é, tem muita fotografia, vídeo, pintura, instalação. E pode ser trabalhada numa multiplicidade de abordagens. Por exemplo, indo de encontro ao que era a faceta agregadora do Julião Sarmento, alguém que adorava, por vezes até de modo demasiado entusiasta, a novidade, o último artista, o mais jovem a aparecer. Vejo este lugar como um lugar que pode estar muito atento à contemporaneidade e ao que se está a passar, de encontro entre os artistas e o público, um lugar que tem a coleção de um criador e é também agora o lugar para outros criadores, um espaço de experimentação, de criação de obras novas, pensadas para aqui ou para o contexto expositivo. Tudo isso deve fazer parte do ADN desta instituição. Vamos tentar fazê-lo, e procurar mecenato (porque o orçamento não é grande) para esta ambição de colocar este museu no mapa, não só nacional, mas também internacional. Vivemos num mundo difícil, tendemos a esquecer que vivemos num mundo em guerra, muito bélico, com uma economia frágil; que, dentro disso, a cultura e a arte sejam um porto de abrigo e lugar para espevitar consciências. Na exposição Art is a matter of consciousness, o desafio à Sofía foi ela pensar, a partir da coleção e dos seus artistas, um programa público muito forte que cruzasse artistas e o público, com seminários com o Juan Araujo, a Sara Bichão e o André Romão, entre outros.

    CR: Há uma decisão que é anterior à tua chegada ao Pavilhão Julião Sarmento, que é a circunstância de aqui não estarem nem o seu espólio artístico, aquele que estava na sua posse antes de morrer, nem o arquivo, que foi doado à Fundação de Serralves. Como é que entendes esta situação?

    IC: De vez em quando, convocamos a obra do Julião, isso é uma inevitabilidade. Já aconteceu na exposição Art is Matter of Consciousness, na qual incluímos o carimbo criado no final da década de 70 com essa frase. Começámos a perceber também que o público pergunta.

    CR: O público tem a expetativa de vir ao Pavilhão e ver obras do Julião Sarmento?

    IC: Exatamente. Começámos a ter catálogos do Julião Sarmento à venda na loja, em consignação. Acho muito saudável não termos as obras do Julião no acervo, porque este projeto é, de alguma maneira, altruísta, e foi ele que o pensou assim. Ele quis separar o seu Estate, a sua obra como artista, da sua obra como colecionador. A sua doença foi prolongada, não morreu de repente, e tudo isso foi decisão sua, como gerir o legado que deixava. Sendo uma decisão dele, é uma decisão esperta e altruísta, simultaneamente.

    CR: Talvez para não deixar a gestão expositiva e a visibilidade pública do seu trabalho numa única instituição, possibilitando uma multiplicidade de olhares?

    IC: O seu espólio artístico, quer dizer, as obras feitas por si, está no mercado, não está em nenhuma instituição. O arquivo sim, foi doado à Fundação de Serralves. Acho que foi uma intenção de diversificar o seu legado, o que é um modus operandi interessante. A coleção está em depósito por cinco anos, que podem ser renovados, e um dia pode haver a decisão de terminar este depósito. Mas este espaço tem uma escala média que a cidade não tinha, não é um grande museu como o MAC-CCB, mas também não tem a escala pequena das galerias municipais ou do Atelier-Museu Júlio Pomar. Isso foi para mim um dos desafios, ou até aquilo que mais me atraiu a concorrer a este lugar, esta escala que permite trabalhar sem ter o peso de uma grande estrutura ou da gestão de grandes equipas, e que permite ser um lugar de encontro entre as pessoas e, simultaneamente, flexível. Ao fim do que já fiz como curadora e diretora de instituições, nunca tinha tido esta experiência e, talvez porque já o tenha feito, não me veria agora a voltar a um museu grande, como foi o Centro de Arte Moderna [da Fundação Calouste Gulbenkian]. O Pavilhão tem esta escala muito humana. Uma coisa que já percebi ao fim destes meses é que as pessoas sentem-se bem aqui, sentam-se no banco em frente ao elevador e ficam imenso tempo a ler os truísmos da Jenny Holzer, ficam no mezanino a tomar um café, a ver coisas no computador. É um espaço acolhedor com uma escala humana e as pessoas sentem isso, sentem-se bem aqui. Muitas vezes digo, e isso tem também a ver com a arquitetura do João Luís Carrilho da Graça e o modo como trabalha a luz, que o espaço tem qualquer coisa zen, de calma. E eu quero que continue assim, pois precisamos de lugares que nos acolham, mas de um modo crítico, que nos façam pensar, que possam ter até um bocadinho de risco. A opção de ter obras de arte pelo museu todo, nas escadas, na casa de banho, na cafetaria, é também uma ideia entre o museu e a casa, para reforçar esse lugar de acolhimento e de encontro.

    CR: Aqui tiveste a oportunidade de criar uma equipa. Como foi isso?

    IC: É a segunda vez que eu tenho a oportunidade de criar uma equipa. A primeira vez foi com o Fernando Calhau no Instituto de Arte Contemporânea, em que pudemos criar uma equipa de jovens, como o Nuno Faria, o Nuno Crespo, a Isabel Corte-Real, a Adelaide Ginga, a Joana Sousa Monteiro, o Miguel Wandschneider, o Mário Valente, a Lúcia Marques,… Aqui, foi um misto. A equipa é muito pequena, incluindo eu e a parte do acolhimento, somos nove pessoas. Duas já pertenciam à EGEAC-Lisboa Cultura, uma delas a minha adjunta, a Flávia Violante, que é fundamental porque há uma grande diferença em relação a quando estive no Instituto de Arte Contemporânea, que é os mecanismos de contratação pública terem-se complexificado imenso desde então. Por isso, é fundamental ter uma pessoa como a Flávia Violante, que domina todos esses processos. O Daniel Peres também já pertencia à EGEAC-Lisboa Cultura e está com a investigação e a mediação. Inevitavelmente, todas estas pessoas vieram das Galerias Municipais porque, até agora, eram o único ramo municipal que trabalhava com a arte contemporânea. O resto são perfis que vieram de fora, nalguns casos com uma ligação ao Julião: a pessoa que tem a seu cargo a conservação, o restauro e a montagem, o Romeu Gonçalves, foi assistente dele durante dezassete anos, e a pessoa da comunicação, a Ana Rocha, também fazia parte da sua equipa no atelier. A equipa de acolhimento, essa sim, não tem nenhuma destas proveniências, é muito jovem e entrou por concurso; são três pessoas que têm, como é normal hoje em dia, educação superior e licenciaturas na área da história da arte e da história. A ideia é que esta equipa de acolhimento possa ser também a equipa de mediação, aliás seguindo um modelo que já existe nas galerias municipais, e que daqui a uns tempos possam também fazer visitas guiadas. Há também aqui um lado de formação. Se eu conseguir passar o conhecimento que tenho a uma jovem equipa, fazer algo fundamental que é transmitir a experiência adquirida para as gerações mais novas (não diria “fazer escola”), será algo importante nesta fase da minha vida.

    CR: O Pavilhão Julião Sarmento está a implementar algumas linhas de investigação, nomeadamente através de parcerias com as universidades?

    IC: Estamos abertos a quase tudo (o que é bom). Criámos um protocolo de estágios com a Universidade Católica de Lisboa e vamos assinar um protocolo com a Faculdade de Arquitetura da Universidade Autónoma de Lisboa para trabalhar num projeto de arquitetura e construção de uma obra da Rita McBride. Ela criou há uns anos uma obra chamada Arena, que vendeu recentemente ao DIA Art Foundation, em Nova Iorque, mas com copyleft, ou seja, com permissão de cópia. O DIA, a nosso pedido, enviou-nos os ficheiros da obra e deu-nos os direitos para a sua construção. Nós temos de encontrar, aqui, a maneira de a fazer. A Arena é para a exposição Era uma vez na América e vai ser, durante um ano, uma arena de reflexão, de encontros, de se pensar o que foi a América. Vamos aproveitar a componente arquitetónica-escultórica da exposição e fazer seminários sobre a arquitetura americana, em particular a de Los Angeles.

    Os protocolos e as parcerias são não só uma inevitabilidade como um desejo, ou seja, é criar comunidade e estar com a comunidade. Uma outra maneira de estar com os outros é termos acolhido a proposta da Gulbenkian, que está a apoiar um projeto de residências de curadoria, para recebermos um curador africano. Estamos também a trabalhar com o Centro Cultural de Belém e com a Galeria da Índia para passarmos a ter anualmente um dia em que os três espaços estão abertos e com entrada gratuita, criando um programa entre os três que atende à proximidade física: são 249 passos entre nós.

    Adicionalmente, há algo que identifico, e acho que todos identificamos quando trabalhamos em Portugal, e não só, porque não é só cá, que é a ausência de ensaio crítico sobre arte contemporânea nos últimos anos, e a ausência da própria crítica de arte. O espaço nos jornais ficou reduzidíssimo, há bons exemplos como o da revista Contemporânea, mas não há de facto muito mais. E ainda menos para o ensaio sobre o que é este dispositivo chamado exposição, que é uma coisa muito específica. Vamos criar uma revista anual, chamada Verónica, a primeira sairá no Outono deste ano, cobrindo a programação até junho e convidando pessoas externas, que não estiveram envolvidas nas exposições, a escrever sobre elas. Isso é um modo, por um lado, de incentivar o ensaio crítico sobre as exposições e sobre a programação, e por outro, de criar uma memória do que aqui se passou, incluindo o registo das vistas das exposições. Temos estado a publicar umas pequenas brochuras, uma espécie de roteiro para cada um dos projetos, com um texto sucinto e informativo sobre as nossas atividades, e depois o ensaio crítico e aprofundado fica para a Verónica e para os olhares exteriores.

    CR: Porquê o nome Verónica?

    IC: Uma das linhas que o Julião e muitos da sua geração seguiram foi a gravura. O Pavilhão já iniciou uma linha de produção de gravuras, convidando artistas para fazer uma gravura em edições de 50 exemplares assinados e numerados, a primeira artista a fazê-lo foi a Fernanda Fragateiro. Uma das primeiras «gravuras» é o Pano de Verónica, a impressão da cara de Cristo num pano, para mim essa é a primeira gravura do mundo ocidental. É também, já agora, uma ideia antiga, que não é só minha. O Paulo Varela Gomes, o Paulo Pereira e eu tivemos a dada altura, no final dos anos 1990, a ideia de criar uma revista de história da arte que se chamaria Verónica, a partir dessa ideia do “vero ícone”, e eu achei que, a partir da gravura, esta era uma ideia antiga a recuperar e também uma homenagem ao Paulo Varela Gomes, que foi uma pessoa importante na minha vida, não só um grande amigo, como uma pessoa com quem eu adorava falar, era um instigador, um intelectual, adorava uma discussão e tinha uma enorme capacidade de argumentação, puxava pelas ideias e era um historiador da arte brilhante.

    CR: Daqui a cinco anos, onde imaginas que possa estar o Pavilhão Julião Sarmento?

    IC: Se estiver onde já está já não é mau. Ou seja, se não houver nenhum retrocesso, se se puder continuar a trabalhar com estas linhas. Apesar de tudo, estou muito feliz, porque temos uma média de mil visitantes por mês, o que para um sítio novo e discreto como este, com esta entrada pouco visível, com esta identidade gráfica contida criada pelo Pedro Falcão, é bom. Pertencendo ao universo da EGEAC-Lisboa Cultura, é um equipamento que não tem entrada gratuita, mas estou contente pela reação que tenho tido por parte do público. Temos feito um grande esforço de comunicação, estamos a gastar mais de dez por cento do orçamento a comunicar o que estamos a fazer, mas é fundamental para pôr este lugar no mapa. Espero também este ano trabalhar mais a parte da mediação, o que decerto trará outras dinâmicas. Internacionalmente, queremos passar a ser uma referência também, queremos que as pessoas que vêm a Lisboa comecem a ver este Pavilhão como parte do mapa da arte contemporânea no mundo. Se daqui a cinco anos, conseguirmos isto, estarei muito feliz.

    Imagem de Capa
    Take 1 (4/06/2025 – 26/04/2026). Vista de exposição no Pavilhão Julião Sarmento, Lisboa, 2025. Foto: © Fábio Cunha. Cortesia Pavilhão Julião Sarmento / EGEAC - Lisboa Cultura.

    Catarina Rosendo [Lisboa, 1972] Historiadora da arte. Investigadora Integrada do Instituto de História da Arte [FCSH-UNL]. Desenvolveu, entre 2014 e 2017, investigação curatorial para a Colecção do Museu de Arte Contemporânea da Fundação de Serralves. Integrou, entre 1995-2006, o Serviço de Exposições da Casa da Cerca: Centro de Arte Contemporânea [Almada]. Co-autora do filme sobre o escultor Alberto Carneiro, Dificilmente o que habita perto da origem abandona o lugar [2008]. Autora de livros e catálogos de exposição e de ensaios para catálogos de exposição, actas de congressos e imprensa. Prémio [ex aequo] da Academia Nacional de Belas-Artes, 2008, com o livro Alberto Carneiro, os primeiros anos, 1963-1975 [2007]. Actualmente, lecciona no Mestrado em Estudos Curatoriais no Colégio das Artes — Universidade de Coimbra.